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Reservas externas são mito face à liberalização cambial e financeira Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito   
Segunda, 25 de Fevereiro de 2008
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Em entrevista ao Correio da Cidadania, o economista e professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Reinaldo Gonçalves criticou abertamente as posturas do governo brasileiro diante da crise, rebateu a tese de não existir mais dívida externa e mostrou-se preocupado com o futuro do país a curto prazo.

 

Também professor da UFRJ, Reinaldo explicou por que o Brasil deverá estar sob forte dependência dos EUA, ainda que indireta, o que já deixaria o país atado às conseqüências da crise internacional da mesma forma que os demais.

 

De acordo com ele, as atuais política e estratégia econômicas do governo Lula favorecem ao mesmo grupo de sempre, enquanto que a classe trabalhadora sofreria as conseqüências mais dolorosas dessa nova recessão que se avizinha. "Os banqueiros, os exportadores e o agronegócio continuarão se beneficiando desse governo retrógrado", afirmou, não sem antes desqualificar os argumentos de segurança financeira, supostamente garantida por nossas reservas internacionais.

 

Sem ser apocalíptico, mas sem se distanciar da realidade das decisões governamentais, Reinaldo acredita e enumera soluções que poderiam desvincular o Brasil da recessão mundial, porém não as vê palpáveis no cenário atual. Algo compreensível em quem enxerga no presidente Lula alguém que apenas dá prosseguimento às mesmas políticas econômicas da gestão anterior.

 

Correio da Cidadania: O Brasil diz agora que não existe dívida externa. Porém, temos a interna. Como o senhor vê isso?

 

Reinaldo Gonçalves: Primeiro lugar: o Brasil tem um alto grau de vulnerabilidade externa, sua capacidade de resistir a pressões, fatores de desestabilização, continua muito limitada. O país tem um dos maiores riscos do mundo. Os indicadores disso, o chamado ‘spread’, aumentaram muito nos últimos meses. Esse é um aspecto importante. Segundo aspecto importante é que o Brasil do ano passado teve uma regressão das contas externas, dos fluxos; nós tínhamos um superávit e nesse ano vamos ter um déficit, ou seja, estamos dependendo cada vez mais dos fundos de capitais internacionais. Terceiro lugar: nossa balança comercial apresentou um resultado de 40 bilhões de reais no ano passado. Para esse ano há uma projeção de queda. A tendência é que ao longo dos próximos anos a situação se fragilize. Todo mundo sabe disso. Quando nós olhamos pelo ponto de vista dos capitais, o Brasil, com a taxa de juros muito alta, é cada vez mais o foco para o capital especulativo de curto prazo. Isso faz com que o Brasil fique muito sujeito a ataques não só no mercado de capitais, na bolsa de valores, mas também nas aplicações.

 

O que o governo tem defendido são dois argumentos equivocados. O primeiro tem a ver com a questão das exportações para os Estados Unidos. O argumento é que dependemos menos do mercado americano do que em anos atrás. Na verdade, caiu de cerca de 22% a participação dos EUA em nossas exportações para cerca de 17%. Esse argumento é equivocado por uma razão muito óbvia, muito banal: há outros países mais importantes para a gente, que é o caso do México, do Chile, da China. Qual é o problema? Esses países são altamente dependentes dos EUA, em alguns inclusive a dependência aumentou . Então, indiretamente, nós continuamos muito dependentes dos Estados Unidos. Nós exportamos menos para eles, mas exportamos mais para a China, que exporta para os EUA. Na verdade, a China depende dos EUA, e aí, como nós dependemos demais da China, passamos também a depender mais dos EUA. Então o Brasil, que era um vagão de segunda classe, virou um vagão de terceira classe. Outro aspecto importante, ainda nessa dependência aos EUA: o grau de abertura da economia aumentou. Para girarmos 100 reais da renda, dependemos mais do mundo que cinco anos atrás. Por causa disso, coisas que acontecem no mundo acabam afetando mais a renda, o emprego, o investimento no país. O argumento dessa blindagem brasileira, olhando nossa relação com os EUA, não é, portanto, verdadeiro, é equivocado por uma questão simplesmente de olhar os efeitos diretos e indiretos com relação aos Estados Unidos.

