Cuba e o socialismo do século 21

 

Entre os dias 20 de janeiro e 03 de fevereiro de 2008 participei em Cuba da XV Brigada de Solidariedade. Foi uma viagem bastante proveitosa e agradável. Conhecer Cuba é como participar dos últimos 50 anos da história mundial e, também, como retornar no tempo. Ver os museus que relembram a Revolução e a resistência cubana, ver o Memorial erguido em homenagem ao médico, guerrilheiro e político Che Guevara, ver cartazes (apesar de não muito numerosos) críticos ao império e saudando a Revolução, são momentos inesquecíveis para quem acredita que o capitalismo pode e deve ser superado.

 

Participar das Brigadas é, além de divertido, alegre e festivo – pois eu, que já passei dos 50 anos, estava no meio de delegações do Brasil, Uruguai, Chile e Argentina, nas quais 90% eram jovens -, é bastante instrutivo para conhecer mais de perto a realidade atual cubana. O primeiro fato que chama a atenção é a ausência de Fidel Castro. Em Cuba, as figuras de José Martí e Che são bastante reverenciadas. Porém, Fidel quase não é visto. Conversando com algumas pessoas, chegamos à conclusão que já está em curso um processo de transição para um período pós-Castro. Porém, se é assim, este processo está se dando de forma aparentemente tranqüila.

 

Martí representa a integração latino-americana, tão importante hoje para Cuba, assim como representa a generosidade e a simplicidade, valores que se tenta cultivar em Cuba. O mesmo acontece com o romantismo de Che. Um professor de filosofia disse-me que estava decepcionado com o governo Lula, pois esperava que o Brasil, pelo seu potencial, comandasse este projeto de integração do qual Cuba seria muito beneficiado.

 

Na primeira semana, participamos de trabalhos agrícolas. Foi um conhecimento riquíssimo. Conhecer o campo cubano é, hoje, uma ótima experiência. Cuba está buscando diversificar a sua produção, quebrando a monocultura da cana. Conheci plantações de laranjas e feijões em áreas estatais geridas por cooperativas. Os trabalhadores recebem um salário (ínfimo, como é ainda o salário dos cubanos) e, também, parte da produção, o que aumenta bem o seu rendimento. Usa-se pouco agrotóxico e nenhum transgênico. Também existem diversos currais estatais, todos numerados, e brancos. Parece o sonho realizado do MST. Também vi um outdoor em que aparecia um automóvel com o capô do motor levantado e um milho sendo colocado no motor com os dizeres: "Isto é o primeiro mundo. Os alimentos são para os carros".

 

A irrigação da agricultura é feita através de poços, pois Cuba não possui grandes rios. Aliás, esta carência de Cuba está fazendo com que procurem saídas alternativas e ecológicas. Estão sendo construídas pequenas barragens e feitos investimentos na energia solar e do vento. A crise energética em Cuba ainda é um grande entrave, mas gera saídas sociais interessantes. Por exemplo, no ano passado, o governo financiou para todas as famílias a troca das antiqüíssimas geladeiras, televisores (as novelas brasileiras fazem grande sucesso), liquidificadores e ventiladores por novos modelos. É a economia de energia voltada para o bem coletivo.

 

As pequenas e médias cidades se parecem. Casinhas pequenas, antigas e coladas uma nas outras (não vi casas maiores em Cuba), ruas estreitas, táxi/carroças, carruagens, bicicletas e carros antigos se misturam. Em Santa Clara, cidade com 250 mil habitantes, é proibido o tráfego de automóveis no centro, devido às ruas estreitas e, assim, somente bicicletas e carroças transitam.

 

Havana é uma cidade ímpar, considerada patrimônio mundial pela Unesco. Todas as construções são antigas e históricas. Em partes restauradas, a cidade é um verdadeiro museu a céu aberto. Belíssimas construções - como o Capitólio, o Teatro ou a Igreja São Francisco - e hotéis luxuosos convivendo lado a lado aos sobrados habitados pelos cubanos. Assim, turistas e cubanos convivem no mesmo espaço, pois a população não é retirada dos sobrados restaurados na parte histórica.

