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Quem tem medo de John Dear? Imprimir E-mail
Escrito por Maria Clara Lucchetti Bingemer   
Terça, 04 de Março de 2008
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No último dia 24 de janeiro, em Santa Fé, Novo México, John Dear foi julgado culpado de desrespeitar os sinais e regulamentos de um prédio público federal estadunidense. Três meses antes, ele e outros cinco homens haviam sido detidos no escritório do senador Pete Domenici, quando tentavam por este ser recebidos e ouvidos.

 

John Dear foi condenado e se recusa a cumprir a penalidade, que inclui 40 horas de serviço comunitário, uma fiança e um período longo de liberdade condicional. No tribunal, declarou sua intenção de não cooperar com a sentença recebida e provavelmente será preso. Não será uma nova experiência. John Dear já conheceu o interior do cárcere 75 vezes. Esta não é, pois, a primeira nem a última vez em que dormirá atrás de grades, privado da liberdade.

 

Homem perigoso esse, tantas vezes punido pela lei? Tantas vezes reincidente? Qual é o crime deste que persiste em transgredir normas de segurança e nem sequer é esperto o bastante para fugir das conseqüências de seus atos? O que temem os que continuamente perseguem John Dear e o encarceram?

 

John Dear é um padre jesuíta, de 48 anos de idade, que há vários anos fez da não-violência e da luta pela paz o sentido maior de sua vida. Une a seu ministério sacerdotal uma intensa e constante atividade em prol da paz, que inclui conferências, pregação de retiros espirituais e protestos como esse que ocasionou sua prisão. Além disso, é fecundo escritor e autor de mais de 25 livros publicados pelas mais prestigiosas editoras dos Estados Unidos. Mantém igualmente uma coluna semanal no National Catholic Reporter, periódico católico americano de vasta circulação.

 

Naquele dia de outono, John Dear e seus companheiros queriam ser recebidos pelo senador Pete Domenici, para falar-lhe sobre o apoio por ele dado à guerra do Iraque. E por isso foi mais uma vez preso, como em tantas outras oportunidades em atos de desobediência civil não-violenta. Juntamente com outros ativistas de seu país, organizou centenas de demonstrações contra a guerra e contra as armas nucleares em bases militares espalhadas pelo país. Indicado para o Prêmio Nobel da Paz pelo bispo anglicano Desmond Tutu, outro grande apóstolo da não-violência, Dear trabalhou igualmente com Madre Teresa de Calcutá e outros contra a pena de morte.

 

Quando detido por sua tentativa de abordar o senador para protestar contra a guerra, Dear foi interrogado sobre a compatibilidade de sua missão como padre jesuíta e seu envolvimento em atividades políticas daquela natureza. Testemunhou então sob juramento que sua missão como membro da Companhia de Jesus era "salvar almas, acabar com as guerras, libertar os pobres e construir o Reino de Deus, de justiça e paz". Questionado pelo juiz onde se encontrava essa afirmação, respondeu citando os documentos das últimas Congregações Gerais de sua ordem religiosa.

 

Seguramente nosso prudente e cuidadoso olhar considera com suspeita e desconfiança esse homem meio louco, que se mete a protestar onde não é chamado e não resiste à prisão, mas recomeça insistentemente a atividade que novamente o levará a ela. Na verdade, John Dear é apenas alguém que deseja viver radicalmente o coração do Evangelho de Jesus Cristo em lugar de apenas pregar, falar e escrever sobre ele.


Sofrendo na carne as conseqüências de sua fé, este padre ainda jovem espera que seu testemunho contra uma guerra sem sentido conscientize governantes e povo de que estamos, como humanidade, nos aproximando de um perigoso ponto do qual não há mais retorno. A conseqüência pode ser nossa própria destruição, total e irreversível.

 

Os que temem John Dear e tratam de neutralizar sua palavra e seus atos sabem que ele tem razão ao dizer que a alternativa não é mais entre violência e não-violência. É, sim, entre violência e não-existência. Mas a partir do momento em que alguém como ele não se contenta em falar, mas começa a agir, já não pode ser deixado livre.

 

Graças a Deus, John Dear não se impressiona muito com o que pode lhe acontecer. Muito maior lhe parece o tamanho da missão que Deus lhe deu. Sem dúvida, sua pessoa e sua vida são um bom tema de reflexão neste tempo de Quaresma e conversão. Sobretudo para nós, que vivemos em um país não diretamente implicado na guerra do Iraque, mas que mata o equivalente a uma guerra do Vietnam por ano na guerra do tráfico e do crime organizado.

 

Maria Clara Bingemer é teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio e autora de "A Argila e o espírito - ensaios sobre ética, mística e poética" (Ed. Garamond), entre outros livros.

 

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Última atualização em Sexta, 28 de Março de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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