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Cocoicultura Kayapó 2007 (2) Imprimir E-mail
Escrito por Rodolfo Salm   
Quarta, 16 de Janeiro de 2008
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Recebi, em janeiro de 2006, uma bolsa que permitiu a minha dedicação integral ao projeto de cultura de cocos na Terra Indígena Kayapó. O projeto parte do pressuposto de que a cultura de cocos pode ser útil para a conservação das terras indígenas. Isso devido ao seu valor como fonte alimentar e de matéria-prima para povos que estão vivendo um momento de explosão populacional. Dentre os Kayapó, esta explosão demográfica, aliada à dependência de dinheiro para adquirir produtos industrializados, faz crescer a pressão sobre suas terras, que contém uma quantidade substancial de florestas preservadas. Neste contexto, os cocos podem ser particularmente úteis aos índios devido ao alto valor energético da “carne” dos frutos maduros.

 

CocoiculturaJá passada metade da estação chuvosa de 2005/2006, o projeto foi apresentado em caráter de urgência ao presidente da FUNAI a qual, após uma série de trâmites burocráticos, financiou a compra das mudas e o seu transporte até as aldeias. Quanto mais cedo as mudas fossem plantadas no período das chuvas, maiores seriam as suas chances de sobrevivência na primeira seca de suas vidas. Pensando bem, é incrível que tenhamos conseguido este suporte. O órgão indigenista não possui linhas de financiamento regulares desta natureza e está emperrado (pelo menos no que se refere ao desenvolvimento de alternativas econômicas para os Kayapó) em uma crise de inoperância extrema. Mas conseguimos. Só que não antes de março, quando, em função da proximidade do fim das chuvas, já se considerava até a suspensão do projeto.

 

Como temíamos, quando retornamos para a terra indígena em novembro de 2007, para uma segunda fase do projeto, verificamos que a mortalidade das mudas que leváramos no ano anterior foi bastante elevada. Vasculhamos as aldeias casa por casa e, passados 20 meses de seu plantio, das 600 mudas que deixamos em cada uma, localizamos apenas 59 vivas em Kikretum, 86 em Moikarakô e outras 98 na aldeia Aukre. Algumas estavam crescidas e muito bem, outras nem tanto. Esta mortalidade foi causada por uma série de fatores que variam das características do solo onde foram plantadas à sua exposição à atividade daninha e peralta das crianças, que visivelmente destruíram várias delas. Sem esquecer das capivaras, abundantes nas proximidades da aldeia Kikretum, que, segundo os índios comeram várias das mudas recém plantadas. Em muitos casos, era possível reconhecer o cuidado de seus proprietários em proteger as plantas sobreviventes, regando-as, protegendo-as (até mesmo com arame farpado por causa das crianças e outros predadores), adubando-as, etc. Ainda assim, caso todas as mudas sobreviventes até o momento cheguem até a idade adulta, isto significará um aumento de 100% da população atual de coqueiros adultos destas três aldeias. Tendo em vista que a última campanha (que levou outras 2700 mudas de coqueiro-anão precoce a estas três aldeias), foi feita no início da estação chuvosa, estamos esperançosos de que seus resultados sejam ainda mais promissores. Uma vantagem do coco em relação às culturas anuais é que, uma vez plantados e superando as dificuldades do primeiro ano, os cuidados necessários para a sua sobrevivência e produtividade são mínimos. Assim, apesar das dificuldades que enfrentamos, os resultados deste projeto são significativos e duradouros.

 

CocoiculturaUma particularidade do coqueiro é que possui uma semente imensa (uma das maiores do reino vegetal), que é o próprio coco e que (exceto pela sua flutuabilidade no mar) impõe severas restrições à sua dispersão. Daí a necessidade de fretarmos caminhões e mobilizarmos frotas de barcos para transportar alguns milhares de suas sementes. Sob o ponto de vista estritamente agronômico, a mortalidade de 85% a 90% das mudas plantadas em 2006 é, sem dúvida, um fracasso. Porém, sob a ótica da dispersão de sementes (um processo naturalmente caracterizado por altíssimas taxas de mortalidade), a sobrevivência de 10% a 15% dos coqueiros plantados pode ser um sucesso retumbante. E o que estamos fazendo, ao enviar grandes quantidades de mudas de coqueiro a algumas das localidades mais remotas do centro do continente sul-americano é, antes de tudo, dispersando sementes. Sementes de uma das plantas tropicais mais importantes para a espécie humana, vindas, em última instancia, de além do litoral nordestino, do outro lado do mundo, do Sudeste Asiático, onde a espécie desenvolveu-se, para um povo distante que acaba de incorporar-se à sociedade global.

 

Como alertou o recente relatório da WWF, divulgado recentemente em Bali na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, e que prevê que a Amazônia terá perdido 50% de sua cobertura vegetal em 2030, a região está à beira de um período de transformações climáticas dramáticas, em função do aquecimento global. O efeito estufa pode, ao longo deste século, elevar a temperatura na região onde se encontra a Terra Kayapó em algo entre 2oC e 8oC, e reduzir suas chuvas em 20%. Com isso, a floresta atingirá muito mais facilmente um ponto de ressecamento tal que permitiria que o fogo se alastre sobre ela indefinidamente, destruindo-a.

 

Subindo o rio Fresco em direção à aldeia Kikretum, vi diversas marcas de fogos descontrolados que enfeiavam a floresta, dando-lhe um aspecto doente, e vulnerável. Na aldeia Moikarakô não havia bananas este ano, porque um incêndio destruiu seus roçados. Subindo o Riozinho, em direção ao Aukre, passada a Cachoeira-de-um-dia, que tem esse nome devido ao trabalho que se tem para passar por lá (e onde os índios passaram um dia arrastando o barco, fazendo um imenso esforço pela cocoicultura), felizmente pude constatar que, por enquanto, a vegetação continua virgem e linda. Voltando de avião, da janela do monomotor, ainda pude ver floresta, salpicada de serras e cortada apenas pelo Riozinho. É difícil imaginar aquilo tudo convertido em deserto. Prefiro pensar no projeto dos cocos como um apoio para que não aconteça. Mas, se for inevitável, certamente aquelas sementes serão muito úteis ao futuro dos que moram por lá.

 

 

Rodolfo Salm, doutor em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia e pela Universidade Federal de São Carlos, é pesquisador do Museu Paraense Emílio Goeldi.

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