A dengue é filha da privatização da saúde

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A cidade do Rio de Janeiro está vivendo uma época deprimente. O cidadão carioca, ao ler o jornal toda manhã, se defronta com o agravamento diário de uma situação na qual ele só consegue ser ver na condição de vítima potencial. Observa com angústia o crescimento das filas nos hospitais e os depoimentos dolorosos dos que padecem a dor indizível de perder os seus filhos vitimados por uma doença evitável. É de cortar o coração.

 

A epidemia de dengue é uma tragédia anunciada. Todo mundo avisou, até os blocos de rua no último carnaval (vide a tabuleta do "Simpatia é quase amor": "Tem porão cheio de mosquitos"). Os profissionais sérios da saúde pública, que trabalham em condições cada vez mais precárias, cansaram de alertar. Disseram que o surto, que acontece todo verão, neste seria pior (sem as providências adequadas, no próximo será pior ainda), alertaram para a presença entre nós de tipos novos e mais perigosos do vírus da doença. Também avisaram que o índice de mortalidade seria maior entre as crianças e os jovens. Tudo era sabido com larga antecedência, mas nenhuma providência foi tomada no tempo certo pelo poder público.

 

Em 1926, em plena epidemia de febre amarela no Rio de Janeiro, o célebre professor Clementino Fraga declarou em nome dos sanitaristas brasileiros que "no Brasil só a calamidade comove o poder público". O deputado Chico Alencar, em pronunciamento da tribuna da Câmara na semana passada, citou a frase para lamentar que, agora, nem a calamidade comove. O Instituto Estadual de Infectologia, conhecido como Hospital do Caju, que ainda conta com estrutura e pessoal especializado no tratamento de doenças infecciosas, está sendo progressivamente sucateado. Enquanto isso, os governos alugam leitos nos hospitais privados e promovem espetáculos televisivos em tendas vazias. Uma lástima.

 

Diante da comoção causada pelo aumento diário dos contaminados pela doença, os jornais têm estampado os números referentes à execução orçamentária das verbas destinadas ao setor saúde nos três níveis de governo. Todos, sem exceção, estão em falta. A União não manda o que deve, o governo estadual corta gastos no setor e a prefeitura também não aplica o que a lei determina. Os responsáveis pela calamidade, portanto, têm nome e sobrenome. O sindicato dos médicos do Rio de Janeiro, por conta de tal realidade, está acionando os governos federal, estadual e municipal por crime de responsabilidade. Atitude corajosa e merecedora de apoio de todo e qualquer cidadão consciente.

 

Embora alguns ainda batam boca entre si, o presidente, o governador e o prefeito estão unidos em torno de um tipo de política que está na raiz da calamidade. São governantes mais preocupados com a saúde da moeda e com a intermediação de grandes negócios financeiros do que com a saúde da população. O desmantelamento dos serviços públicos essenciais é um crime dos governantes que não cumprem sequer o que a lei lhes determina como obrigação. Diante da situação que se agrava a cada dia, ao cidadão cabe o doloroso dever de constatar que a dengue é filha da privatização da saúde.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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Comentários   