 

Na parte não restaurada, está o centro onde habitam cubanos e o comércio. Nesta parte, sobrados e mais sobrados, alguns em péssimo estado de conservação, apresentam uma Havana mais complexa e com mais contradições e dificuldades. É inegável que diversos sobrados não estão em condições de habitação. Mas restaurar Havana toda, com sua arquitetura riquíssima, é algo que foge às possibilidades do cubano. Cuba sempre procura negociar com a população e priorizar o que fazer, em que área investir. Mas a carência para investimentos é grande.

 

Varadero, no estado de Matanzas, é a principal cidade/praia turística. Parece uma Miami dentro de Cuba. Grandes hotéis, restaurantes e parques. O turismo foi a salvação, mas também está sendo um grande problema para Cuba. Explico: ao fim do período soviético, Cuba, como é sabido, entrou em uma enorme crise econômica. Os apagões simbolizam a crise, pois, quase todas as noites, Cuba ficava sem luz. Com o peso cubano desvalorizado, o dólar começou a entrar na economia. A única opção viável para que Cuba resistisse seria investir no turismo.

 

Fez acordos e negócios e permitiu a entrada de capitais estrangeiros. Ressalte-se que Cuba sempre mantém 51% dos empreendimentos turísticos. Para se livrar da dolarização, lançou uma moeda de valor equivalente ao dólar (o CUC, que vale hoje cerca de 24 pesos cubanos) e proibiu a moeda americana. Assim, Cuba respirou e hoje o turismo representa cerca de 40% das receitas do país. Porém, o CUC e a estrutura que é oferecida aos turistas (como lojas e restaurantes) atraíram também o cubano, que está sendo seduzido pelas mercadorias e pelo CUC. É um desafio que o socialismo cubano enfrenta.

 

Mas o turismo permitiu que Cuba mantivesse, minimamente, as suas políticas sociais, como a educação e a saúde universalizada. Isto pode ser pouco para países mais ricos, mas é muito para um país muito pobre como Cuba. O país faz um enorme sacrifício para manter estas áreas como prioridade. Assim, com certeza, grande parte da receita cubana vai para estas políticas sociais. Aliás, se em Cuba praticamente nada é pintado, todas as escolas em que entrei eram pintadas e os alunos ostentavam uniformes em bom estado; os alunos ficam nas escolas de 8 da manhã até as 5 da tarde. Também conheci Centros Culturais em pequenas cidades, onde jovens estudantes apresentavam verdadeiros espetáculos de música, dança e poesia. Ressalte-se que, como política social, Cuba continua distribuindo a libreta ("cesta básica") e remédios.

 

É certo que, em crise, a cesta foi diminuída e o próprio governo reconhece que não dá para manter a família durante todo o mês. Assim como reconhece que o salário é baixo e o poder de compra é pequeno mesmo numa sociedade modesta e não consumista como a cubana. Quase sempre faz vista grossa para os cubanos que fazem um pequeno comércio negro, oferecendo charutos e outros produtos para as pessoas nas ruas. Apesar do assassinato quase não existir, pequenos furtos de carteira e bolsas dos turistas já são sentidos Mas, concomitante a estes problemas, cada criança cubana até sete anos continua recebendo um litro de leite por dia, assim como os idosos com mais de 60 anos (estes recebem leite em pó). A licença para filhos recém-nascidos é de um ano e este período pode ser dividido entre a mãe e o pai.

 

Tivemos oportunidade de debater com sindicalistas, mulheres, estudantes, membros do Partido Comunista e do governo. Ninguém esconde a crise e nem tentam pintar uma Cuba idealizada. Falam abertamente de seus problemas. Problemas de salário insuficiente, de moradia, de transporte, de alimentação, de roupas. Mas debatem também o boicote, que é algo desumano por parte dos Estados Unidos, pois impede que qualquer produto que tenha alguma composição patenteada pelos EUA entre em Cuba. Inclusive remédios.

