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Fidel Castro e o futuro de Cuba Imprimir E-mail
Escrito por Altamiro Borges   
Domingo, 24 de Fevereiro de 2008
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Enquanto a mídia e os seus mercenários rastaqüeras, como Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo, rezam pela morte de Fidel Castro e especulam sobre a regressão capitalista de Cuba, intelectuais sérios tentam analisar os efeitos da decisão do líder cubano de deixar a presidência do Conselho de Estado. Como corrigiu Hugo Chávez, presidente da Venezuela e seu amigo íntimo, "Fidel não renuncia nem abandona nada. Como ele mesmo disse, passa a ocupar outro posto na batalha da revolução cubana e da América Latina. Estará sempre na vanguarda. Homens como Fidel nunca se aposentam". Corrigida a distorção midiática, fica a pergunta: e qual será o futuro de Cuba?

 

"Uma trajetória extraordinária"

 

Para Emir Sader, coordenador do Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (Clacso), a tal "renúncia veio a partir de uma transição, pois Fidel foi deixando aos poucos de assumir funções. Foi só uma formalização". Ele lembra que as idéias da revolução cubana hoje têm mais força no continente, com a vitória de governantes progressistas, e que Cuba não está mais isolada. "Fidel se retira, mas a presença do que ele sonhou é constante. Ele continua contemporâneo na América Latina. Esse é um ‘final de carreira’ digno de quem construiu uma trajetória extraordinária".

 

Na sua avaliação, a saída da cena política de Fidel Castro não deve ter maiores conseqüências na ilha rebelde. Mudanças mais profundas, porém, podem derivar do resultado da eleição nos EUA. A derrota da direita poderia abrir novos caminhos, com o fim do embargo econômico e das ações terroristas. "O fim do governo Bush poderá ser o começo da democratização dos Estados Unidos. Eu não tenho previsão sobre o resultado das eleições, mas creio que todos os candidatos rejeitam, de alguma maneira, o atual governo. Bush sairá do poder sozinho; como ele mesmo disse, só ele e seu cachorro, o que não é o caso de Fidel. Ele sai com o apoio do povo cubano".

 

"Ilude-se quem imagina o fim do socialismo"

 

Outro profundo conhecedor da realidade cubana, o teólogo Frei Betto, também não acredita em mudanças abruptas. Somente neste ano, ele esteve na ilha duas vezes: em janeiro, para participar do Encontro Internacional sobre Equilíbrio do Mundo, e em meados de fevereiro, para assistir ao Congresso Universidade-2008. "Nas duas ocasiões encontrei-me com Raúl Castro e com outros ministros cubanos... Ilude-se quem imagina significar a renúncia de Fidel o começo do fim do socialismo em Cuba. Não há nenhum sintoma de que setores significativos da sociedade cubana aspirem o retorno ao capitalismo. Nem os bispos da Igreja Católica".

 

"Cuba não é avessa à mudanças. O próprio Raúl Castro desencadeou processo interno de críticas à Revolução, por meios das organizações de massas e dos setores profissionais. São mais de um milhão de sugestões ora analisadas pelo governo. Os cubanos sabem que as dificuldades são enormes, pois vivem numa quádrupla ilha: geográfica, única nação socialista do Ocidente, órfã de sua parceria com a União Soviética e bloqueada há mais de 40 anos pelo governo dos EUA". Apesar destas adversidades, o país ostenta altos índices de desenvolvimento humano, segundo reconhece a própria ONU. Para ele, haverá mudanças no país quando cessar o cerco imperialista.

 

"Não se espere, porém, que Cuba arranque das portas de Havana dois cartazes que envergonham a nós, latino-americanos, que vivemos em ilhas de opulência cercadas de miséria por todos os lados. ‘A cada ano, 80 mil crianças morrem vítimas de doenças evitáveis. Nenhuma delas é cubana’. ‘Esta noite 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma é cubana".

