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Nas
últimas semanas, venho desenvolvendo nesta coluna uma idéia provocativa, a de
um Programa Ecológico de Crescimento, ou PEC. A intenção é estimular a
discussão sobre alternativas ao PAC anunciado em janeiro pelo governo federal,
que permitam atingir objetivos semelhantes, mas sem a extensão de danos
ambientais que o plano oficial certamente acarretará. Até aqui, mostrei que uma
combinação de três tipos de fontes renováveis de energia elétrica (eólica, solar
e biomassa) seria mais do que suficiente para se atingirem as metas presentes e
futuras do programa oficial, trazendo de quebra uma série de outros benefícios,
e não só econômicos.
Mas
ainda há mais opções, solenemente ignoradas pelos políticos e técnicos do
governo, que se preocupam apenas com a construção das mega-usinas hidrelétricas
na região amazônica, e outras no resto do país, que seriam muito danosas a
ecossistemas locais (como a usina Pai Querê no Rio Grande do Sul, que destruirá
porção significativa do ecossistema de florestas de araucária, já extremamente
fragilizado).
Uma
outra fonte de energia renovável é a produção de biogás, o qual contém metano
(um parente do gás de botijão) em sua composição e pode ser utilizado
diretamente para queima, economizando-se outras formas de energia (entre elas a
elétrica), ou indiretamente, alimentando geradores de energia elétrica. O
biogás pode ser produzido a partir de diversos tipos de resíduos que contenham
matéria orgânica, os quais são digeridos por micro-organismos dentro de certas
estruturas (os biodigestores), que impedem a entrada de oxigênio, estimulando
assim a produção de metano.
Como
fonte de matéria orgânica, pode-se aproveitar, por exemplo, dejetos de animais
criados em confinamento, como suínos, aves e gado leiteiro. Pela dificuldade de
acumular-se a quantidade de resíduos necessária para produção de gás suficiente
para alimentar uma termelétrica, o aproveitamento dar-se-ia em nível local,
economizando-se energia de outras fontes, além de resultar em claras vantagens
ambientais, dado o enorme potencial poluidor de dejetos animais.
Os
biodigestores podem também ser alimentados com esgoto doméstico. Um estudo
realizado pelo Centro Nacional de Referência em Biomassa da USP (Cenbio) estima
que todos os efluentes líquidos da Grande São Paulo permitiriam gerar uma
potência de 20 megawatts (milhões de watts – MW), o suficiente para as
necessidades de uma cidade de 40
a 300 mil habitantes, dependendo do nível de consumo. O
potencial energético deste tipo de fonte pode não ser muito significativo em
termos absolutos, mas, se extrapolarmos estes valores para as grandes
metrópoles brasileiras, este valor certamente aumentaria, além de ser um
destino muito mais nobre para os dejetos humanos do que o despejo por aí, in
natura ou tratado. Neste caso, obtém-se energia limpa e renovável ao se atacar
o grave problema de saneamento ambiental.
Mais:
diversos efluentes industriais podem também ser tratados com biodigestores,
principalmente do setor de alimentos e bebidas. Para se ter uma idéia do
potencial, outro estudo elaborado pelo Cenbio calculou que o tratamento de
resíduos apenas das cervejarias brasileiras permitiria a geração de uma
potência de 20 MW. Já dava para gelar um bocado da bebida que produzem.
O
biogás pode ainda ser produzido a partir do vinhoto, o resíduo tóxico das
usinas de álcool e açúcar. E aí temos um potencial bem mais significativo. Um
estudo apresentado em um congresso realizado em 2006 na UNICAMP mostrou que,
com a produção da safra 2004/2005, o potencial estimado era de geração de 645
MW, se o gás fosse usado para movimentar usinas termelétricas. O custo de
implantação do sistema ainda é elevado, mas pode ser incentivado tanto pelo
mercado de créditos de carbono, quanto por ações de governo.
