Correio da Cidadania

Estados Unidos: superterça e o Brasil

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Na última terça-feira, dia 5, republicanos e democratas realizaram primárias em mais de 20 estados, com o objetivo de apontar o seu candidato para as eleições presidenciais em novembro próximo. Diferentemente do Brasil, onde normalmente as cúpulas partidárias definem o escolhido sem a participação maciça dos seus militantes, nos Estados Unidos, o processo dura meses e há a ampla presença dos filiados, de maneira que os gastos de campanha são bem altos – Barack Obama e Hillary Clinton, por exemplo, arrecadaram cada um cerca de 100 milhões de dólares.

 

Encerrada a chamada superterça, o Partido Republicano praticamente decidiu o seu nome: John McCain, ex-oficial da Marinha, veterano da Guerra do Vietnã, período em que ficou preso mais de cinco anos, a despeito da nomeação de seu pai - quase um ano após a sua captura - para comandante-chefe da esquadra do Pacífico. Após tornar-se reservista, McCain ingressaria na política como deputado federal e, desde 1987, é senador pelo Arizona, estado da região sudoeste.

 

Dado o imenso grau de conservadorismo vigente na militância republicana nos últimos anos, McCain é considerado internamente liberal, ou seja, progressista, ainda que apóie irrestritamente a Segunda Guerra do Golfo, em virtude, dentre outros motivos, de seus fortes vínculos militares – dois de seus filhos representam a quarta geração consecutiva da família na Marinha.

 

Caso o seu nome seja ratificado, o seu vice deverá ser pinçado de um dos setores mais reacionários do partido, representados nas prévias por Mitt Romney, já desistente, e Mike Huckabee – na superterça, ambos obtiveram quase 60% dos votos. Tradicionalmente, o vencedor desfruta de liberdade para compor a sua chapa.

 

No lado democrata, a disputa embaralhou-se entre a senadora Hillary Clinton, representante de Nova York, e o senador Barack Obama, de Illinois, e deve prolongar-se até abril. No dia 5 último, Clinton obteve a vitória em dez estados, dos quais os três maiores, enquanto Obama, em 13. Não obstante ter perdido em Connecticut, ela superou Obama em Massachusetts, a despeito de não ter granjeado o apoio da família Kennedy.

 

Assim, as campanhas de Clinton e Obama continuam bastante equilibradas – no Partido Democrata, os delegados são, regra geral, proporcionais ao número de votos de cada candidato, ao passo que, no Republicano, o cálculo diferencia-se, ainda quando o vitorioso no estado não consiga também todos os delegados como na eleição presidencial, por exemplo.

 

De todo modo, Clinton conseguiu recuperar-se do revés inicial, quando chegou em terceiro em Iowa, primeira convenção; em primeiro em New Hampshire, mesmo que com pouca margem sobre Obama; em primeiro em Nevada, porém com menos um delegado; e, por fim, em segundo na Carolina do Sul, contudo bem distante de Obama.

 

Ressalte-se que ambos são a favor de uma retirada progressiva de tropas do solo iraquiano, ainda que destoem no ritmo – Obama é mais incisivo. No período da invasão, em março de 2003, conquanto não estivesse no Senado, ele se opusera publicamente à decisão do governo Bush.

 

A recuperação de votos ocorreu no final de janeiro com a vitória significativa dela no estado da Flórida. Ressalte-se que o processo eleitoral de Michigan foi desconsiderado, em decorrência de se ter antecipada a data da realização da convenção, em franco desacordo com a determinação da Comissão Nacional Democrata, de sorte que a vitória de Clinton não acarretou efeito prático.

 

A indefinição pode trazer uma boa exposição nos principais meios de comunicação até o encerramento da competição partidária, mas há, por outro lado, uma desvantagem: o desgaste, em vista dos pontos fracos de cada um a serem expostos internamente, porém explorados a posteriori pelo adversário republicano.

 

Com relação ao Brasil diretamente, não há, a princípio, alteração de monta no caso da vitória de um democrata ou republicano. O relacionamento comercial, embora não cresça à mesma proporção que a balança como um todo, é expressivo, com vendas próximas a 24 bilhões e 500 milhões de dólares, com um saldo a favor do Brasil de quase dez bilhões de dólares em 2006 – em 2002, as exportações haviam sido próximas de 15 bilhões e 500 milhões de dólares, com superávit um pouco acima de cinco bilhões de dólares.

 

O aspecto de relevância para os brasileiros será o posicionamento no tocante à imigração. Estima-se que haja um milhão de brasileiros ao menos lá, muitos dos quais ilegais. McCain sobressai porque há tempos defende o estabelecimento de legislação que seja mais severa com vistas à fiscalização de fronteiras e punição a quem se beneficie de mão-de-obra irregular e, ao mesmo tempo, auxilie a regularizar a situação de muitos já instalados.

 

Em termos gerais, a regularização compreenderia o aprendizado do idioma, o pagamento de multas - como forma de compensação pelo período de ilegalidade – e o ingresso como contribuinte junto ao Internal Revenue Service (equivalente à Secretaria da Receita Federal do Brasil), de sorte que o imigrante pudesse adquirir o status de residente. Clinton e Obama posicionam-se similarmente a McCain, tendo ambos apoiado o projeto de lei deste em 2006.

 

Virgílio Arraes é professor de Relações Internacionais da UnB.

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Comentários   

0 #1 José Haroldo de Sousa Freitas 12-02-2008 12:28
Sobre o artigo em tela, gostaria de me posicionar sobre a espectativa que existe sobre uma eventual vitória de Obama nas prévias republicanas. Acredito que as eleições americnas devem tomar um rumo ainda não discutido pela mídia (pelo menos ainda não tive conhecimento)pelo fato di]o senador Obama ser negro. Gostaria, portanto, que o nóbre professor Vírgilio fizesse uma an´lise desse possivel cenário na disputa pela Casa Branca
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