 

"Sua influência continua viva"

 

No mesmo rumo, Ignácio Ramonet, diretor do jornal Le Monde Diplomatique e da coordenação do Fórum Social Mundial, rejeita as especulações da reação. "A longa e extraordinária carreira política de Fidel Castro chegou ao fim – pelo menos no que se refere à presidência. Mas a sua enorme influência irá continuar viva... Não pode haver um substituto para Fidel. Não apenas por suas qualidades como líder, mas porque as circunstâncias históricas nunca serão as mesmas. Ele presenciou tudo, desde a revolução cubana até a queda da URSS, e décadas de confronto com os EUA. O fato dele se afastar em vida ajuda a assegurar a transição em paz".

 

"Ele está passando a responsabilidade para um time que foi testado e no qual tem confiança. Isso não irá trazer mudanças espetaculares. Os cubanos, mesmo os que criticam aspectos do regime, não desejam mudanças. Não querem perder as vantagens conquistadas, a educação gratuita até a universidade, o acesso gratuito e universal à saúde, ou a segurança e paz num país onde a vida é calma". O jornalista francês também aposta em mudanças no império. "Os EUA vão encontrar um cenário político transformado: pela primeira vez, Cuba tem verdadeiros amigos nos governos da América Latina, sobretudo na Venezuela, mas também no Brasil, Argentina, Nicarágua e Bolívia... O afastamento de Fidel, antecipado há tempos, significa continuidade. Mas para a evolução dessa pequena nação histórica, a eleição de Barack Obama poderia ser sísmica".

 

"Transição lenta e orquestrada"

 

Mesmo para intelectuais mais céticos, mas não envenenados pelo ódio imperialista, a decisão de Fidel Castro trará mudanças em Cuba, porém sem negar o seu legado. É o caso do estadunidense Jon Lee Anderson, que morou três anos na ilha para escrever o livro "Che Guevara, uma biografia". Para ele, "a renúncia formal de Fidel acaba uma era. Mas não é o fim da revolução cubana, nem o fim, ainda, do fidelismo. Estamos entrando numa era mais nuançada". Apesar das melhorias recentes na economia, Anderson aposta em mudanças "moderadas" nesta área. "A transição será lenta e orquestrada, sob a direção do Partido Comunista de Cuba e sem negar o socialismo."

 

O jornalista acredita que o líder revolucionário escolheu a melhor hora para se retirar do poder. "Parece agora que Barack Obama tem boas chances de ser o próximo presidente. Os cubanos, e Fidel especialmente, sempre observaram com muita atenção o que acontece nos EUA. Pode ser que ele esteja preparando o caminho para um diálogo que leve a algum tipo de reconciliação na qual tenha papel. O timing é bom". Ele ainda rechaça a histeria mundial com a decisão. "Claro, tudo que envolve Fidel é dramático, mas há tempo para digerir. De qualquer forma, ele sempre será notável. Fidel é único. Ele ocupa um patamar quase mitológico entre os líderes vivos".

 

As opiniões de Lula e Stedile

 

De forma corajosa, sem se dobrar a pressões da mídia, o presidente Lula também encarou com naturalidade o fato. "O que temia era que, numa situação adversa, acontecesse algo turbulento... Os cubanos têm maturidade para resolver os seus problemas sem precisar de ingerências, nem brasileiras, nem americanas". Para irritação dos fascistóides, Lula fez questão de elogiar o líder revolucionário. "Fidel é o único mito vivo na história da humanidade. Ele construiu isso à custa de muita competência, muito caráter, muita força de vontade e também de muita polêmica". Lula ainda lembrou a visita que recebeu em sua casa em 1989. "Ele participou do ato oficial de posse (Collor) e foi a São Bernardo para almoçar comigo, numa deferência que é inesquecível".

