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Cuba e o socialismo do século 21 Imprimir E-mail
Escrito por Antonio Julio de Menezes Neto   
Terça, 12 de Fevereiro de 2008
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Entre os dias 20 de janeiro e 03 de fevereiro de 2008 participei em Cuba da XV Brigada de Solidariedade. Foi uma viagem bastante proveitosa e agradável. Conhecer Cuba é como participar dos últimos 50 anos da história mundial e, também, como retornar no tempo. Ver os museus que relembram a Revolução e a resistência cubana, ver o Memorial erguido em homenagem ao médico, guerrilheiro e político Che Guevara, ver cartazes (apesar de não muito numerosos) críticos ao império e saudando a Revolução, são momentos inesquecíveis para quem acredita que o capitalismo pode e deve ser superado.

 

Participar das Brigadas é, além de divertido, alegre e festivo – pois eu, que já passei dos 50 anos, estava no meio de delegações do Brasil, Uruguai, Chile e Argentina, nas quais 90% eram jovens -, é bastante instrutivo para conhecer mais de perto a realidade atual cubana. O primeiro fato que chama a atenção é a ausência de Fidel Castro. Em Cuba, as figuras de José Martí e Che são bastante reverenciadas. Porém, Fidel quase não é visto. Conversando com algumas pessoas, chegamos à conclusão que já está em curso um processo de transição para um período pós-Castro. Porém, se é assim, este processo está se dando de forma aparentemente tranqüila.

 

Martí representa a integração latino-americana, tão importante hoje para Cuba, assim como representa a generosidade e a simplicidade, valores que se tenta cultivar em Cuba. O mesmo acontece com o romantismo de Che. Um professor de filosofia disse-me que estava decepcionado com o governo Lula, pois esperava que o Brasil, pelo seu potencial, comandasse este projeto de integração do qual Cuba seria muito beneficiado.

 

Na primeira semana, participamos de trabalhos agrícolas. Foi um conhecimento riquíssimo. Conhecer o campo cubano é, hoje, uma ótima experiência. Cuba está buscando diversificar a sua produção, quebrando a monocultura da cana. Conheci plantações de laranjas e feijões em áreas estatais geridas por cooperativas. Os trabalhadores recebem um salário (ínfimo, como é ainda o salário dos cubanos) e, também, parte da produção, o que aumenta bem o seu rendimento. Usa-se pouco agrotóxico e nenhum transgênico. Também existem diversos currais estatais, todos numerados, e brancos. Parece o sonho realizado do MST. Também vi um outdoor em que aparecia um automóvel com o capô do motor levantado e um milho sendo colocado no motor com os dizeres: "Isto é o primeiro mundo. Os alimentos são para os carros".

 

A irrigação da agricultura é feita através de poços, pois Cuba não possui grandes rios. Aliás, esta carência de Cuba está fazendo com que procurem saídas alternativas e ecológicas. Estão sendo construídas pequenas barragens e feitos investimentos na energia solar e do vento. A crise energética em Cuba ainda é um grande entrave, mas gera saídas sociais interessantes. Por exemplo, no ano passado, o governo financiou para todas as famílias a troca das antiqüíssimas geladeiras, televisores (as novelas brasileiras fazem grande sucesso), liquidificadores e ventiladores por novos modelos. É a economia de energia voltada para o bem coletivo.

 

As pequenas e médias cidades se parecem. Casinhas pequenas, antigas e coladas uma nas outras (não vi casas maiores em Cuba), ruas estreitas, táxi/carroças, carruagens, bicicletas e carros antigos se misturam. Em Santa Clara, cidade com 250 mil habitantes, é proibido o tráfego de automóveis no centro, devido às ruas estreitas e, assim, somente bicicletas e carroças transitam.

 

Havana é uma cidade ímpar, considerada patrimônio mundial pela Unesco. Todas as construções são antigas e históricas. Em partes restauradas, a cidade é um verdadeiro museu a céu aberto. Belíssimas construções - como o Capitólio, o Teatro ou a Igreja São Francisco - e hotéis luxuosos convivendo lado a lado aos sobrados habitados pelos cubanos. Assim, turistas e cubanos convivem no mesmo espaço, pois a população não é retirada dos sobrados restaurados na parte histórica.

 

Na parte não restaurada, está o centro onde habitam cubanos e o comércio. Nesta parte, sobrados e mais sobrados, alguns em péssimo estado de conservação, apresentam uma Havana mais complexa e com mais contradições e dificuldades. É inegável que diversos sobrados não estão em condições de habitação. Mas restaurar Havana toda, com sua arquitetura riquíssima, é algo que foge às possibilidades do cubano. Cuba sempre procura negociar com a população e priorizar o que fazer, em que área investir. Mas a carência para investimentos é grande.

 

Varadero, no estado de Matanzas, é a principal cidade/praia turística. Parece uma Miami dentro de Cuba. Grandes hotéis, restaurantes e parques. O turismo foi a salvação, mas também está sendo um grande problema para Cuba. Explico: ao fim do período soviético, Cuba, como é sabido, entrou em uma enorme crise econômica. Os apagões simbolizam a crise, pois, quase todas as noites, Cuba ficava sem luz. Com o peso cubano desvalorizado, o dólar começou a entrar na economia. A única opção viável para que Cuba resistisse seria investir no turismo.

