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O grito profético dos pobres Imprimir E-mail
Escrito por Wilson Aparecido Lopes   
Quarta, 05 de Março de 2008
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O grito do bispo de Presidente Prudente, D. José Maria Libório Saracho, precisa ser ecoado. Ele vem como uma denúncia de que a situação dos pobres está insustentável. E não há previsão de mudanças a não ser o já sabido assistencialismo, como o último programa "Território Cidadão". Também pudera, 11,3 bilhões de reais correspondem a mais ou menos 1% do PIB do Brasil. Isto transformado em investimentos não deixa de ser esmola, até mesmo o governo sabe disto. E se comparado com os R$ 27,16 bilhões de lucro líquido que os maiores bancos do país tiveram no ano de 2007, a situação então beira a piada.

 

A afirmação de D. José Maria de que "o único jeito de chamar a atenção do governo para a reforma agrária é invadir e criar uma situação de insegurança" resgata momentos importantes que regeram os movimentos sociais antes da eleição do governo que aí está. Momentos nos quais se sabia que a mudança não viria senão de baixo. Tal como uma panela, quanto maior o fogo mais rápido o cozimento, assim é o governo: quanto maior o fogo dos movimentos sociais, mais rápido será a realização das obras que beneficiam os pobres.

 

Também o ânimo de D. José Maria deve nos impregnar. As ocupações não devem parar, ao contrário, é preciso intensificá-las. Como fizeram semana passada, os(as) companheiros(as) do MST, que ocuparam mais um latifúndio improdutivo, em Itatiba, região da Grande São Paulo. Este quem sabe seja o único meio de frear a voracidade das multinacionais em seu projeto explorador-exportador e coibir suas intenções de fazer do Brasil uma imensa fazenda canavieira, exportadora de agrocombustíveis. E quem sabe seja também o meio eficaz de fazer com que os olhares do governo se voltem para os pobres.

 

Como já é sabido, qualquer ação na tentativa de libertar o povo das opressões impostas pelas elites recebe uma reação imediata. Por isto não causou estranheza a reação instantânea do presidente da UDR à declaração de D. José Maria. Reação esta, aliás, carregada de um sonho rancoroso, desejando que o bispo peça demissão da Igreja e se ingresse de vez no MST, além de extravasar seu ressentimento, acusando um líder da Igreja Católica de se utilizar dela para promover "vandalismo" e "baderna".

 

Interessante que, como bem enfatizou D. Hélder Câmara, quando os poderosos conseguem ter a Igreja Católica do seu lado, eles não a acusam de fazer política. Os poderosos não pedem para que os bispos abandonem seus ministérios e muito menos desejam que eles mudem sua postura. Mas basta que este ou aquele bispo, padre ou freira se coloquem do lado dos pobres, para que os poderosos os acusem de fazerem política, além de tentarem reduzir seus espaços à sacristia.

 

Aliás, os poderosos comemoram quando conseguem cooptar algumas lideranças eclesiásticas, através da distribuição de privilégios, coisa que eles sabem fazer muito bem. Para as elites é ótimo que a Igreja deixe de fazer uma "opção preferencial pelos pobres" e passe a fazer uma "opção preferencial pelos privilégios". Pois, desta forma, eles podem oprimir e explorar "abençoadamente".

 

Felizmente para o povo sem voz e sem vez, ainda temos profetas que se insurgem mesmo diante das perseguições e falam abertamente contra os opressores. Estes verdadeiros homens e mulheres de Deus não abortam o "clamor do pobre" dentro deles(as). Ao contrário, deixam este clamor falar através de sua missão, de sua voz, de suas ações. Não temendo nem mesmo a morte, denunciam as injustiças até mesmo de um governo que se esqueceu dos pobres e que caminha hipocritamente, distribuindo migalhas para comprar o silêncio do povo.

 

O grito de D. José Maria não pode ficar sem eco, preso em nossa garganta. Precisamos gritar com ele. A estabilidade que o governo tem apregoado não é uma realidade para os pobres. Estes vivem em constantes instabilidades. Que estabilidade pode ter um cidadão que recebe um salário mínimo de R$415,00? Estabilidade têm os banqueiros e os grandes empresários, que ganham até mesmo quando o Brasil deixa de ser "devedor" para ser "credor" externo e que ainda têm seus lucros "abençoados" descaradamente pelo governo. Necessário é fazer emergir a instabilidade em que vivem os pobres, balançando assim as estruturas do país e desmascarando de uma vez por todas esta hipocrisia elitista, avalizada pelo governo.

 

D. José Maria está gritando não o seu grito. Ele está ecoando o grito do povo, o grito da miséria dos pobres. Com ele devem gritar toda a Igreja, todos os movimentos sociais, todas as pastorais. É um grito profético de uma situação insustentável de um povo sofrido. Que este grito faça vibrar todas as fibras de nosso corpo. Que ele acorde o revolucionário que existe dentro de cada um(a) de nós, para que façamos a revolução a partir dos pobres.

 

Wilson Aparecido Lopes é assessor da Pastoral do Povo da Rua (Osasco-SP).

 

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Última atualização em Sábado, 19 de Abril de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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