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Silêncio frente ao terrorismo de Estado na Colômbia e gritos contra as ações insurgentes Imprimir E-mail
Escrito por Hugo Paternina Espinosa   
Qui, 24 de Janeiro de 2008
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Vejo a convocatória que me mandaram por email para que me junte, no dia 04 de fevereiro, a uma manifestação contra as FARCs. Não coloco em questão o fato de que a insurgência na Colômbia cometeu e comete inúmeros atos depreciáveis que afetam a dignidade humana. Não vou enumerá-los aqui, pois não é preciso se aprofundar no horror. Há coisas que não são defensíveis nem ideológica nem política e nem eticamente falando. Dito isto, o que quero é expressar a minha opinião em relação ao texto e ao propósito da convocatória. Me parece repugnante que as pessoas que se auto-consideram “de bem” na Colômbia lancem agressões e qualquer outra quantidade de epigrafes contra as FARCs e, no entanto, essa mesma gente se cala, de modo cúmplice, frente aos milhares de crimes cometidos pelo paramilitarismo, com a ajuda – e isso podemos dizer, hoje, com grande propriedade, do Estado colombiano.

 

Hoje conhecemos pelos mesmos paramilitares a maneira pela qual importantes funcionários do Estado contribuíram para forjar sua indústria criminal, expandindo tal fenômeno e seu corrosivo poder por todo o país, até o ponto de estar permeando todos os níveis do Estado e do governo. Passamos a conhecer, entre outras coisas, onde estão as valas comuns – as levadas a conhecimento público, claro -, e quantas pessoas foram assassinadas e desapareceram em todo o país. Até hoje, muitas famílias ainda não sabem o que aconteceu com seus familiares e, da maneira como andam as coisas, nunca saberão, pois as audiências que contaram com a presença de paramilitares e que se supunha que a verdade seria toda levada à tona, sem nenhuma sobra de dúvida, deixaram a sensação de que há mais coisas que ainda ocultam do que levaram a público. Isso, para não mencionar o fato de que alguns dos familiares das vítimas que assistiram às audiências clamando por justiça e pela verdade terminaram assassinadas.

 

Por estas vítimas, tenho que dizer, nunca ouve uma mobilização, e a lei de justiça e paz hoje sendo desenvolvida pelo governo Uribe para conhecer toda a verdade parece inexoravelmente ocultar os fatos ao invés de esclarecer o que realmente ocorreu. E se alguém se mobilizou em alguma ocasião por todas os massacres e vítimas sem dúvida alguma não foram as pessoas que hoje convocam com grau tão sério essa mobilização, a qual se junta, com muito entusiasmo – e não poderia ser de outra maneira – o diário El Tiempo.

 

Há pouco tempo, Hernán Veloza, mais conhecido como HH e ex-chefe paramilitar do Bloque Bananero e do Bloque Calima, reconheceu que somente em Urabá mandou matar, entre 1195 e 1996, mais de 1,5 mil pessoas. Frente a isto, as 336 mortes que Salvatore Mancuso reconheceu em uma das audiências na cidade de Medellín terminam sendo, para muitos de seus acólitos, insignificantes. Cabe dizer que, entre os acólitos de Mancuso, se encontravam membros da Justiça, do setor agropecuário, da polícia, do Exército e, claro, do Congresso. Neste último, chegou a reconhecer que pelo menos 35% dos deputados estavam à sua disposição. Os fatos terminam por demonstrar que as reiteradas denúncias da oposição e de outros setores sociais em relação aos vínculos existentes entre paramilitares e políticos era uma monumental realidade e não uma invernção, como de início havia dito o governo.

 

O último grande acólito a ser apresentado aos meios de comunicação é Benito Osório, ex-presidente do sindicato patronal de criadores de gado de Córdoba durante o período em que o paramilitarismo era financiado nessa região e em Urabá, e que foi nomeado por Uribe em dezembro de 2007 como o encarregado do paramilitarizado Departamento de Córdoba. Duas semanas depois de ser nomeado, esse personagem, que dizem ser um dos principais partidários do paramilitarismo – e Uribe não sabia disso, sendo ele mesmo criador de gado e proprietário de terras na região há três décadas -, o governo foi obrigado a pedir a sua renúncia, pois se comprovou, embora tenha negado, que nos momentos prévios a sua nomeação foi visitar Salvatore Mancuso na prisão. De que falaram? Por que tal nomeação?

