Bolívia: não toleram um índio presidente

 

“No início diziam: esse índio não vai durar mais que seis meses na presidência. Passaram-se os seis meses. Iniciamos as reformas prometidas em campanha - nacionalização dos hidrocarburos, melhor distribuição das terras...Começaram as pressões por parte das elites e oligarquias. Convocamos a Assembléia Constituinte. Passou-se um ano. Aumentamos muito as reservas do país, tivemos um bom superávit comercial. Era preciso fazer alguma coisa, pensaram os grupos que sempre estiveram no poder. Começaram a fazer boicotes e mobilizar setores da população contra o governo.  Passaram-se dois anos. Foi aprovada a nova Constituição. Melhoramos ainda mais os índices econômicos e sociais. É inadmissível que um índio continue presidente do país, pensam as oligarquias da meia lua...”. O presidente Evo Morales continuou em tom de muita franqueza e tranqüilidade a conversa com um grupo de 13 representantes dos povos indígenas da América do Sul e Central e aliados.

 

Em mais de duas horas e meia de conversa descontraída foi possível perceber que se estava num outro momento, não só da Bolívia, mas do continente. Mudanças profundas de valores, na maneira de governar, nos projetos de sociedade. Um belo exemplo para Abya Yala (América) e o mundo.  Estávamos diante de uma pessoa inteligente e perspicaz, determinado e consciente de seu papel histórico. Um índio, um Aymara, nascido num aylo, disposto não apenas a levar o pensamento, sabedoria e jeito indígena de pensar a vida e bem viver, mas disposto a profundas transformações e à refundação do Estado boliviano como um Estado plurinacional.

 

Evo foi enfático ao insistir na importância da construção de união cada vez maior, especialmente entre os povos indígenas e camponeses, entre os setores excluídos no continente, para poder levar adiante mudanças mais profundas nos diversos países. Fez uma autocrítica avaliando os erros cometidos no processo constituinte, afirmando que esse é um sonho realizado, uma conquista histórica, mas que muito ainda se terá que lutar para colocá-lo em prática.

 

Estados plurinacionais e sociedades interculturais

 

A delegação indígena levou ao presidente a “Declaração de La Paz” do Talher Internacional convocado pela Coordenadora Andina de Organizações Indígenas – CAOI, sobre “Povos Indígenas e Estados Plurinacionais”. O documento acabara de ser aprovado por quase uma centena de representantes das organizações indígenas nacionais de vários países, e entidades solidárias.

 

O documento parte da conjuntura vivida hoje pelos povos indígenas deste continente “de mudanças políticas estruturais desde a resistência e a construção do Poder dos Povos Indígenas, exigindo e exercendo mudanças estruturais nos velhos Estados-Nação, cada vez mais privatizados e desnacionalizados, abrindo novos espaços democráticos e participativos de equidade social para o “Bem Viver”/Sumaq Kawsay/Sumaq Qamañaa, superando o desenvolvimentismo neoliberal”. São denunciadas as invasões das terras e territórios de Abya Yala provocando conflitos e perseguições, criminalização dos direitos e movimentos indígenas.

 

O documento expressa a firme decisão dos povos indígenas na construção de “Estados plurinacionais e sociedades interculturais, com novos governos que reconheçam nossos territórios e direitos coletivos e implementem políticas públicas, saberes e democracias interculturais, tendo como princípio para as sociedades  a unidade na diversidade e a sua construção sobre a base das propostas dos povos indígenas”

 

Apoio à nova Constituição e um chamado de alerta

 

No documento os povos indígenas reafirmam que, “como apoio aos processos de mudanças constitucionais na Bolívia, aprofundaremos a ampliaremos nossa mobilização para respaldar a Constituição aprovada, e que os mesmos avanços e direitos sejam incorporados na próxima Constituição equatoriana”.

 

Fazem um “chamado à solidariedade com a luta do povo boliviano e para respaldar seu, nossos povos e aliados de movimentos indígenas e sociais do mundo, nos declaramos em alerta e solidariedade permanente ante qualquer ameaça à Bolívia, por parte dos poderes transnacionais de sempre”.

 

Terminam o documento com um chamado à participação na Cumbre Social dos Povos, a efetuar-se em Lima em maio de 2008. Diante do processo de neocolonização, “responderemos junto com Tupac Amaru, Micaela Bastidas, Tupac Katari, Bartolina Sisa e os mártires da luta Mapuche, indígenas de Bolívia e Abya Yala, que nunca mataram nossas raízes, e estamos em tempo do novo Pachakutik: a descolonização do poder, Estados e saberes em Abya Yala”.

 

 

Egon Heck é coordenador do Cimi.

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Comentários   

0 #1 conclusaodurval 22-01-2008 08:56
como uma familia pobre que depois ficou rica e que nunca se posicionou como rica, assim é a esquerda da america latina. chega a presidencia de um pais mas o assunto é sempre querendo mostrar à direita que ela faz isso e aquilo. parece que só se dá por existente se a direita falar que ela existe.
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