Os blocos dominantes se entendem na truculência

 

 

Nesse momento, os governos estaduais tucanos estão na vanguarda da truculência. Não apenas no quesito privatizações, como bem demonstra o governo Serra, como também no quesito repressão aos movimentos populares – área na qual o governador paulista dispensa apresentações.

 

Mas quem ocupa a cena agora é o governo tucano do Rio Grande do Sul. A governadora Yeda Crusius, às vésperas do 8 de março, mandou sua Polícia Militar protagonizar uma violenta ação contra 800 mulheres sem-terra.

 

As trabalhadoras protestavam na fazenda Tarumã, contra a multinacional sueco-finlandesa Stora Enso. Todas foram presas e 60 mulheres, incluindo grávidas, foram feridas com balas de borracha.

 

Yeda Crusius, cinicamente, não quis dar satisfações após essa barbaridade (o que, aliás, apenas ilustra que as mulheres da classe dominante não têm nada a ver com a vida e a árdua luta das mulheres da classe trabalhadora).

 

A desembestada fúria tucana anti-movimentos sociais não tem encontrado qualquer obstáculo na esfera do governo federal. Afinal, o presidente Lula está muito ocupado em tentar minimizar diante do mundo o escândalo do trabalho semi-escravo redescoberto na indústria de cana – sua menina dos olhos – e do desmatamento predatório para fins do agronegócio.

 

Para Lula, na revolução industrial inglesa, século 18, o trabalho nas minas de carvão era pior, e esse trabalho foi a base do crescimento industrial europeu. O presidente fez essa comparação despropositada, ao referir-se aos índices da produtividade do Brasil nos últimos 15 anos (1).

 

Bem, se o presidente legitima esse patamar de superexploração do trabalho e de destruição do meio-ambiente como caminho para o crescimento do Brasil, convenhamos que as prisões e balas de borracha dos governos estaduais tucanos são uma conseqüência, um tanto quanto natural, contra aqueles que resistem com suas ações a este modelo.

 

Unidos na política econômica, unidos na truculência estão os dois blocos políticos dominantes.

 

A solidariedade e o apoio às mulheres sem-terra poderia se traduzir em uma ampla campanha contra a repressão e criminalização dos movimentos sociais, pela defesa dos direitos da classe trabalhadora. Do jeito que andam os parceiros do poder no Estado brasileiro, esta pauta estará cada vez mais na nossa agenda.

 

Em tempo: os primeiros apagões

 

Na primeira semana de março, dois apagões parciais na cidade de São Paulo e em duas outras cidades da região metropolitana não tiveram suas causas devidamente explicadas. São sinais de esgotamento e crise na produção de energia no país. Acirra-se a contradição entre o crescimento econômico do último ano e os gargalos na infra-estrutura do país, após duas décadas de sucateamento e privatizações.

 

E o "modelito" dos blocos dominantes para essa crise que se avizinha é, na essência, continuar transferindo a produção e distribuição de energia para os grandes capitais privados.

 

No mês dos apagões em São Paulo, o governo Serra pretende realizar a privatização da CESP, pelo preço mínimo.

 

No âmbito federal o cenário não é muito diferente: favorecimento às grandes empreiteiras na construção das hidrelétricas do Rio Madeira, tentativas de leiloar as novas bacias de petróleo e gás natural e... o PAC do setor elétrico, em que estão previstos investimentos de R$ 78,4 bilhões até 2010. Segundo o próprio Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), totalmente insuficientes para dar conta da demanda de energia até 2013.

 

E enquanto Lula espera o capital privado aderir ao PAC para resolver a geração de energia elétrica, continuam atrasadas as obras de construção das 37 novas hidroelétricas. E os apagões voltando...

 

A propósito da questão energética – especialmente para entender por que o Estado brasileiro e suas estatais do setor, como a Eletrobrás e Itaipu, não conseguem investir no setor –, é recomendável a leitura da entrevista do ex-presidente da Eletrobrás, Luiz Pinguelli Rosa, ao Correio da Cidadania, em 28/08/2007.

 

(1)"Vira e mexe, agora virou moda ir para um debate na Europa e alguém ficar dizendo que nós estamos desmatando a Amazônia, não têm nem noção do crescimento da produtividade brasileira nos últimos 15 ano (...) Vira e mexe, nós estamos vendo eles falarem do trabalho escravo no Brasil, sem lembrar que o desenvolvimento deles, à base do carvão, o trabalho era muito mais penoso do que o trabalho na cana-de-açúcar".

 

Fernando Silva é jornalista, membro do Diretório Nacional do PSOL e do conselho editorial da revista Debate Socialista.

 

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Comentários   

0 #2 contorcionismo verbalálvaro marins 10-03-2008 06:59
Incrível a capacidade do articulista em tentar de alguma forma culpar o presidente Lula pela violência policial de governadores do PSDB.
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0 #1 Odon Porto de Almeida 08-03-2008 16:24
Não é estranho o comportamento reacionário do tucanato, infelizmente estimulado pela inação do petismo.
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