 

A realidade não para por aqui, pois recentemente o governo da Colômbia reconheceu, finalmente, que paramilitares e funcionários do governo são os responsáveis pelo assassinato de 47 sindicalistas, o que eleva a 267 os mortos durante os últimos cinco anos – o que converte a Colômbia, em pleno mandato de Uribe e da Segurança Democrática, no país mais perigoso do mundo para o sindicalismo, como a OIT reconhece. É preciso dizer que esse reconhecimento é resultado da pressão do Congresso dos Estados Unidos, de maioria democrata, que exige que Uribe esclareça tais crimes se quiser que o Tratado de Livre Comércio entre os países seja aprovado. Assim dito, foi preciso esperar que o amo do norte e a União Européia pedissem responsabilidades para que parte da verdade viesse à tona. Isto chega tarde: todos sabíamos que o Estado e o paramilitarismo, em uma simbiose criminal, eram e são os responsáveis por tais crimes, mas pouco havia sido feito para que assumissem isso.

 

Isto, para não citarmos as campanhas de limpeza e, inclusive as matanças que os paramilitares seguem cometendo depois da desmobilização nas importantes cidades do país. Fora as centrais trabalhistas, setores do Pólo Democrático e ONGs de direitos humanos – a propósito, consideradas pelo presidente Uribe como partidárias do “terrorismo” e da guerrilha -, que se mobilizou conta tais crimes? Certamente, não muitos dos que no dia 04 de fevereiro sairão às ruas e pedirão o fim dos seqüestros pelas FARCs – sem mencionar que o Estado também as comete -, que Hugo Chávez não se intrometa na Colômbia, entre outras coisas.

 

Frente a isto, pergunto por que tanta “gente de bem” que hoje conclama uma mobilização contra as FARCs sequer tenta redigir um comunicado que denuncie todos os desaforos cometidos pelo paramiltarismo e pelo Estado? Na Colômbia, sem dúvida, o governo e aquilo que é chamado de sociedade civil parece ficar horrorizado somente por crimes cometidos por um tipo de pessoas - não os cometidos por todos. O dia que aqueles que convocam tais manifestações convocarem a população para uma manifestação que ponha em igualdade de condições todas as vítimas e todos os criminosos, aí sairei às ruas, pois considerarei que estão atacando todos aqueles que praticam tais crimes de maneira igual e dignificando todas as vítimas de maneira simétrica.

 

Quantas vezes a Corte Interamericana de direitos humanos, com sede em San José da Costa Rica, condenou o Estado colombiano por violar os direitos humanos, e quantas manifestações por tais feitos essa “gente de bem” que agora se expressam contra as FARCs convocou? Não nos equivoquemos, é preciso repudiar, por princípios éticos, os desaforos da insurgência, mas é preciso fugir de posturas que, a partir do Estado e do governo, utilizam a dor das vítimas da insurgência para ganhos políticos e para limpar o nome sujo de um governo que, cada vez mais, não consegue fugir da descrença; também é preciso fugir, e com pressa, daqueles setores da sociedade civil que denunciam com toda a bravura o que é feito pela guerrilha mas, curiosa e contraditoriamente, ficam calados e até concordam com os horrendos crimes do paramilitarismo e do Estado.

 

Frente ao conteúdo da convocatória, digo, efetivamente: estou cansado de ver como a grande maioria dos jovens da Colômbia fogem das falta de oportunidades; estou cansado de ver como o presidente Uribe nomeia amigos no alto governo que logo devem renunciar, pois se demonstram suas ligações com o narcoparamilitarismo, sem assumir nenhuma responsabilidade política por isso; estou cansado de ver como as elites que governam o país de uma maneira muito ruim utilizam o patrimonialismo como ferramenta para aprofundar as diferenças sociais, econômicas e políticas já existentes; estou cansado de ver como as elites na Colômbia perdem quando querem fazer a paz e também quando querem fazer a guerra; estou cansado de ver como três milhões de refugiados – em sua maioria, devido ao Estado e aos paramilitares – perambulam pelas ruas frias de Bogotá e de outras cidades sem nenhuma ajuda por parte do Estado.

