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Cuba libre sem coca cola Imprimir E-mail
Escrito por Léo Lince   
Quarta, 20 de Fevereiro de 2008
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"Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". O líder da revolução cubana mostrou, mais uma vez, que conserva viva a sua extraordinária capacidade de surpreender. Para espanto dos que fizeram até o inimaginável para tirá-lo de lá, soberano, ele escolheu o momento e a forma da retirada.

 

Uma simples carta foi o bastante para que os jornais dos quatro cantos do planeta abrissem espaços gigantescos. Até a forma de obituário, marca de boa parte das matérias, realçou no gesto a presença sagrada da transcendência e da ressurreição. O tamanho da repercussão parece descabido, mas não é. As estampas de Guevara e o processo político cubano continuam a despertar fascínio e curiosidade universais.

 

A revolução cubana é o mais poderoso ícone do romantismo revolucionário dos tempos modernos. Aqueles jovens rebeldes, com suas barbas e charutos cinematográficos, pegaram em armas contra a tirania e venceram. No poder, foram fiéis ao prometido: desencadearam mudanças profundas e, sob pressão permanente, sustentaram um processo político marcado por singular originalidade.

 

Originalidade que, por suposto, não foi inventada pelos jovens revolucionários. Ela vem de raízes profundas. A história da pequenina ilha rebelde, que nunca foi nem nunca será potência econômica, sempre ocupou lugar de destaque no imaginário político ocidental. Rebeldia, ambiente cultural ativo e cosmopolita, vida política plena de utopias. Bartolomeu de Las Casas escreveu de lá os seus mais importantes libelos contra a violência da colonização espanhola. José Martí, o apóstolo da independência, também foi, ao seu tempo, uma voz universal. Poeta de mão cheia, ele foi o profeta da ética republicana nas Américas.

 

Hoje, depois de quase meio século de socialismo, Cuba segue sendo um país pobre, renda baixa e múltiplas carências. Ao mesmo tempo, consegue ostentar indicadores sociais que se equiparam aos países mais avançados. Analfabetismo, zero. Expectativa de vida e mortalidade infantil, padrão europeu. Os serviços de saúde e educação são públicos, gratuitos e de alta qualidade. Todos, até os detratores, são obrigados a reconhecer esse "mistério". Moradia e alimentação asseguradas. No esporte, no cinema, na música, na dança, na poesia, na pintura: um furacão desabusado de alegria.

 

O processo político cubano carrega uma marca pesada: o cerco continuado da maior potência imperial da história. E agora enfrenta um desafio novo. Onde houve revolução profunda, houve também a cristalização de lideranças e cadeias de comando político. Napoleão restaurou o império. O PRI mexicano se corrompeu. A União Soviética desabou como um castelo de cartas. A China ressuscita, no capitalismo, o despotismo oriental. Quando a geração que fez a revolução sai de cena, a travessia é sempre difícil.

 

A carta do Fidel, cuja enorme repercussão é um sinal positivo, é uma tentativa de estabelecer pontes para a difícil travessia. Garantir a sustentação das conquistas sociais e reafirmar os princípios do projeto socialista nas turbulências da adversidade. Não vende ilusões e conclama a que se prepare para os piores cenários. Como Lezama Lima, o grande romancista de "Paradiso", ele sabe que "só o difícil é estimulante". Como Marti, ele cultiva a fé substantiva naquilo que ainda não existe: "continuamos com nuestra serenata ante balcones que no quieren abrirse".

 

Vale lembrar, os de meu tempo, o saudoso Stanislaw Ponte Preta e sua personagem mais faceira, a "tia Zulmira". Ela era simpatizante da ilha heróica e, nas festas, pedia sempre um traçado forte a que deu o nome de Fidel Castro. Indagada sobre o conteúdo da bebida, respondia com entonação de slogan: Fidel Castro é Cuba Libre sem Coca Cola.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

"Quem sabe faz a hora, não espera acontecer". O líder da revolução cubana mostrou, mais uma vez, que conserva viva a sua extraordinária capacidade de surpreender. Para espanto dos que fizeram até o inimaginável para tirá-lo de lá, soberano, ele escolheu o momento e a forma da retirada.

 

Uma simples carta foi o bastante para que os jornais dos quatro cantos do planeta abrissem espaços gigantescos. Até a forma de obituário, marca de boa parte das matérias, realçou no gesto a presença sagrada da transcendência e da ressurreição. O tamanho da repercussão parece descabido, mas não é. As estampas de Guevara e o processo político cubano continuam a despertar fascínio e curiosidade universais.

 

A revolução cubana é o mais poderoso ícone do romantismo revolucionário dos tempos modernos. Aqueles jovens rebeldes, com suas barbas e charutos cinematográficos, pegaram em armas contra a tirania e venceram. No poder, foram fiéis ao prometido: desencadearam mudanças profundas e, sob pressão permanente, sustentaram um processo político marcado por singular originalidade.

 

Originalidade que, por suposto, não foi inventada pelos jovens revolucionários. Ela vem de raízes profundas. A história da pequenina ilha rebelde, que nunca foi nem nunca será potência econômica, sempre ocupou lugar de destaque no imaginário político ocidental. Rebeldia, ambiente cultural ativo e cosmopolita, vida política plena de utopias. Bartolomeu de Las Casas escreveu de lá os seus mais importantes libelos contra a violência da colonização espanhola. José Martí, o apóstolo da independência, também foi, ao seu tempo, uma voz universal. Poeta de mão cheia, ele foi o profeta da ética republicana nas Américas.

 

Hoje, depois de quase meio século de socialismo, Cuba segue sendo um país pobre, renda baixa e múltiplas carências. Ao mesmo tempo, consegue ostentar indicadores sociais que se equiparam aos países mais avançados. Analfabetismo, zero. Expectativa de vida e mortalidade infantil, padrão europeu. Os serviços de saúde e educação são públicos, gratuitos e de alta qualidade. Todos, até os detratores, são obrigados a reconhecer esse "mistério". Moradia e alimentação asseguradas. No esporte, no cinema, na música, na dança, na poesia, na pintura: um furacão desabusado de alegria.

 

O processo político cubano carrega uma marca pesada: o cerco continuado da maior potência imperial da história. E agora enfrenta um desafio novo. Onde houve revolução profunda, houve também a cristalização de lideranças e cadeias de comando político. Napoleão restaurou o império. O PRI mexicano se corrompeu. A União Soviética desabou como um castelo de cartas. A China ressuscita, no capitalismo, o despotismo oriental. Quando a geração que fez a revolução sai de cena, a travessia é sempre difícil.

 

A carta do Fidel, cuja enorme repercussão é um sinal positivo, é uma tentativa de estabelecer pontes para a difícil travessia. Garantir a sustentação das conquistas sociais e reafirmar os princípios do projeto socialista nas turbulências da adversidade. Não vende ilusões e conclama a que se prepare para os piores cenários. Como Lezama Lima, o grande romancista de "Paradiso", ele sabe que "só o difícil é estimulante". Como Marti, ele cultiva a fé substantiva naquilo que ainda não existe: "continuamos com nuestra serenata ante balcones que no quieren abrirse".

 

Vale lembrar, os de meu tempo, o saudoso Stanislaw Ponte Preta e sua personagem mais faceira, a "tia Zulmira". Ela era simpatizante da ilha heróica e, nas festas, pedia sempre um traçado forte a que deu o nome de Fidel Castro. Indagada sobre o conteúdo da bebida, respondia com entonação de slogan: Fidel Castro é Cuba Libre sem Coca Cola.

 

Léo Lince é sociólogo.

 

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