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A crise americana e nós Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Qui, 17 de Janeiro de 2008
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Há poucas dúvidas de que os Estados Unidos estão em crise. Ela é econômica, financeira, política e militar. A indústria norte-americana perdeu competitividade e grande parte dela se transferiu para países com custos produtivos menores. Os déficits orçamentários e da balança externa de pagamentos continuam nas alturas, ou no poço, dependendo do ângulo em que se olhe.

 

As divergências, entre os partidos políticos dominantes, a respeito das políticas de impostos, saúde e emprego são consideráveis. Apesar, ou por causa disso, cresce no país um movimento político independente, que pode, mais cedo ou mais tarde, quebrar a tradicional hegemonia bipartidária. E o aparato militar dos Estados Unidos, o maior do mundo, deixou abertas suas fraquezas no Iraque, atrapalhando os planos do governo Bush de exercer o poder unipolar.

 

No entanto, concluir daí que essa é uma crise terminal, que vai levar a maior potência econômica e militar do globo para o buraco, como fazem alguns analistas dentro dos próprios Estados Unidos, talvez seja exagero. A indústria do país, por contar com enorme poder tecnológico e financeiro, continua detendo grande capacidade de recuperação. Seu poder de emissor de moeda internacional contrabalança em parte seus problemas financeiros, fazendo com que o resto do mundo os financiem.

 

É também o poder financeiro que tem a capacidade de sustentar a hegemonia bipartidária e fazer com que ela supere divergências e mantenha o rodízio formalmente democrático de governo. E ele administra diretamente a economia, através do Federal Reserve, fazendo tudo o que pode para impedir que a crise chegue a pontos críticos. Ao contrário do passado, o Banco Central americano não tem mais pudor algum em salvar, descaradamente, as instituições financeiras que correm perigo de falência.

 

Só os ingênuos ainda acreditam que o sistema estatal dos Estados Unidos não interfere na economia e deixa a mão invisível do mercado cair pesada sobre os incompetentes. Depois da grande crise de 1929, a confiança na perfeição dos mecanismos de mercado tornou-se apenas peça de propaganda, e o Estado norte-americano passou a atuar celeremente para evitar sua repetição.

 

Apesar disso, a incapacidade da máquina de guerra em dominar um país como o Iraque, com população relativamente pequena, em termos mundiais, é um sinal de que as contradições internas do colosso estadunidense tendem a se agravar. Assim, mesmo que os Estados Unidos ainda possam estar longe de uma crise terminal, os tremores de sua crise atual, como os terremotos, podem causar ondas de impacto e tsunamis destruidoras. Prevenir-se para essa eventualidade, assim com tomar caldo de galinha, não faz mal a ninguém.

 

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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