A dívida externa acabou?

 

Em tom de jactância, anunciou-se recentemente, de fonte oficial, que o Brasil havia praticamente eliminado sua dívida externa pública no mês de fevereiro, quando o nível de suas reservas em moeda estrangeira, atingindo o volume de 190 bilhões de dólares, ultrapassara o valor dessa dívida (dívida externa de responsabilidade de entidades públicas). Do anúncio à sua leitura pelo ‘marketing’ oficial ou oficioso vai um pulo, qual seja, o de se criar uma "corrente de otimismo", na linha das deduções equívocas – vivemos uma nova era, a dívida externa é coisa do passado.

 

O astuto inimigo da verdade não opera com falsidades absolutas, até porque é muito fácil desmenti-lo. Trabalha com meias-verdades, que são mais intrincadas para demonstrar e desmontar. Enquanto isso, desfila com sua versão de equívocos, logo sucedida por outra e mais outra, usufruindo sempre o benefício da ambigüidade e da dúvida. É precisamente neste contexto que se situa o caso que estamos comentando. Vejamos onde se encontra o "pulo do gato".

 

Considerando que dívida externa do Brasil são as obrigações acumuladas de seus residentes (pessoas físicas e jurídicas) a pagar em moeda estrangeira, temos dado por este conceito, que é o que vale nas relações financeiras internacionais, algo que é muito mais amplo que o da dívida externa pública. Isto porque a dívida externa privada (dos residentes) também demanda moeda estrangeira, embora seja pequena atualmente, ao redor de 35 bilhões de dólares.

 

Mas o nó górdio da questão aqui não é a registrada dos residentes, mas sim a liberalidade atualmente atribuída a qualquer residente de transformar patrimônio interno em dívida externa, em razão da completa frouxidão nos controles externos para entrada e saída de capitais. Isto deixa a magnitude da dívida como uma incógnita, cuja sinalização para mais ou para menos dependerá de processo externo, com dois componentes autônomos e ao mesmo tempo inter-relacionados: o déficit (ou superávit) na conta corrente com o exterior e o movimento de capitais de risco. Estas duas torneiras são vitais para se saber para onde vai o nível da dívida e das reservas no futuro próximo, adicionadas de uma terceira condição - a completa liberdade do movimento de valores financeiros (capitais de curto e de longo prazos).

 

Com relação ao déficit em conta corrente (balanço anual das transações de mercadorias e serviços com o exterior), de fato o Brasil conseguiu melhorar sensivelmente sua situação a partir de 2003, saindo de uma posição continuada e fortemente deficitária durante o período FHC para a situação de superávit durante o último qüinqüênio. Isto é a peça chave que permite, neste período, formar reservas e reduzir substancialmente o endividamento externo.

 

Por sua vez, também no qüinqüênio (com exceção do ano de 2003), foi bastante favorável o movimento de capital de risco, tanto de curto como de longo prazo, algo que combinado com situação comercial superavitária deixou muita folga no Balanço de Pagamento. Isto chega a criar situações de euforia, do tipo "a dívida externa acabou".

 

Por outro lado, se observarmos a conjuntura brasileira e mundial em 2008, veremos que temos sinalizações claras de sinal amarelo (alguns acham até que já está passando a vermelho), precisamente nestes dois condicionantes básicos do processo da dívida externa. O superávit na conta corrente reverterá para déficit em 2008 e o movimento de capitais de risco tende a encurtar fortemente nos fluxos de longo prazo, mantendo-se somente ativo no dinheiro altamente especulativo que é atraído pela alta taxa doméstica de juros. Isto tem tudo a ver com crise financeira internacional, com epicentro atual nos Estados Unidos, que a tempos regulares, desde 1982, sacode negativamente as economias emergentes.

 

O momento conjuntural não é nem um pouco justificador de jactância com relação à situação externa. Ao contrário, é oportuno para rever a condição atual de completa liberdade de entrada e saída de capital, acionando-se imediatamente mecanismos de proteção de nossas reservas internacionais. Estas, acumuladas que foram em moeda externa (dólar), que se desvaloriza rapidamente, custaram e custam muito caro manter (juros ‘selic’) e custariam muito mais ainda a se verem esvair rapidamente, sob ação de ataques especulativos (lembrem-se de 1999).

