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Escrito por Frei Betto   
Quarta, 06 de Fevereiro de 2008
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Somos um povo encerrado numa história de espelhos movediços, história sem linearidades, anticartesiana, barroca e, sobretudo, mágica.

O rei de Creta encomendou a Dédalos o labirinto – palácio de intrincados percursos, onde as pessoas se perdiam, exceto Teseu, graças ao fio de Ariadne, que o conduziu à saída.

Menos de uma semana antes de morrer, a 10 de dezembro de 183 0, Bolívar reagiu quando seu médico recomendou-lhe confessar-se antes de receber os sacramentos: “Que significa isto? Estou assim tão doente que vens me falar de testamentos e confissões? Como poderei safar-me deste labirinto?”.

Num labirinto se entra e, depois, tudo é mistério e surpresa: curvas, bifurcações, retorno ao mesmo ponto quando se imagina avançar, encruzilhadas, ocultamento de saídas, caos aparente, linhas distorcidas, vias que conduzem a lugar nenhum e obrigam a refazer o caminho, busca incessante de alternativas.

Gabriel García Márquez escreveu “O labirinto” para tentar decifrar o que Bolívar quis dizer ao citar esta metáfora. Jorge Luis Borges não fez outra coisa na vida senão imaginar labirintos perfeitos, lineares, retangulares e circulares, espaciais e temporais, materiais e espirituais. Imaginou um labirinto de labirintos que abarcaria o passado e o futuro, e até mesmo as estrelas.

Octavio Paz, em seu “O labirinto da solidão”, descreve os espanhóis perdidos num labirinto de nostalgia e introspecção. De fato, a tela “Las meninas”, de Velásquez, de 1656, é o espelho do espelho do espelho...

Miró pintava labirintos para intrigar e entreter. Buñuel tinha uma visão labiríntica do mundo. Porém, o grande inspirador de todos os labirintos foi Cervantes, perdido nos corredores da razão e da loucura, das luzes e das trevas, entre Erasmo e Maquiavel. Dom Quixote somos todos nós, latinos, que nos recusamos a fazer distinção entre sonho e realidade, ilusão e fato, quimera e concretude, utopia e história. La Mancha, com seus moinhos de vento, é a nossa pátria espiritual.

Nossos heróis são figuras míticas impregnadas dessa dubiedade. Manipulados pelo poder, esvaziados de sua rebeldia, figuram polidamente em nossos livros didáticos ou congelados em estátuas públicas como o avesso do que foram. Assim, os revoltosos mineiros são chamados de “inconfidentes”, que significa delatores, indignos de confiança. A rebelião é taxada de Inconfidência... Em expressão atualizada seria Deduragem Mineira. E os bandeirantes, hoje consagrados em monumentos, vias e rodovias, não estão longe da versão barroca do esquadrão da morte rural. Que o digam os povos indígenas.

Estes versos de Irmã Juana Inês de la Cruz, a primeira poeta latino-americana, retratam bem o nosso caráter: “Confusa, minha alma / divide-se em duas: / uma é escrava da paixão, / a outra serve à razão”.

Nós, brasileiros, nos movemos em dois fantásticos labirintos: o primeiro, a burocracia estatal, que tememos e da qual não podemos escapar. Dela dependemos, embora horrorizados: infindáveis papéis, solicitações e requerimentos, taxas e filas, tributos incessantes. O direito concedido como favor; o burocrata travestido de sultão, dotado de poderes mágicos.

O segundo labirinto é o carnaval, a festa em que nos escondemos atrás das máscaras, e vestimos a fantasia do que não somos. Ali nossa identidade se desintegra e se reconstitui naquele outro ser que se esconde nos recônditos de nossa alma – ela também labiríntica, andrógina, complexa e cordial.

O carnaval é o grande ritual no qual ofertamos a Momo, no altar da alegria, no panteão dos carros alegóricos, a nossa rebeldia travestida em festa para gáudio dos senhores do poder que, de cima de seus camarotes de luxo, estampam cervejas em suas camisetas e estouram champanhas, felizes porque o ritual sublima o confronto direto, o povão lá em baixo disfarçado em reis e rainhas, enquanto lá em cima eles de fato reinam; o povão de casaca e cartola, enquanto eles mandam; o povão ridicularizando o poder, e eles, inebriados; além de deter o controle sobre as almas, desfrutam dionisiacamente da beleza dos corpos desnudos, naquele espaço em que o sangue se transmuta em suor, e a sensibilidade atinge o ápice como expressão fortuita de uma liberdade que é negada fora do confinamento orgiástico, prisão de todas as nossas pulsões libertárias. Ali são virtualmente rompidas as fronteiras de raça e sexo, classe e poder.

Os espelhos movediços do labirinto refletem a dádiva de Momo; advertem que são apenas uns poucos dias. Depois, sem máscara e fantasia, a realidade coloca cada um em seu devido lugar. E que ninguém tente ultrapassar os limites. Nem ouse estender o fio de Ariadne e encontrar a saída do labirinto.


Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Veríssimo e outros, de “O desafio ético” (Garamond), entre outros livros.

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Última atualização em Quarta, 06 de Fevereiro de 2008
 

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