 

Estou cansado de ver como Ardila Lule, Julio Mario Santo-Domingo e outros representantes dos principais grêmios econômicos e financeiros lucram, enquanto 68% da população vive na miséria; estou cansado de ver e de ouvir como hospitais são fechados e de saber que o Exército consome uma grande parte do orçamento do país, sem que a derrota da insurgência uma vez prometida – com tanto alarde – esteja próxima, como de modo ingênuo pensou e pensa Uribe e a elite que o respalda; estou cansado de que o presidente Uribe siga mentindo para o país sobre as suas – e de seus familiares - verdadeiras conexões com o narcoparamilitarismo; estou cansado de ver como a Colômbia é o curral do governo americano; estou cansado de ouvir que sem Uribe, o país não agüenta; estou cansado de que me digam de maneira estúpida que a “insurgência é terrorista” e que o Estado e os paramilitares não são;

 

Estou cansado de que o povo, de maneira torpe e em coro com o governo, negue, sem distância crítica, que na Colômbia há um conflito social e político que precisa de uma solução política e que não existe uma ameaça terrorista; estou cansado da frágil memória do país, que esquece dos massacres paramilitares enquanto repudia os atos da guerrilha; estou cansado de ver como congressistas – e funcionários nomeados por Uribe – começam a ser condenados por paramilitarismo e pegam apenas oito anos de prisão – ou menos, como no caso do deputado do Departamento de Sucre, Carlos García, ou como no do senador pelo Departamento do Atlântico, Dieb Maloof, enquanto a outros dão penas inconcebíveis por delitos muito menores.

 

Igualmente, estou cansado de ver como os filhos dos políticos e gente com poucos méritos fazem alarde por ganhar bolsas para estudar na Europa, justamente quando seus pais poderiam financiar seus estudos e deixar tal oportunidade para quem necessita; estou cansado de ver e ouvir que quem critica o governo está contra ele; estou cansado de ver como Uribe desinstitucionaliza o Esatdo e acaba com o pouco de democracia que havia; estou cansado de ver como se militariza e se narco-paramilitariza a sociedade sem que a “gente de bem” se pronuncie com o vigor que possui contra a guerrilha; por último, estou cansado da elite que governa a Colômbia e por isso desejo que o povo se dê conta de que é preciso acabar com os setores comprometidos com a corrupção, a violência oficial e todos os tipos de desmandos contra os bens do Estado e da população indefesa. Uribe e Francisco Santos disseram que as FARCs e outras guerrilhas são a pior ameaça à democracia na América Latina e no ocidente; me custa a crer em tamanha estupidez funcional. A verdadeira ameaça para o continente é a pobreza crescente e complexa que cresce devido ao neoliberalismo e à globalização assimétrica que os países do norte impõem aos do sul e que é reconhecida até por George Soros, especulador profissional.

 

Insisto que, por princípios éticos, é preciso condenar atos da insurgência que são negados em seus princípios e nos fins que diz perseguir. Não participar da marcha que, com um raivoso sentimento anti-insurgente, nos é proposta por setores da sociedade civil e instâncias do Estado e do governo não significa admitir atos repudiáveis como os de Bojayá, Machuca ou a situação, por exemplo, que Clara Rojas passou ao ficar grávida de seu filho Emmanuel e a subseqüente separação dos dois.

 

Tampouco quer dizer que não é para se sentir comovido pelo que passou Consuelo González de Perdomo e por como vivem o resto das pessoas seqüestradas. O que quero deixar claro é que os fatos não devem ser instrumentos políticos nem ideológicos de ninguém, tampouco de um setor da sociedade civil que nunca denunciou ou questionou os desaforos do paramilitarismo – e muito menos, por certo, do governo e do Estado, que tem dado amostras há muito tempo de ser o principal perpetrador de todo o tipo de desaforos contra a população, algumas vezes tendo a polícia e o Exército como atuantes diretos e outras apoiando o narcoparamilitarismo.

 

Quando a convocatória denunciar a todos, estarei encabeçando a marcha. Por enquanto, marcham contra as FARCs, mas é preciso lembrar que outras famílias colombianas se sentem ameaçadas pelo Estado e pelos paramilitares e, com certeza, muitos de vocês sequer lançarão palavras de ordem por elas.

 

Publicado originalmente em www.rebelion.org

 

 

Hugo Paternina Espinosa é doutor em antropologia social.

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Última atualização em Terça, 04 de Março de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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