Fernando Lugo, a novidade paraguaia

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O Paraguai vai voltar com força às manchetes nas próximas semanas. Os assuntos não serão os sacoleiros de Ciudad del Este ou a enxurrada de produtos vendidos por boa parte dos camelôs de todo o Brasil. É algo muito mais sério. Dia 20 de abril acontecem as mais disputadas eleições paraguaias em várias décadas. Há muitas novidades em jogo.

 

A primeira é que, pela primeira vez em 65 anos, o velho Partido Colorado pode ser afastado do poder. A segunda é a possibilidade de esta longa hegemonia ser quebrada por uma amplíssima coalizão de centro-esquerda, que abriga de comunistas ao tradicional Partido Liberal Radical Autêntico, agremiação formada por setores nacionalistas. Na cabeça de tudo, o ex-bispo Fernando Lugo, um adepto da Teologia da Libertação. O religioso apresenta uma vantagem de 10 pontos percentuais sobre o segundo colocado na disputa, o ex-general Lino Oviedo, um dissidente colorado, seguido da ex-ministra da Educação Blanca Ovelar, a candidata do partido governista.

 

Os programas de todos os candidatos propõem algum tipo de revisão ao Tratado de Itaipu, firmado em abril de 1973 entre as ditaduras de Emílio Garrastazu Médici, do Brasil, e de Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai com mão de ferro entre 1954 e 1989. Através do documento, ficou acertada a construção da maior usina hidrelétrica do mundo, até então, na fronteira dos dois países. Com validade de 50 anos, o acordo baliza a repartição da energia por ela gerada. Metade fica com o Brasil e metade com o Paraguai. Como o país utiliza apenas 12% do total produzido, pelos termos do documento, é obrigado a vender a eletricidade sobrante ao Brasil, a preços que oscilam de U$S 22 a U$ 44 o KwH. A média de preços da energia hidrelétrica no mercado brasileiro passa dos U$S 80 o KwH.

 

Soberania hidrelétrica

 

A construção de Itaipu, entre 1974 e 1981, consumiu cerca de US$ 16 bilhões em valores da época, pagos em sua maior parte pelo Brasil, e representou um marco decisivo no desenvolvimento dos dois países. A usina é responsável por 19% do PIB paraguaio, com ingressos para os cofres públicos locais de cerca de US$ 1,5 bilhão ao ano.

 

A revisão pretendida pode dobrar o montante arrecadado. A medida tornou-se quase um fator de unidade nacional, sendo chamada de "recuperação da soberania hidrelétrica".

 

Nenhum candidato em campanha defende o tratado tal como está, sob pena de perder votos. O mais radical é o ex-bispo Fernando Lugo. O engenheiro elétrico Ricardo Canese, um dos coordenadores de sua campanha, diz objetivamente o que pretendem, em um livro recém lançado: "Para chegar a uma eqüidade em Itaipu e transformar este ente binacional no principal instrumento de desenvolvimento do Paraguai (...) se requer: 1. Poder vender livremente nossos excedentes elétricos; 2. Receber um preço de mercado pela exportação de tal excedente (que é da ordem de US$ 3 bilhões ao ano)".

 

A meta de Canese é real. A Argentina, outro vizinho paraguaio, enfrenta uma estrutural crise energética, após anos de falta de investimento das empresas privatizadas nos governos de Carlos Menem (1989-1999). A Casa Rosada buscou, em vão, comprar, a preços de mercado, energia de Itaipu. O Tratado impede tal negociação.

 

Os interesses de brasileiros também serão afetados pela proposta de reforma agrária de Lugo. A maior parte das grandes propriedades é de brasileiros, que foram para o outro lado da fronteira entre os anos 1970 e 1980. Tomadas pelas culturas de soja – e agora de cana -, essas terras voltam-se para a agricultura de exportação.

 

Fraude

 

A maior ameaça à vitória do ex-bispo é a possível fraude patrocinada pelos colorados. Praticamente tudo no país é controlado por este partido de direita, fundado em 1887, que historicamente defende os interesses da classe dominante. Dominando o Executivo nacional, o Legislativo e o Judiciário, a influência da agremiação espalha-se por todas as localidades paraguaias. É voz corrente que ninguém consegue emprego, matrículas em escolas públicas, atendimento em postos de saúde ou prestar queixas em delegacias policiais se não apresentar sua ficha de filiação no partido. Os integrantes das forças armadas também devem se filiar para ascender na carreira. Dos seis milhões de paraguaios, quase um terço formalmente é membro da agremiação. É uma máquina poderosíssima, para ninguém botar defeito.

 

O governo brasileiro quer a vitória de qualquer candidato, menos de Fernando Lugo. Um dos partidos governistas, o PT, não tem posição a respeito. Há petistas que preferem Lino Oviedo, há outros sem posição e uma minoria quer o ex-membro da Igreja Católica.

 

Um possível governo Lugo não será revolucionário. Mas representará a chegada de setores populares ao comando de um dos países mais pobres do continente.

 

Gilberto Maringoni é jornalista.

 

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Comentários   

0 #5 estudianteelida 05-04-2008 10:29
Es verdad lo que esta aconteciendo,por primera y ultima vez va ser la derrota del partido colorado, y es Fernando que va ganar con certeza,para que nuestro pais podemos recuperar entero.
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0 #4 para marinoniValter Pomar 04-04-2008 06:31
Prezado Maringoni

Voce tomou conhecimento da posição da CEN sobre a eleição do Paraguai?