 

A situação atual, considerada a hipótese de piora sensível da situação financeira externa, somente seria substancialmente distinta daquela que enfrentamos em 1999 (mudança do regime cambial do real) se o país revisse fortemente o processo gerador de dependência naqueles três fatores dantes assinalados: déficit na conta corrente, pátria especulativa para capitais de curto prazo, completa liberdade de entrada e saída de capitais.

 

Ter dívida externa não é em princípio um problema. Mas apresentar situação estrutural de vulnerabilidade externa é ponto de fragilidade, altamente preferido pelos predadores em situações de crise. Isto se corrige preventivamente, com conhecimento, compromisso ético e determinação política, mas nunca com jactância em momento crítico.

 

Guilherme Costa Delgado, economista do IPEA, é doutor em Economia pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.

 

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Comentários   

0 #24 Joao Paulo 18-10-2010 12:38
olhe! não sei do que reclamam! ah claro economista,Doutor em economia,bom nada contra voces mas parecem estar fora da realidade atual de que o povo passa!,as elites claro reclamam ignoram os fatos do desenvolvimento de um pais subdesenvolvido;chega de monopólio na mão de "democratas" que só veem o desenvolvimento do pais na mão de burgueses; "de senhores do dollar",álias quem paga o teu carrinho, a tua comida,o teu terninho,esse computador agora que esta digitando concerteza não são os grandes empresários,e sim a grande massa de Brasileiros trabalhadores que sofre tanto para pessoas como voce e tantas outras e não suportam que pessoas mais pobres que voce, não consiguam se igualar.não suportam a ídeia de um filho de analfábeto consiga cursar uma universidade e se tornar um cidadão mais digno! assim como voce se acha!
vide site banco mundial ! lá voce vai descobrir a verdade.
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0 #23 Dívidas externas.Dionysio Rosa 28-06-2010 14:50
Eu sou um joão ninguém,mas não sei porque tanta preocupação com a dívida externa,essas dívidas significa crédito,quanto mais dívida um pais tem,mais crédito ele tem,os EUA é o pais que mais dívida externa tem no mundo e é o pais mais poderoso do mundo!
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0 #22 - Esclarecimentos sobre o que fora pago Leamartine Pinheiro de Souza 25-06-2010 15:46
Prezada Sra em 25-06-2010 14:10

Eu disse que o Presidente Lula pagou a dívida com o FMI e com o Clube de París, sendo que, do FMI, hoje, somos CREDORES, ou seja, emprestamos ao FMI para que o FMI empreste para outros necessitados. Quanto à dívida externa, ela não é só do governo. A maior parte é das empresas privadas que importam com financiamentos externos e que, quando forem pagar estes financiamentos, necessitaram COMPRAR DÓLARES no Banco Central já que, no exterior, são poucos os países que aceitam o REAL como moeda de pagamento internacional, embora este aceite do REAL tenha se iniciado no Governo do Presidente Lula, pois, antes, NEM PENSAR !!!
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0 #21 Sandrra 25-06-2010 12:10
Concordo plenamente com Sr.Aroldin. Ainda nao encontrei nenhum documento ou artigo que confirme que a divida tenha sido paga. Bem ao contrario. E Leamartine Pinheiro de Souza, de onde vem essa certeza de que a divida foi paga?? Eu gostaria de acreditar, mas tenho receio que nao seja assim tao simples.
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0 #20 Não, não pagou. Só pagou o FMI.Carlos Alberto Dieter 24-06-2010 15:01
Aos professores de ensino médio e fundamental que perguntaram aqui sobre a dívida externa, mas não entenderam o artigo acima, a resposta á a seguinte: NÃO, a dívida externa não foi paga. Mas vocês podem fazer a seguinte analogia para entender o assunto, em números atuais (junho de 2010): o Brasil deve 218 bilhões de dólares, mas tem um cofre lá no nosso Banco Central cheinho de dólares, tão cheio que soma 250 bilhões, que são as tais reservas (tipo uma poupança). Então, nesse cofre tem dinheiro suficiente para pagar a dívida, e ainda sobra um pouquinho. Mas tem também outro problema: a DÍVIDA INTERNA. Então, imagine que lá mesmo no nosso Banco Central tem um armário cheinho de notas promissórias. Sabem quanto somam essas notas promissórias? Mais ou menos 1 TRILHÃO e MEIO. Mas é dívida que o governo deve para o povo, e paga direitinho, sempre em dia. E quando falta dinheiro para pagar essas "notas promissórias", ele emite outras novas para pagar as "velhas", hehe... É isso.
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0 #19 Pagou ? Então porque o FMI, ainda não reAroldin 15-06-2010 08:23
É impressionante o poder discimulador, deste governo. O povo votou num partido puro sangue, limpo, incorrupto, transparene etc..Contudu as falcatruas foram sendo desmascaradas, os marginais foram empurrados pra baixo da cortina da dissimulação e a midia foi tapando com maestria, toda a enrolação. O mesmo acontece com a famigerada divida externa. VOCÊ ACREDITA MESMO QUE FOI PAGA? A quem interessa que o povo fique na ignorancia? Aos mesmos que querem que o povo continue na ignorancia sobre a morte do Celso, pra onde foi o dinheiro do mensalão, e outros mistérios dos oPorTunistas, que provaram que aquele sonho dos metalurgicos do ABC, se transformou no pesadelo do povo brasileiro.
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0 #18 SrLeamartine Pinheiro de Souza 14-06-2010 19:16
Prezado Sr 17. Escrito por Wagner em 11-03-2010 14:48