 

Já João Pedro Stedile, membro da coordenação nacional do MST e reconhecido amigo de Cuba, avalia que a decisão não causará transtornos. "O poder real no país é exercido pelo conjunto do partido e pelas inúmeras formas de organização popular. Qual governo se atreveria a deixar que a população mantivesse armas em suas casas e locais prontos para serem usadas, especialmente em caso de invasão dos EUA, se o povo não estivesse representado?". Para ele, "a decisão de Fidel é mais do que acertada. Ele poderá usar melhor seu tempo para escrever reflexões que podem contribuir não só com o povo cubano, mas com toda a esquerda latino-americana e mundial".

 

Experiência pessoal

 

Nas poucas visitas que fiz à ilha, sempre me impressionou a capacidade de resistência do heróico povo cubano, que enfrenta as enormes adversidades decorrentes do brutal cerco dos EUA, do fim do bloco soviético e também dos próprios erros cometidos. Na primeira delas, no final de 1992, pude constatar os efeitos destrutivos do rompimento unilateral das relações comerciais com a ex-URSS – apagões diários de energia, racionamento de comida, ônibus lotados e degradados, ruas desertas devido à falta de combustível. Apesar destas dificuldades, os cubanos se mantinham de cabeça-erguida, altaneiros, com uma dignidade incrível. Até os mais críticos, sobretudo jovens, faziam questão de exibir o orgulho cubano e de falar das suas conquistas na saúde, educação etc.

 

De lá para cá, a situação melhorou. O desumano bloqueio dos EUA começou a ser rompido, com a inestimável ajuda venezuelana e a nova realidade política na América Latina. A economia tem batido recordes de crescimento. Mesmo assim, as dificuldades ainda são enormes. Como disse o teólogo Frei Betto em certa ocasião, quem deseja visitar Cuba precisa de alguns cuidados. Se for operário ou camponês, ele ficará encantado com as conquistas da revolução e a igualdade social; se for das camadas médias, sentirá falta do shopping center e do consumo desenfreado; e se for um burguês rico e fascista, ele apoiará de imediato os gusanos (vermes) contra-revolucionários.

 

Qual a explicação para a admirável capacidade de resistência dos cubanos diante das intempéries e do cruel cerco imperialista? Arrisco-me a citar apenas quatro:

 

1- As conquistas da revolução nestes quase 50 anos. O cubano se orgulha de ver o seu filho nas melhores escolas e faculdades, de ter acesso a hospitais de excelente qualidade e de ostentar índices sociais dos mais avançados do mundo, segundo a própria ONU. Ele sabe, por exemplo, que a restauração capitalista no Leste Europeu só trouxe miséria e desalento; tem consciência da sofrida realidade dos latino-americanos. Ele não deseja esta regressão e defende suas conquistas.

 

2- O sentimento patriótico de um povo que sofre diariamente as agressões terroristas e o cerco econômico dos EUA. A defesa da soberania e o antiimperialismo são arraigados na ilha rebelde. Ao lado do escritório de representação dos EUA em Havana, um outdoor reflete este sentimento: "Señores imperialistas. No les tenemos absolutamente ningún miedo!". O povo está bem armado e preparado para qualquer agressão; mensalmente, os cubanos realizam exercícios militares.

 

3- A força das organizações populares. A revolução cubana procurou evitar o erro de outras experiências socialistas, que castraram a autonomia das entidades. Em todo quarteirão há um Comitê de Defesa da Revolução (CDR); o sindicalismo defende as conquistas da revolução, mas faz o contraponto ao estado; a juventude possui organismos atuantes e criativos; nos locais de trabalho ocorrem reuniões periódicas. É um povo rebelde, que debate a política diariamente.

 

4- Carisma de Fidel Castro. Como disse o presidente Lula, o líder cubano é um mito. Apesar de não haver retratos oficiais, quase toda casa tem a sua fotografia. Mesmo nas críticas aos erros do governo, ele é inocentado. "O comandante não sabe disto", repetem. Como todo ser humano, a única certeza é a morte. Isto explica a excitação dos gusanos com a sua saúde e sua decisão de deixar funções de comando no país. Apenas a história dirá se os outros fatores superam o mito.

 

Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB e autor do livro "Venezuela: originalidade e ousadia" (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição).

 

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