 

Fez acordos e negócios e permitiu a entrada de capitais estrangeiros. Ressalte-se que Cuba sempre mantém 51% dos empreendimentos turísticos. Para se livrar da dolarização, lançou uma moeda de valor equivalente ao dólar (o CUC, que vale hoje cerca de 24 pesos cubanos) e proibiu a moeda americana. Assim, Cuba respirou e hoje o turismo representa cerca de 40% das receitas do país. Porém, o CUC e a estrutura que é oferecida aos turistas (como lojas e restaurantes) atraíram também o cubano, que está sendo seduzido pelas mercadorias e pelo CUC. É um desafio que o socialismo cubano enfrenta.

 

Mas o turismo permitiu que Cuba mantivesse, minimamente, as suas políticas sociais, como a educação e a saúde universalizada. Isto pode ser pouco para países mais ricos, mas é muito para um país muito pobre como Cuba. O país faz um enorme sacrifício para manter estas áreas como prioridade. Assim, com certeza, grande parte da receita cubana vai para estas políticas sociais. Aliás, se em Cuba praticamente nada é pintado, todas as escolas em que entrei eram pintadas e os alunos ostentavam uniformes em bom estado; os alunos ficam nas escolas de 8 da manhã até as 5 da tarde. Também conheci Centros Culturais em pequenas cidades, onde jovens estudantes apresentavam verdadeiros espetáculos de música, dança e poesia. Ressalte-se que, como política social, Cuba continua distribuindo a libreta ("cesta básica") e remédios.

 

É certo que, em crise, a cesta foi diminuída e o próprio governo reconhece que não dá para manter a família durante todo o mês. Assim como reconhece que o salário é baixo e o poder de compra é pequeno mesmo numa sociedade modesta e não consumista como a cubana. Quase sempre faz vista grossa para os cubanos que fazem um pequeno comércio negro, oferecendo charutos e outros produtos para as pessoas nas ruas. Apesar do assassinato quase não existir, pequenos furtos de carteira e bolsas dos turistas já são sentidos Mas, concomitante a estes problemas, cada criança cubana até sete anos continua recebendo um litro de leite por dia, assim como os idosos com mais de 60 anos (estes recebem leite em pó). A licença para filhos recém-nascidos é de um ano e este período pode ser dividido entre a mãe e o pai.

 

Tivemos oportunidade de debater com sindicalistas, mulheres, estudantes, membros do Partido Comunista e do governo. Ninguém esconde a crise e nem tentam pintar uma Cuba idealizada. Falam abertamente de seus problemas. Problemas de salário insuficiente, de moradia, de transporte, de alimentação, de roupas. Mas debatem também o boicote, que é algo desumano por parte dos Estados Unidos, pois impede que qualquer produto que tenha alguma composição patenteada pelos EUA entre em Cuba. Inclusive remédios.

 

Cuba não é um país policialesco. O povo é festeiro, gosta de salsa e rum e pareceu-me livre no seu cotidiano. O sistema eleitoral cubano é diferente do nosso, pois nos distritos e bairros as pessoas indicam os candidatos que concorrem para "vereadores" e, os eleitos, elegem os deputados. Não é necessário ser filiado ao Partido Comunista e os eleitos não recebem salários e podem ser destituídos. É verdade que o Partido Único não representa a diversidade cubana, mas Cuba é uma pequena ilha que sofre ameaças constantes dos EUA e, portanto, necessita de auto-defesa. A pluralidade partidária, necessária, poderia, neste momento, ensejar que organizações milionárias de Miami organizassem os seus partidos contra-revolucionários.

 

Voltei com a impressão de que Cuba não seguirá o caminho chinês. O socialismo se dá de forma diferente em cada região, em cada cultura, em cada sociedade. Cuba é caribenho em tudo e o socialismo cubano só pode ser caribenho. Cuba necessita crescer e muito, pois sua economia é visivelmente pobre. Mas que seja um crescimento para todos, como tem sido desde a Revolução, mesmo que Cuba aparente, para nós que vivemos em sociedades capitalistas, que todos lá sejam pobres.

 

Se Cuba virar uma sociedade de mercado, aparecerá o consumismo, a sociedade da mercadoria, as classes. Poucos começarão a concentrar a renda e as políticas sociais se esfacelarão. Aparecerá a classe média e os pobres, que serão a grande maioria. O desemprego também aparecerá e a violência aumentará. As novas elites econômicas, médias e altas, começarão a colocar filhos em escolas particulares e comprarão planos de saúde. E assim, talvez aí, Cuba fique mais palatável para o mundo capitalista. Será elogiado e sua economia talvez cresça, mesmo que para poucos.

 

Mas sonho que os ideais revolucionários permaneçam e que Cuba continue distribuindo igualmente o que os seus trabalhadores produzem, debatendo os seus problemas e construindo, mesmo que devagar e com muitas – e coloque muitas aí - dificuldades, um outro mundo possível.

 

Antonio Julio de Menezes Neto, doutor em Educação, é professor da UFMG. E-mail: antoniojulio(0)uai.com.br

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Última atualização em Quarta, 09 de Abril de 2008
 

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