Outra
forma de obter-se gás metano é a partir de aterros sanitários, em cujo interior
existem condições de falta de oxigênio que induzem a sua produção a partir da
decomposição da matéria orgânica presente no lixo. Um estudo feito pela
ESALQ-USP mostrou que pode haver um potencial de aterros sanitários no Brasil
até 2010 de quase 315 MW em um cenário conservador e perto de 390 MW em uma
perspectiva otimista. O custo estimado do MW pelo estudo ainda era
relativamente alto, mas devemos lembrar que o investimento não é só energético,
mas também de saúde pública, além de levar à redução de emissões de gases do
efeito estufa.
Para
completar o rol de opções, temos uma fonte renovável de energia cujo
aproveitamento ainda está no estágio experimental ou feito de forma incipiente:
o mar. Em tese, pode-se aproveitar a energia gerada por diversos movimentos
marítimos, como a subida e descida das marés, o fluxo das correntes ou o
movimento das ondas. Segundo Segen Estefen, pesquisador do COPPE (Coordenação
dos Programas de Pós-graduação de Engenharia) da UFRJ, o litoral brasileiro
poderia suprir até 15% da demanda de energia elétrica do país.
O
investimento em novas tecnologias como esta é interessante, pois tem que ser
feito em paralelo com o estímulo à pesquisa, parte crucial do desenvolvimento
de qualquer nação, e que pode vir a viabilizar tecnológica e economicamente
estas opções, no caso de elas serem caras. No começo da implantação do programa
do Pró-Álcool no Brasil também havia muitas dificuldades e obstáculos práticos
e tecnológicos. O tanto que avançamos no assunto deveria por si só ser
argumento suficiente para o investimento em tantas formas de energia
alternativas quantas fossem possíveis.
Em
todos os casos analisados nesta série de artigos, há um outro ganho adicional.
O fato de a geração de energia ser distribuída, ao invés de estar centralizada
em poucos locais, diminui os gastos com transmissão. Só para a construção de
mais de 4.700 Km
de linhas de transmissão na região Norte, parte das quais para interligar as
usinas que serão construídas no meio da Amazônia com o restante da rede, o PAC
prevê gastos de R$ 5,4 bilhões. Com o investimento em outras fontes energéticas
renováveis, este valor cairia significativamente.
Pois
bem, até aqui analisei somente alternativas em termos de oferta de energia
elétrica. Porém, há dois tipos de ação que ainda podem ser feitos para entrar
na equação energética. Uma delas diz respeito à revitalização de usinas e a
melhorias nas linhas de transmissão. De acordo com um estudo elaborado na USP
em 2001, com a repotenciação de 67 usinas antigas no Brasil, poderíamos
adicionar mais de 11 mil MW de potência, quase tudo o que o PAC planeja
acrescentar até 2010. O custo estimado da adição de parte deste potencial (mais
de 8 mil MW): R$ 5,4 bilhões, menos de 10% dos gastos planejados pelo PAC para
o setor (R$ 78,4 bilhões) e exatamente o valor a ser gasto com as onerosas
linhas de transmissão que serão construídas na região Norte por optar-se por
construir hidrelétricas nos confins do Brasil. E isto sem construir nada de
novo, sem alagar nada que já não esteja alagado, sem gastar com novas linhas de
transmissão, sem novos impactos ambientais.
A
revitalização pode ocorrer também com pequenas centrais hidrelétricas (PCHs),
aquelas com potência instalada menor que 10 MW, muitas das quais encontram-se
até mesmo desativadas. O mesmo estudo cita que a repotenciação de 600 PCHs em
operação poderia adicionar 200 MW à potência instalada no Brasil em curto
espaço de tempo, enquanto que a reativação de aproximadamente 600 unidades
adicionaria outros 120 MW.
O segundo tipo de ação faria parte do planejamento do
crescimento do país. Já que o governo propôs-se a desonerar fiscalmente alguns
setores industriais com o PAC, poderia muito bem escolhê-los com base na
relação entre seu consumo energético e a renda e o número de empregos que gera.
Quanto maior o número de empregos gerados por unidade de consumo de energia,
maior poderia ser a desoneração. Desta forma, o planejamento estaria incentivando
aqueles setores que melhor fizessem uso da energia, em termos de alavancar a
renda do país.
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