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“Parar a roda bloqueando seus raios” Imprimir E-mail
Escrito por Pedro Casaldáliga   
Quarta, 05 de Março de 2008
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Estava eu pensando a circular de 2008, quando me invade, como um rio bíblico de leite e mel, uma autêntica enchente de mensagens de solidariedade e carinho por ocasião dos meus 80 anos. Não podendo responder a cada um e a cada uma em particular, inclusive porque o irmão Parkinson tem os seus caprichos, peço a vocês que recebam esta circular como um abraço pessoal, entranhável, de gratidão e de comunhão renovadas.

 

Estou lendo uma biografia de Dietrich Bonhoeffer, intitulada, muito significativamente, Deveríamos ter gritado. Bonhoeffer, teólogo e pastor luterano, profeta e mártir, foi assassinado pelo nazismo, no dia 9 de abril de 1945, no campo de concentração de Flossenbürg. Ele denunciava a "Graça barata" à qual reduzimos muitas vezes nossa fé cristã. Advertia também que "quem não tenha gritado contra o nazismo não tem direito a cantar gregoriano". E chegava finalmente, já nas vésperas do seu martírio, a esta conclusão militante: "Tem que se parar a roda bloqueando seus raios". Não bastava então socorrer pontualmente as vítimas trituradas pelo sistema nazi, que para Bonhoeffer era a roda; e não nos podem bastar hoje o assistencialismo e as reformas-remendo frente a essa roda que para nós é o capitalismo neoliberal com os seus raios do mercado total, do lucro omnímodo, da macro-ditadura econômica e cultural, dos terrorismos do Estado, do armamentismo de novo crescente, do fundamentalismo religioso, da devastação ecocida da terra, da água, da floresta e do ar.

 

Não podemos ficar estupefatos diante da iniqüidade estruturada, aceitando como fatalidade a desigualdade injusta entre pessoas e povos, a existência de um Primeiro Mundo que tem tudo e um Terceiro Mundo que morre de inanição. As estatísticas se multiplicam e vamos conhecendo mais números dramáticos, mais situações infra-humanas. Jean Ziegler, relator das Nações Unidas para a Alimentação, afirma, carregado de experiência, que "a ordem mundial é assassina, pois hoje a fome não é mais uma fatalidade". E afirma também que "destinar milhões de hectares para a produção de biocarburantes é um crime contra a humanidade". O biocombustível não pode ser um festival de lucros irresponsáveis. A ONU vem alertando que o aquecimento global do planeta avança mais rapidamente do que se pensava e, a menos que se adotem medidas urgentes, provocará a desaparição de 30% das espécies animais e vegetais, milhões de pessoas serão privadas de água e proliferarão as secas, os incêndios, as enchentes. A gente se pergunta angustiado quem irá adotar essas "medidas urgentes".

 

O grande capital agrícola, com o agronegócio e cada vez mais o hidronegócio, avança sobre o campo, concentrando terra e renda, expulsando as famílias camponesas e jogando-as errantes, sem terra, acampadas, engrossando as periferias violentas das cidades. Dom Erwin Kräutler, bispo de Xingu e presidente do CIMI, denuncia que "o desenvolvimento na Amazônia tornou-se sinônimo de desmatar, queimar, arrasar, matar". Segundo Roberto Smeraldi, da Amigos da Terra, as políticas contraditórias do Banco Mundial, por um lado, "prometem salvar as árvores" e, por outro lado, "ajudam a derrubar a Amazônia".

 

Mas a utopia continua. Como diria Bloch, somos "criaturas esperançadas" (e esperançadoras). A esperança segue, como uma sede e como um manancial. "Contra toda esperança esperamos". Da esperança fala, precisamente, a recente encíclica de Bento XVI. Pena que o Papa, nesta encíclica, não cita nem uma vez o Concílio Vaticano II, que nos deu a Constituição Pastoral Gaudium et Spes – Alegria e Esperança. Seja dito de passagem, o Concílio Vaticano II continua amado, acusado, silenciado, preterido... Quem tem medo do Vaticano II? Frente ao descrédito da política, em quase todo o mundo, nossa Agenda Latinoamericana 2008 aposta por uma nova política; até pedimos, sonhando alto, que a política seja um exercício de amor. Um amor muito realista, militante, que subverta estruturas e instituições reacionárias, construídas com a fome e o sangue das maiorias pobres, ao serviço do condomínio mundial de uma minoria plutocrata.

 

Por sua parte, as entidades e os projetos alternativos reagem tentando criar consciência, provocar uma santa rebeldia. O FSM 2009 vai se realizar, precisamente, na Amazônia brasileira e terá a Amazônia como um dos seus temas centrais. E o XII Encontro Inter-eclesial das CEBs, em 2009, se celebrará também na Amazônia, em Porto Velho, Rondônia. Nossa militância política e nossa pastoral libertadora devem assumir cada vez mais estes desafios maiores, que ameaçam nosso Planeta. "Escolhemos, pois, a vida", como reza o lema da Campanha da Fraternidade 2008. O apóstolo Paulo, em sua Carta aos Romanos, nos lembra que "toda a criação geme e está com dores de parto" (Rom. 8,22). Os gritos de morte cruzam-se com os gritos de vida, neste parto universal.

 

É tempo de paradigmas. Creio que hoje se devem citar, como paradigmas maiores e mais urgentes, os direitos humanos básicos, a ecologia, o diálogo inter-cultural e inter-religioso e a convivência plural entre pessoas e povos. Estes quatro paradigmas nos afetam a todos, porque saem ao encontro das convulsões, objetivos e programas que está vivendo a humanidade maltratada, mas esperançada ainda sempre.

 

Com tropeços e ambigüidades, nossa América se move para a esquerda; novos ventos sopram no Continente; estamos passando da resistência à ofensiva. Os povos indígenas de Abya Yala têm saudado com alegria a Declaração da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, que afeta a mais de 370 milhões de pessoas em 70 países do mundo; e reivindicarão a execução real dessa Declaração.

 

Nossa Igreja da América Latina e o Caribe, em Aparecida, se não foi aquele Pentecostes que queríamos sonhar, foi uma profunda experiência de encontro entre bispos e povo; e confirmou os traços mais característicos da Igreja da Libertação: o seguimento de Jesus, a Bíblia na vida, a opção pelos pobres, o testemunho dos mártires, as comunidades, a missão inculturada, o compromisso político.

 

Irmãos e irmãs, que raios vamos quebrar em nossa vida diária? Como ajudaremos a bloquear a roda fatal? Teremos direito a cantar gregoriano? Saberemos incorporar em nossas vidas esses quatro paradigmas maiores traduzindo-os em prática diária?

 

Recebam um abraço entranhável na esperança subversiva e na comunhão fraterna do Evangelho do Reino. Vamos sempre para a Vida.

 

D. Pedro Casaldáliga foi Bispo da Diocese de São Félix durante 33 anos e hoje está aposentado.

 

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Última atualização em Qui, 17 de Abril de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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