Valter Pomar
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0 #3 Comentario de un amigo paraguayoMiguel Carter 20-03-2008 15:01
Me alegra ver el interes periodistico de nuestro gran vecino del Brasil. Por fin somos noticia y noticia positiva. Debo corregir, sin embargo, algunas imprecisiones del articulo. Desde hace mas de una decada que los militares paraguayos no pueden estar afiliados a partidos politicos. Tampoco es necesario ser miembro del Partido Colorado para recibir atencion medica, matricularse en las escuelas, o conseguir cualquier tipo de empleo publico. En esas cosas hemos progresado bastante desde la caida de Stroessner. Claro, aun nos quedan muchos legados de su larga dictadura. La predominancia politica del Partido Colorado es una de ellas. Pero esa predominancia ha perdido mucho peso, y hoy esta centenario agrupacion politica corre el serio riesgo de perder la presidencia --justo cuando postulan a una mujer que se declara ser "socialista humanista" y que proviene de una humilde familia progresista del norte del pais. La posible derrota de los colorados, sin embargo, vendra mas como fruto de su propio desgaste y esciciones internas. A mi juicio, el gran desafio de Lugo no sera derrotar a los colorados --hecho que de por si sera toda una hazana-- si no gobernar a partir de la amplia y disonante coalicion que lo apoya. Llama la atencion ver que algunos petistas estarian apoyando a Lino Oviedo. En terminos politicos del Brasil seria el equivalente del PT dar su apoyo a ACM y su equipo en Bahia. Oviedo es la resabia mas emblematica del regimen anterior en estas elecciones. Con mis mejores saludos, Miguel
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0 #2 sobre PT e LugoValter Pomar 20-03-2008 14:07
Prezado Maringoni

Gostaria de saber com base no que voce diz que "uma minoria" do PT quer apoiar Fernando Lugo.
Voce supõe isto, ouviu dizer, leu isto em algum lugar ou entrevistou algum membro da direção?

Valter Pomar
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0 #1 Por uma unidade continentalBreno Nascimento 20-03-2008 01:09
Esta é mais um lance do xadrez político que nos desafia como latino americanos e defensores de um modelo democrático latino, de esquerda, humanista e solidário. Acho perfeitamente possível que os nossos governos dialoguem para alinhar interesses comuns, considerando nossos pibs, estágios de desenvolvimento das forças produtivas, dívidas sociais, etc. O Paraguai e seu povo, assim como nós, também pleiteia justamente por soberania. Após uma longa história de ditaduras selvagens e monopartidarismo, parece que o povo paraguaio está despertando e com a singular oportunidade de viver o que nós já estamos vivendo: experimentando um governo popular. Sempre acreditei que ser governo para o PT e a esquerda não seria fácil. Sempre acreditei porém, que não poderíamos fugir ao desafio de sê-lo. E hoje somos e mostramos como o Brasil pode ser governado diferente apesar dos profundos vícios encrustados no Estado e na sociedade brasileira. A eleição de Lula no Brasil influenciou o movimento no tabuleiro do jogo político em nosso continente. A derrota do Partido Colorado no Paraguai assemelha-se à derrota do PFL, antigos PDS e ARENA, igualmente partidos únicos durante os longos anos de ditadura no Brasil. Mas cada país tem seu tabuleiro político interno. O Paraguai fará seus lances internos que influenciará obviamente no tabuleiro político continental. Nós temos que entender primeiramente que este jogo é soberanamente do povo paraguaio. Cabe a nós prepararmo-nos para enfrentar um novo diálogo com o novo e legítimo governo qualquer que seja. Se há injustiças na partilha da energia de Itaipu é preciso dialogar sobre isso. Assim como estamos remoldando nossas relações com a Bolívia no caso dos hidrocarbonetos. Em segundo lugar devemos entender que isto reforçará um projeto político de superação das desigualdades e da pobreza em nosso continente. Não queiramos superar a nossa pobreza sufocando as oportunidades de desenvolvimento de nossos irmãos e vizinhos. Temos que consolidar um modelo de desenvolvimento continental. Já é suficiente a dívida histórica que temos com o povo paraguaio com a famigerada guerra do Paraguai. Obvio que o Brasil tem um papel preponderante como locomotiva desta composição, mas temos que sê-lo de uma forma politicamente justa. Temos que encontrar mecanismos econômicos, políticos, sociais, legais e diplomáticos para consolidar a democracia e a hegemonia das forças populares em nosso continente. Continua em curso um alinhamento político e ideológico continental bastante favorável para isto. Se a Europa conseguiu sua unidade na CEE porque não podemos conseguir a nossa quem sabe sob a sigla CELA - Comunidade Econômica Latino Americana. A maior conquista desta iniciativa sem dúvida, é a oportunidade de banir de vez o golpismo, o militarismo, o monopartidarismo, o imperialismo. É a oportunidade de desvansilharmo-nos da influência nefasta e do domínio norte americano. É a portunidade de afirmarmo-nos como continente soberano diante de uma comunidade global solidária e diferente. É a velha utopia que insiste em não evaporar para que a história seja reescrita na ótica da maioria de nosso povo.
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