 

Segundo argumento que tem sido usado é o de que nossas reservas internacionais são equivalentes à dívida externa. Isso é um erro grosseiro, por uma razão muito simples: o que é nossa dívida externa? É toda a renda que nós temos, os brasileiros, e que está denominada em dólar. O Banco Central argumenta que temos reservas hoje de 190 bilhões de dólares e uma dívida externa de 190 bilhões de dólares. E com isso você paga a dívida externa e ela fica zerada. Só que esse é um erro muito grosseiro, porque na realidade qualquer pessoa no Brasil, seja brasileiro ou estrangeiro, que não tem nenhuma dívida externa, pode ganhar na mega-sena, pegar seu dinheiro, vender o apartamento, carro, sua empresa, pode tirar dinheiro do seu fundo de renda fixa, vender ações... Pode pegar esse dinheiro, converter, comprar dólar e mandar para fora. Isso significa o seguinte: num país que tem a liberalização cambial e financeira que o Brasil tem, as reservas internacionais não significam necessariamente uma blindagem para esse sistema, porque qualquer residente no país pode converter real, ação monetária, em dólar e mandar para fora. Ou seja, a dívida vai ficar exatamente a mesma coisa e as reservas internacionais, em poucas semanas, vão a zero, simplesmente porque pessoas que têm aplicação no fundo de renda fixa, ações, vendem, convertem isso em dólar e mandam para fora. É simples assim. Então, esse argumento é tecnicamente tolo, nenhum economista não adestrado diria que essa proteção elimina o problema da dívida externa. Pelo contrário, a dívida externa continua como um problema gravíssimo para o Brasil.

 

CC: E qual a profundidade e durabilidade da crise internacional em sua opinião?

 

RG: O consenso é de que há uma incerteza muito grande. Ela pode constituir um cenário com ‘cheiro de 29 no ar’, ou seja, uma recessão muito profunda; ou, numa visão mais otimista, uma crise profunda, onde as políticas monetária e fiscal do governo americano serão suficientemente eficientes a ponto de frearem a recessão dos EUA; ou mesmo não haver uma depressão e sim uma recessão moderada. Independentemente de uma ação mais realista, pessimista ou otimista, o fato é que há um consenso de que o mundo em 2008 não será tão favorável ao Brasil quanto foi em 2007, 2006, 2005, 2004. Ou seja, o futuro previsível desse 2008-09 será bem menos favorável, na melhor das hipóteses, havendo a possibilidade de ser um quadro muito desfavorável.

 

CC: E o Brasil não está mesmo preparado para essa crise, a blindagem parece ser frágil.

 

RG: Eu vejo que a blindagem do Brasil é de papel crepom, ou seja, é uma blindagem muito frágil, porque o Brasil tem uma abertura financeira e uma liberalização cambial que deixam o país extraordinariamente vulnerável frente à conjuntura internacional. Então, como uma crise hoje pode ser muito mais profunda do que a crise de 2002, 2001, o Brasil de fato tem uma blindagem de papel crepom. Eu acho que o fato de não terem se alterado os pilares da economia brasileira deixa o país muito vulnerável. O argumento tolo que o Brasil fundamenta hoje é o mesmo de 2002, 2001, 1999, 1998, 1997, 1995... Os fundamentos estavam corretos, mas o Brasil entrou em crise cambial. Portanto, os fundamentos não estão corretos; o Brasil continua com problemas fiscais, monetários, problemas do lado real gravíssimos. E a vulnerabilidade continua. Ou seja, o Brasil não está blindado. Se vier uma tempestade séria, uma crise internacional mais forte, o Brasil vai ficar nu, vai ter uma crise econômica grave.

 

CC: E, levando-se em conta esse cenário, o discurso do governo em relação ao tema parece ser um falso discurso.

