Uma política anti-crise

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Para reduzir os riscos reais e as conseqüências danosas da aversão aos riscos da crise norte-americana, talvez seja necessário algo mais do que a repetição nauseante da solidez dos fundamentos econômicos brasileiros, para justificar o imobilismo diante do câmbio, e da necessidade de cautela na política de redução da taxa Selic, para também justificar a inação diante dos juros elevados e da falta de controle sobre os capitais de curto prazo.

 

É evidente que é necessária cautela na redução da taxa Selic. Por outro lado, é preciso levar em conta que a situação pode chegar ao um ponto em que será necessária uma desvalorização brusca, como ocorreu em 1998, o que vai ser muito pior para o conjunto da economia e da sociedade brasileira. Portanto, este é um momento favorável e, ao mesmo tempo, crítico, para persistir no rebaixamento dos juros, de modo a fazer com o que o real pare de se valorizar, e inicie uma leve desvalorização.

 

O momento é favorável porque os Estados Unidos reduziram sua taxa de juros e estão há pressões para que o governo Bush implemente, desde já, uma política keynesiana de estímulo ao consumo e à sua produção industrial. E é ainda favorável porque permanecem positivas as perspectivas de crescimento na Ásia, África e na própria América Latina. No entanto, o momento também é crítico porque o governo Bush quer manter a política de privilegiar o salvamento dos abonados, agravando as incertezas sobre os desdobramentos da crise americana.

 

Diante disso, se não for implementada uma política anti-crise de rebaixamento cauteloso dos juros, desvalorização do real e controle dos capitais de curto prazo, o governo talvez seja obrigado, mesmo contra a vontade, a praticar um choque no câmbio, o que pode ser fatal para a implementação do PAC e para a atração de investimentos produtivos.

 

Bem vistas as coisas, uma política anti-crise que tenha como eixo a queda dos juros, a desvalorização do real e o estímulo aos capitais de longo prazo é fundamental não só para blindar melhor a economia brasileira diante dos riscos da atual crise norte-americana, como para melhorar os fundamentos econômicos do desenvolvimento. Sem ela, corremos o risco de não ampliar, nem mesmo renovar, os contratos de longo prazo de exportação de manufaturados. Estaremos fadados a consolidar o modelo exportador de commodities agrícolas e minerais.

 

E a história já demonstrou, inúmeras vezes, que o crescimento com base apenas em matérias primas, sejam elas monoculturas ou policulturas, um ou vários tipos de minérios, não tem consistência, nem dá qualquer sustentabilidade ao desenvolvimento. A industrialização é a condição chave para o desenvolvimento. E, agora, muito mais do que antes, uma industrialização que tenha como principais forças produtivas as ciências e as tecnologias. Nossa política anti-crise deveria partir desse pressuposto. Ou continuar acreditando que Deus é brasileiro, e não permitirá o impacto da crise sobre nós.

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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