No fim dos 8 (oito) anos de mandato de FHC, o Brasil andava de pires nas mãos implorando financiamentos para poder pagar os juros da dívida brasileira. Hoje, o Brasil está com mais de 270 BILHÕES de dólares em caixa, pagou a dívida com o FMI e com o Clube de Paris e se livrou da ingerência do FMI em nossa política econômica.
Ou seja, hoje, o Brasil possui mais reservas em moedas conversíveis do que toda a dívida externa brasileira, a maioria, das empresas privadas que, quando forem pagar estas dívidas, precisarão dos DÓLARES DE NOSSAS RESERVAS !!!
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0 #17 Divida ExternaWagner Silva 11-03-2010 12:48
Gostei muito do que li palavras claras de fácil entendimento até mesmo para leigos.
É triste mais ouço todos os dias que Lula pagou a divida externa.
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0 #16 Divida ExternaSandra 02-03-2010 11:32
Como li acima, nao sou a unica que me pergunto sobre a divida externa!! Li varios artigos, mas ou sao muito compicados ou enrolam para nao dizer nada! Minha pergunta é simples e direta: o Brasil pagou o que devia ao FMI??? Alguem poderia esclarecer minha duvida. Muito obrigada
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0 #15 NINGUÉM PODERIA PREVERLeamartine Pinheiro de Souza 29-10-2009 19:37
Quando o Presidente Lula assumiu, pensei que em no máximo dois meses pediria o boné, já que pegara um governo com R$.1,3 trilhões de dívida (interna + externa) e sem as empresas públicas lucrativas que foram entregues pelo desgoverno anterior, no entanto, a primeira coisa que ele fez, foi liquidar as dívidas com o FMI e com o Clube de Paris, para calar a boca daqueles que propalavam aos quatro ventos: QUEM NÃO PUDER PAGAR SUAS DÍVIDAS QUE AS PAGUE COM TERRAS, de olho em nosso território amazônico. Depois, reverteu o DÉFICT CRÔNICO de nossa balança comercial, gerou superávits, tanto externo quanto fiscal e acabou demonstrando ser um ESTADISTA que ninguém, absolutamente ninguém ousaria prever que o fosse. Por este motivo, lamento profundamente esta aleivosia eleitoral que glosa o direito do POVO SOBERANO reeleger quantas vezes lhe aprouver os seus bons representantes, para acontecer, no Brasil, o que aconteceu nos EUA que proibiram Bill Clinton de se candidatar para um terceiro mandato e abrindo as portas para que George W Bush acabasse com a maior economia do planeta. Portanto, fica a indagação, A QUEM INTERESSA esta inibição às reeleições livres, ao povo soberano que tem o seu direito cerceado, aos bons governantes, ou aos maus governantes que se esgueiram pelas sombras para abocanhar o poder ?!!
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