 

Cuba não é um país policialesco. O povo é festeiro, gosta de salsa e rum e pareceu-me livre no seu cotidiano. O sistema eleitoral cubano é diferente do nosso, pois nos distritos e bairros as pessoas indicam os candidatos que concorrem para "vereadores" e, os eleitos, elegem os deputados. Não é necessário ser filiado ao Partido Comunista e os eleitos não recebem salários e podem ser destituídos. É verdade que o Partido Único não representa a diversidade cubana, mas Cuba é uma pequena ilha que sofre ameaças constantes dos EUA e, portanto, necessita de auto-defesa. A pluralidade partidária, necessária, poderia, neste momento, ensejar que organizações milionárias de Miami organizassem os seus partidos contra-revolucionários.

 

Voltei com a impressão de que Cuba não seguirá o caminho chinês. O socialismo se dá de forma diferente em cada região, em cada cultura, em cada sociedade. Cuba é caribenho em tudo e o socialismo cubano só pode ser caribenho. Cuba necessita crescer e muito, pois sua economia é visivelmente pobre. Mas que seja um crescimento para todos, como tem sido desde a Revolução, mesmo que Cuba aparente, para nós que vivemos em sociedades capitalistas, que todos lá sejam pobres.

 

Se Cuba virar uma sociedade de mercado, aparecerá o consumismo, a sociedade da mercadoria, as classes. Poucos começarão a concentrar a renda e as políticas sociais se esfacelarão. Aparecerá a classe média e os pobres, que serão a grande maioria. O desemprego também aparecerá e a violência aumentará. As novas elites econômicas, médias e altas, começarão a colocar filhos em escolas particulares e comprarão planos de saúde. E assim, talvez aí, Cuba fique mais palatável para o mundo capitalista. Será elogiado e sua economia talvez cresça, mesmo que para poucos.

 

Mas sonho que os ideais revolucionários permaneçam e que Cuba continue distribuindo igualmente o que os seus trabalhadores produzem, debatendo os seus problemas e construindo, mesmo que devagar e com muitas – e coloque muitas aí - dificuldades, um outro mundo possível.

 

Antonio Julio de Menezes Neto, doutor em Educação, é professor da UFMG. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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Comentários   

0 #14 100% CubaGrazzyela 27-10-2009 22:01
Eu amei este trabalho,quanto mais lia mais me enteresava.Parabens.
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0 #13 EU TAMBEM VEJO CUBA ASSIM.Maria Alzenira 26-01-2009 18:42
Carisssimo. Maravilhoso seu texto. Estive em Cuba em outubro de 2008 e janeiro de 2009. Voltei a uma semana. São exatamentes esses os sentimentos que tenho , e que tão bem colocaste no papel. Cuba é um exemplo para o mundo. Fiquei feliz de ver que a Estefania ai em cima, vai levar o texto para a escola. Tambem farei isto. Se me permite. Sou Amiga da Escola. Sou Psicóloga e sou muito feliz por ter tido a graça de ver com meus olhos e meu coração tudo que voce descreve. Cuba é minha segunda patria. Besos.
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0 #12 Estefania Castro Santana 10-04-2008 07:52
Não sou escritora somente uma estudante e ao fazer uma pesquisa sobre Cuba encontrei esta matéria e fiquei maravilhada com ela é uma matéria riquíssima. Acho que realmente é preciso de alguém que mostre os valores de Cuba sua matéria realmente merece parabéns...
Levarei seu texto para sala de aula para compartilhar com meus colegas e creio que todos também lhe parabenizará...
Sucesso...
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0 #11 COMPARTILHANDO CUBArubens jardim 04-03-2008 17:23
Prof.Antonio:

Li seu artigo publicado no correio da cidadania e fiquei vivamente impressionado. Também partilho com o senhor o sonho de que os ideais revolucionários permaneçam e que Cuba continue distribuindo igualmente o que os seus trabalhadores produzem. Estive em Cuba agora –no episódio em que Fidel Castro deixou de aspirar a sua candidatura a presidência do Conselho de Estado. E por incrível que pareça, a sociedade deu mostras cabais de que está preparada para manter o socialismo e prosseguir aprimorando os processos da revolução cubana.

Confesso que isso me alegrou profundamente. Até porque essa viagem –ao contrário de todas as outras que já fiz pela Europa – foi um divisor de águas. Em Cuba se aprende concretamente o significado da palavra solidariedade. Lá eu me senti, pela primeira vez, enredado nos laços que podem unir as pessoas em companheirismo e fraternidade.