0 #5 César Maia deveria cairWalcir 04-04-2008 12:19
De fato, o problema da dengue no RJ passa pela saúde pública. Entretanto, é preciso destacar a incompetência da prefeitura do munícipio e a arrogância do Sr. César Maia que nega a epidemia em vez de buscar ajuda e atender as vítimas do mosquito e ampliar as frentes de prevenção.
Vi em um telejornal que além do prefeito negar a epidemia, o "nobre governante" se comunica com a sociedade por meio de um blog/jornal eletrônico. Não dá entrevistas, não aparece em público, nega a epidemia na cidade que governa e a população morrendo!
Cadê a indignação das pessoas. Em outras épocas os cariocas já tinham mandado embora um prefeito assim insensível e prepotente. O povo do Rio de Janeiro deve combater a dengue e também pessoas como esse "César Maia".
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0 #4 PARECE QUE O SOCIOLOGO NÃO SABE O QUE É EDISON RODRIGUES FILHO 31-03-2008 13:48
Realmente, um sociólogo ter essa posição é desconhecer o SUS. O Sistema pressupoe a hierarquização e a descentralização das ações. A responsabilidade imediata é do GOVERNO MUNICIPAL que realmente não faz a sua parte. Agora, quando não dá, o governo estadual e agora, no caso, o governo federal intervir. O Prefeito existe pra que ?
Parece realmente que essa aliança PSOL e DEMO é interessante. Foi assim com a CPMF e até nas epidemias. Que coisa !!!
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0 #3 Nossa janela para o mundo está podre.Sandra de Cássia Ribeiro 31-03-2008 12:04
O problema seríssimo de falta de saúde com a epidemia da dengue na cidade do Rio de Janeiro, questão pontual, urgente, declarada - sabe-se o causador, os sintomas e muitas das maneiras de evitá-la - a mídia encabeçada pelas Organizações Globo insiste em mostrar a cidade como o cartão postal intacto. Não é. Vamos tirar nosso óculos escuro, vamos olhar o prblema de perto. Não é possível bandidos tomarem conta do cotidiano e das vidas ou morte dos cidadãos. Não é possível governantes sem o menor preparo técnico/administrativo governarem o Estado e posarem de boas pessoas divulgadores da fé, nem mesmo uma emissora de TV mostrar um povo bonito, saudável, bem sucedidos e descolados, se a maioria não o é. Isso vende? Sim vende, mas a causa do problema, o cerne da questão fica por baixo das areias das prais ensolaradas e dos corpos sarados. Quem terá coragem de cobrir os corpos dourados e meter a mão no problema e começar a arrumar a casa pelo quarto de despejo? Se não os governantes, a classe "intelectual" poderia erguer essa bandeira e convocar os trabalhadores, as mães de famílias a ajudarem a fazer o trabalho. Esses sim teriam coragem e ânimo para ajudar a resolver a questão.
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0 #2 Falta de educação também!Leonina Schiavo 30-03-2008 16:57
Somos todos vítimas da falência de caráter de governantes mais interessados na disputa partidária que na adoção de medidas preventivas e curativas da agonizante saúde pública e privada deste país que é o único que conheço. Saúde é tratada como mercadoria, moeda de troca clientelista entre candidato e eleitor, carta na manga de prefeituráveis oportunistas que deixam as decisões importantes e saneadoras para a boca da urna. Nós, população desabituada a participar, medrosa de cobrar, nos contentamos com as sobras e agimos de acordo com a nossa falta de educação, formal e familiar, herança de pai para filho, sem condições sequer de manter limpos e secos, recipientes que abrigam e fazem crescer os mosquitos que transmitem a dengue e que os administradores adormecidos no sono de bons homens e mulheres, acham até que não se trata "ainda" de uma epidemia. O mosquito voa e não reconhece de quem são os membros superiores descobertos pela ignorância de quem manda cobrir as pernas e pés, desconfiados que a população não tem braços para incomodar, nem cabeça para planejar uma reação. Como os mosquitos, passaremos um dia de simples larvas, para um bem criado ser, capaz de picar os brios de quem não respeita o bem estar alheio. Aguardem e sentirão.
Leonina Schiavo.
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0 #1 A dengue é filha da privatização da saúdCarlos Augusto Kuhn 30-03-2008 13:00
É uma lástima, como pode o poder público virar as costas para a população que está morrendo? Morrendo de hemorragia (Dengue hemorrágica)deve ser uma morte horrível, é só imaginar, estão esparando que morram seus filhos? Parem o mundo, a população do Rio de Janeiro deve arregaçar as mangas, não dá também só para ficar culpando os governos, sabemos que são os culpados, mas se eles não agirem, como vamos ficar? Morrendo nossos filhos e nós de braços cruzados e criticando os governos? Não esperem por gevernos, milagres, políticos ou promessas, Nós é que deveremos agir, montando equipes, nos bairros, nas escolas em todos os lugares deste Brasil para acabarmos de vez com este "mosquito".
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