 

RG: O governo Lula está fazendo o mesmo discurso que o Fernando Henrique fez ao longo do outro governo. E sempre que mudou a conjuntura internacional houve uma crise. Como as políticas econômicas do Lula são exatamente as mesmas do Fernando Henrique, a única diferença é que mudou a conjuntura e melhorou a situação do ponto de vista, digamos, dos indicadores de vulnerabilidade externa conjuntural. Mas é só mudar a conjuntura que a situação retorna com aquela mescla de tragédia e farsa que nós observamos no governo FH. Reproduzir-se-á o mesmo no governo Lula, porque os pilares da estratégia, da política econômica, são exatamente os mesmos e a liberalização cambial e financeira no governo Lula é até maior.

 

CC: Quais serão algumas das conseqüências mais imediatas da crise no Brasil?

 

RG: Se vier uma crise profunda, o governo volta a aumentar as taxas de juros. Na realidade, já houve aumento, pois os americanos baixaram as taxas de juros internacionais e o Brasil não alterou sua taxa de juros; portanto, o cupom cambial aumentou, a margem de arbitragem aumentou. O que vai acontecer é que o governo vai usar o instrumento ortodoxo dos juros altos, arrocho fiscal, segurar salário. E isso tem efeitos negativos sobre investimentos, economias, contratos, e já aparece hoje. Tudo que foi divulgado pelo Banco Central, um relatório atual, nessa última semana de fevereiro, mostra claramente que, para 2008-09, as previsões são de uma desaceleração da economia.

 

CC: Em sua opinião, quais serão os países mais afetados pela crise?

 

RG: Certamente o Brasil, alguns países da Europa Central que abriram muito suas economias e outros países da América Latina que não fizeram as proteções necessárias. O México é um candidato natural, o Brasil é outro; Ucrânia, Turquia também estão na lista. São países que, de uma forma ou de outra, continuam com uma liberalização financeira e cambial forte, o que os torna muito vulneráveis.

 

CC: E dentro do Brasil, quem serão os maiores afetados?

 

RG: Com os juros altos, arrocho fiscal, restrição de crédito, certamente a classe trabalhadora. Os banqueiros, os exportadores e o agronegócio continuarão se beneficiando desse governo retrógrado.

 

CC: Como o Brasil poderia se proteger dessa crise?

 

RG: Basicamente mudando os pilares da política macroeconômica. Essa política de meta inflacionária é muito rígida. É uma orientação do Lula que torna muito rígida a política monetária. Então, em primeiro lugar, é preciso eliminar a meta inflacionária rígida. Em segundo lugar, eliminar o mega-superávit fiscal. Em terceiro lugar, acabar com o regime de câmbios flutuantes. E, por último, o fundamental é acabar com essa liberalização financeira e cambial, incompatível com a fragilidade da economia brasileira.

 

CC: Então o senhor, apesar de tudo, enxerga saídas e recursos para o país superar a crise. Há alguma possibilidade de o governo adotá-los?

 

RG: Há sempre alternativas. O que existe é uma escolha do governo Lula de manter a estratégia do governo Fernando Henrique e, portanto, manter o Brasil com uma vulnerabilidade externa estrutural muito elevada. Eu diria até que a vulnerabilidade externa estrutural do Brasil de hoje é maior que a do Brasil de cinco anos atrás.

 

CC: E não há mesmo chance alguma de existir um descolamento em favor do Brasil?

 

RG: Não, pelo contrário, não há descolamento nenhum. A crise vai pegar o Brasil pela proa. Vai pegar o Brasil porque o país continua com elevado grau de vulnerabilidade externa, ou seja, uma baixa capacidade de resistir a pressões e fatores desestabilizadores que vierem de fora. Não tenho a menor dúvida. A própria interrupção do processo de queda das taxas de juros do governo Lula e a própria idéia de aumentar impostos têm a ver com essa preocupação com a conjuntura internacional.

 

Gabriel Brito é jornalista.

 

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Última atualização em Sexta, 29 de Fevereiro de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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