Na Feira do Livro, em Havana, tive a oportunidade de conhecer um trabalho de Marília Guimarães, brasileira que esteve exilada de 70 a 80 e que escreveu Nuestros Anos em Cuba. Diz ela que nesta Ilha do Caribe, dividir é a palavra de ordem. Dividir conhecimento, dividir carinho, dividir sorrisos, dividir trabalho, dividir produção, dividir descobrimentos.

Nós sentimos a mesma coisa. O povo cubano desperta sentimentos muito vivos de solidariedade e amor.

SALUDOS!
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0 #10 palavras e gestosMarcio Lima 23-02-2008 21:48
Professor, adorei o texto, o recebi de uma profa que será tua aluna no doutorado.Digo palavras, Penso que seu texto, ajuda-nos mantermos atentos ao que aquela revolução resistente representa nesse nosso desejo e luta de um mundo melhor.Digo gestos, pois penso que bem poderíamos aprimorar nossa solidariedade por Cuba.Gde Abraço. Marcio
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0 #9 SaudadesEdson Silva 18-02-2008 13:39
Estive em Cuba nos anos 1997 e 1998 e ao reler o texto, o sentimento é de enorme saudade.
É a essencia da vida cubana, são as relações, a cidadania, o ideal de construir um mundo melhor! Parabéns pelo texto.
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0 #8 Isadora Franco Di Gianni 17-02-2008 11:19
Olá Professor!!
Aqui é a Isadora, que também estava na Brigada. Não tenho uma base tão acadêmica para falar nada, e isso pouco me interessa. Escrevo esse comentário para assinar embaixo do que o senhor escreveu! Fui a Cuba sem a idéia de discutir se é socialista, comunista, capitalista, ou qualquer outro ista que poderia ser colocado, e voltei com uma certeza que para mim vale mais do que tudo: Cuba é uma revolução POPULAR. E é o popular para mim que faz mais sentido. Adorei seu artigo, principalmente porque conseguiu organizar um pouco as minhas idéias, talvez até por ser um artigo, e não a minha visão embassada pelas lágrimas, hehe.
Até mais, Antônio!!
Isadora
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0 #7 persistenciarenata mendes velloso 15-02-2008 20:39
apesar de nunca ter estado em Cuba e ter ouvido outros relatos sobre a ilha, o que me impressiona é a clareza dos habitantes quanto a situação em que vivem e ainda assim trabalham em prol de uma sociedade diferente, quando é mais fácil desejar o molde capitalista. São relatos como este que renovam nossas esperanças, que bom que há muitos jovens interessados na experiência. que ótimo que a política não é meio de ganhar dinheiro e poder. Viva Cuba.
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0 #6 SolidariedadeLaureniício Mendes 15-02-2008 14:18
Temos amigos cubano do CIPS: Centro de investigações sociológicas e psicológicas e estivemos no ano passado em Cuba para firmamos intercâmbio e conhecermos a ilha. E brilhantemente é isso que o Antônio Júlio narra em seu artigo.Salientando a solidariedade e persistência do povo cubano em insitir em uma sociedade diferente e possível!
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0 #5 Breno Nascimento 14-02-2008 22:49
Meu caro companheiro Antônio. Assim como todos aqui também estive em Cuba em 2003. Passei uma semana em Havana participando de Conferência ibero americana sobre AIDS. Tenho 48 anos, sou sociólogo e sempre acreditei no projeto político que conduz ao socialismo. Mas ter tido o privilégio de estar em Cuba e respirar o mesmo ar dos cubanos, de Che, de Camilo, de Fidel, de Pablo, de Silvio, de ver a alegria daquele povo simples e altivo, revigora minhas convicções. Tive estas mesmas sensações e impressões. Cada povo constroi seu caminho. O povo cubano construiu o seu. O mundo tem que respeitar e cativar todas as lições sociais e humanistas que nos ensinam. Parabéns pelo texto! òtimo! Parabéns ao Correio da Cidadania! Obrigado!
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