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Afeganistão: o triste repetir de um conflito civil Imprimir E-mail
Escrito por Virgílio Arraes   
Sexta, 14 de Março de 2008
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Observa-se na política internacional contemporânea um momento ímpar: há uma década, os Estados Unidos eram a única potência reconhecida para gerir simultaneamente dois conflitos de intensidade média. Espanta, portanto, a situação em que se encontra atualmente o país, a despeito das fanfarronices dirigidas, de modo ocasional, ao Irã ou Coréia do Norte.

 

No Afeganistão, a despeito do extensivo apoio político ofertado pela coligação anglo-americana, o maior dirigente oficial, Hamid Karzai, mal administra 1/3 do território, dividido em 365 distritos, embora conte também com o auxílio de milhares de efetivos amero-europeus muito bem equipados – os norte-americanos mantêm mais da metade dos combatentes.

 

Na prática, considera-se o presidente afegão tão somente o prefeito de Cabul, tamanha a incapacidade gerencial de se supervisionar adequadamente o país – nem sequer a capital é considerada segura desde o ataque, em janeiro último, a um hotel onde se hospedavam em sua maioria estrangeiros. As forças armadas regulares mal ultrapassam a barreira dos 50 mil, quase se equivalendo ao efetivo das tropas estrangeiras.

 

Por outro lado, o Talibã, visto como o principal grupo insurgente, não arrebata de maneira consistente o apoio da sofrida população, embora seja parcialmente financiado por atividades relacionadas com a produção de ópio, derivadas do cultivo de pequenos agricultores.

 

Desta forma, não há um encaminhamento oportuno para as necessidades do povo afegão, extenuado por décadas de conflitos e submetido ainda, em muitas partes do território, à vontade política de chefes locais, desconectados, por vezes, de uma visão unitária do país. Assim, dificulta-se sobremodo a identificação de interlocutores com os quais se possam entabular negociações diplomáticas mais amplas.

 

O envio de mais tropas por parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) não minimiza, decerto, o impasse no médio prazo, visto que - em face da dificuldade de arregimentar voluntários - o Talibã emprega mais e mais as táticas de emboscadas e de explosões nas precárias estradas, além dos ataques suicidas em locais públicos. Destarte, evitam-se combates diretos.

 

Saliente-se, entretanto, que os países-membros da organização militar norte-atlântica não querem, com exceção da França, enviar mais soldados indistintamente. A Alemanha, por exemplo, aceita despachá-los, desde que deslocados para o norte, onde a intensidade das escaramuças é menor. De forma geral, pode-se afirmar o malogro da primeira tentativa de transformar a Otan em força expedicionária, mesmo de modo cauteloso.

 

Executou-se o projeto no início de 2006. A condição sine qua non para a presença de tropas fora de suas fronteiras foi a de jamais principiar um combate, mas revidá-lo tão somente, isto é, ter um posicionamento de autodefesa. Na prática, elas funcionariam para auxiliar a estabilidade de zonas fora do controle do Talibã.

 

Entrementes, devido à intensificação dos ataques pela insurgência, os eleitores europeus desaprovam a permanência dos seus respectivos efetivos - em parte por considerar uma questão anglo-americana, não continental -, o que repercute na má vontade dos governos de lá com relação ao envio de mais militares ou mesmo à manutenção da quantidade originalmente remetida. Ademais, o desgaste político do presidente George Bush reforça o distanciamento dos dirigentes da Europa.

 

Assim, emperra-se a campanha militar em solo afegão. A partilha de responsabilidade entre os Estados Unidos e países europeus, sob o manto da OTAN, não funcionou. Todavia, Washington não tem condições no momento atual de arcar sozinho com o fardo da guerra, ainda mais quando se cogita a aplicação de um, na visão estadunidense, corretivo no Irã e se aguarda o resultado do processo eleitoral para a Casa Branca.

 

Aparenta-se, à primeira vista, que a forma de escolha do objetivo da atuação norte-americana no Afeganistão permaneceu a mesma da época da Guerra Fria: expulsar o opositor, sem preocupar-se, na mesma intensidade, em viabilizar o substituto. Assim, expulsaram-se de cena os soviéticos e floresceu vivamente uma guerra civil; novamente, afastaram-se os talibãs e vivencia-se de novo uma disputa interna.

 

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais na UnB.

 

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Última atualização em Sexta, 14 de Março de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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