Carnaval de papel

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Gosto dos dias de carnaval, longe de batucadas e desfiles. Talvez eu não seja um bom sujeito, não sei sambar, sou doente do pé. Nem sei jogar futebol. Meu apelido entre os amigos de infância era... bem, deixa para lá.

 

Nos dias de carnaval estive às voltas com papéis. O enredo dos livros, a alegoria dos poemas. Rastreando letras, ouvi muitas vozes. Ouvi Anísio Teixeira sonhando com a escola nova. Ouvi Bertrand Russell contando suas crenças. Ouvi Freinet brincando como criança ao lado de seus alunos. Ouvi histórias de Tolstói, delírios de Murilo Mendes. Visitei Robert Musil, Drummond, Julián Marías.

 

Na carne de tantas páginas, atravessei noites e dias, folia folheada, serpenteando por entre os parágrafos, idéias, confetes, imagens. Pulei capítulos, dancei com personagens que ainda não conhecia.

 

Carnaval de papel não é só literatura. Também foi hora de remexer em papeladas históricas, documentos, certidões, certificados, declarações, contas de luz, de telefone, recibos, extratos, contratos, cartas, cartões de visita, recados, telegramas, “meu Deus, quantos papéis”, sussurrava meu coração, porém meus olhos e dedos não diziam nada.

 

Como podem as gavetas manter em suas bocas cheias tantos papéis? Descobri até mesmo dois volantes da Loteria Esportiva, teste 150, de agosto de 1973! Como foram parar aqui, não sei. Possivelmente vieram pelo túnel do tempo, entre as páginas de um livro comprado em sebo. No primeiro jogo, Remo e Palmeiras. Qual terá sido o resultado? Como nunca fui um craque, longe disso, nem mesmo torcedor, a pergunta se perdeu com a mesma facilidade como surgiu.

 

A folha de papel virtual, a tela do computador, também foi minha companheira nesses dias. Esta crônica menor, um livro que não ata nem desata, buscas inúmeras na internet. Por força das pesquisas, cheguei a sentir, de longe, a passagem de um ou outro trio elétrico. Não fui atrás, nem já morri...

 

Conheço o carnaval de outros carnavais. Sem nostalgia e sem revolta, esperei a Quarta-Feira de Cinzas para queimar os papéis de que não preciso mais.

 

Papéis são também aqueles que represento. Minhas máscaras não me causam problemas no baile da vida. Revelam mais do que escondem. A máscara do pai, do marido, do professor, do filho, do cidadão, do escritor, do amigo, do inimigo, do católico, do brasileiro, do carioca apaulistado.

 

No ano que vem vou festejar outro carnaval desses. De papel.

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor - Web Site: www.perisse.com.br

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Comentários   

0 #1 Carnaval de papelMarise 09-02-2008 23:22
Amo o carnaval e não sei viver sem \"papéis\". O seu \"CARNAPAPEL\" conseguiu ser delicado,conciso e terno.
Marise
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