2008: eleições municipais

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Chamar de novo o ano que se inicia me deixa de pé atrás. Mineiro, sobra-me desconfiança. Porque novo só mesmo o avanço de um dígito no calendário anual deste século XXI.

Ano que se inicia é como casa nova, vem junto toda a tralheira da velha. Parece aniversário, a gente muda de idade e conserva os mesmos vícios, as mesmas manias, os mesmos (des)propósitos. E ainda acha, de quebra, que não ficou mais velho. Porque ruga só se enxerga em rosto alheio.

Este novo ano convergirá para as eleições municipais. Vai rachar na base citadina a coalizão articulada nas lúlicas altitudes do Planalto. Partidos que se bicam em Brasília haverão de quebrar o pau na disputa municipal pela cadeira de prefeito. E uma avassaladora multidão de candidatos estará de olho no mandato de vereador. Uns, porque, imbuídos de espírito cívico, aspiram sinceramente a servir à população. Outros sonham em ganhar sem trabalhar.

Ser vereador no Brasil é prêmio da loteria eleitoral. O eleito comparece uma ou duas vezes por semana à Câmara Municipal e, graças ao cargo, dedica o resto do tempo ao que lhe dá na telha. Uns poucos se interessam de fato pela cidade; outros cuidam de seus negócios pessoais; e há ainda os que preferem a ociosidade bem remunerada, turistando mundo afora à custa do contribuinte e do erário público.

A maioria faz tráfico de influência. É o chamado nacotraficante. De cada jeitinho dado o sujeito arranca um naco em proveito próprio: um saco de cimento aqui, a matrícula do menino ali, uma passagem rodoviária interestadual acolá...

O bom pra eles é que nós, eleitores, votamos e, quinze dias depois, nem mais recordamos o nome do candidato. Se eleito, o sujeito fica à vontade, sem sofrer pressão de quem o elegeu. É a democracia delegativa. Nem chega a ser representativa. E está a mil anos-luz da participativa – aquela em que a sociedade civil organizada interage permanentemente com o poder público. E tem consciência de que político não é autoridade, é servidor. Nós o elegemos e lhe pagamos o salário. Autoridade é o povo, a quem ele deve prestar contas. O eleitor tem o direito de cobrar, propor, pressionar; o político, o dever de prestar contas.

Bom seria que escolas, associações, sindicatos, igrejas, empresas etc. promovessem debates com partidos e candidatos, e exigissem, por escrito, a garantia de que cumprirão determinados compromissos. Fiz isso na última eleição para deputado federal. Houve quem se recusasse a assinar... E olha que era gente de partido pretensamente progressista. É assim, na hora do discurso, uma beleza; na hora do compromisso, uma tristeza...

E é bom ter presente também que, neste ano, comemoram-se os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. O que a direita raivosa considera “coisa de bandido”. Falta incluir na Declaração os direitos internacionais, planetários e ambientais, de modo a obrigar o governo dos EUA a tirar as patas de Cuba (Guantánamo + bloqueio) e de Porto Rico (colônia USA desde 1898, quando o processo de descolonização já ocorreu no resto do mundo).

Bons votos e feliz 2008, querido (a) leitor (a)!


Frei Betto é escritor, autor de “A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros.

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Comentários   

0 #8 Um Francês Perdido 05-02-2008 10:40
Lucio Santos, infelizmente, você esta completamente errado! estou na França, aqui tb temos eleições municipal, e aqui tb, os vereador estão sendo remunerado, e aqui tb, alguns quer fazer alguma coisa, mas bastante estão na luta para o dinheiro. Um prefeito por aqui, numa vilarejo de 5 mil habitantes, vai ganhar uns 5 mi por mês!! Euros, não R$!!
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0 #7 Eleições...Jetro Menezes 22-01-2008 07:44
Recentemente, conversei com alguns amigos sobre a Câmara Municipal de SP. É realmente uma vergonha. Eleger vereadores para dar nome a ruas e praças é pouco demais. Tenho esperança em uma sociedade participativa. Acredito que as Subprefeituras são o caminho. Desde que os Subprefeitos sejam eleitos e não nomeados pelo Prefeito.
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0 #6 Placa:Curva à esquerda(quase) obrigatóriVital do Rg Santo André 14-01-2008 18:01
Lutadores(as)do Brasil:

Meu camarada Frei Beto,tenho orgulho de você,sem lhe conhecer,aprecio seu trabalho,sua escrita e seus pensamentos como quem ama de paixão algo desconhecido.Pois então,2008 esta aí e junto com ele todo o poder econômico,os tratores do PAC desbravando matas,ruas e praças e junto com ele o nosso dinheiro oferecido aos tubarões que sempre mandaram e ainda mandam em nosso Brasil,apesar do nosso esforço em deixar o Homem trabalhar!

Eu já escolhi meu lado,no seio dos movimentos sociais é lá que você vai me encontrar!

Um forte abraço,gostaria de lhe oferecer uma caricatura,se possível entre em contato comigo!

email:
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0 #5 NacotraficanteMarcelo Costa Ferreira 11-01-2008 13:21
Caro Frei Betto

Sou admirador do seu trabalho, mas te confesso que achei um notável exagero da sua parte nas tarefas de intermediação que alguns parlamentares fazem, processo este que denominas de nacotraficante: "A maioria faz tráfico de influência. [...]De cada jeitinho dado o sujeito arranca um naco em proveito próprio: um saco de cimento aqui, a matrícula do menino ali, [...]". Não dá para colocar no mesmo saco aquele que troca o voto por dentadura da mãe que quer um filho na escola. O problema é que o Estado brasileiro não é republicano, o que faz a pessoas a pedirem a intermediação do parlamentar.
Concordo que o ideal seria que o parlamentar não fizesse esse tipo de intermediação, que envolve deste intermediações justas até negócios estranhos, mas será que uma mãe numa favela prefere ser chamada nacotraficante a ter seu filho fora da escola?
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0 #4 Da miséria participativaFlávio Flora 11-01-2008 11:58
Precisamos, todos juntos, fazermos alguma coisa contra o processo de miserabilização que arrasta milhôes de pessoas para o cinismo de dar votos em troca de migalhas e pequenos benefícios pessoais.

Observando as eleições municipais nas últimas três décadas, percebemos um acentuado declínio de lideranças comprometidas com as questões básicas da população. A qualidade das nossas casas legislativas e executivas, em todos os níveis, é uma vergonha

A educação melhora a escolha dos candidatos, mas as dificuldades financeiras estimulam a corrupção geral. Daí que Câmaras e Prefeituras estão cada dia mais vulneráveis à linguagem dos banqueiros.

Outra coisa que devemos nos precaver. Não conheço um segundo mandato eleitoral que desse bons resultados para os cidadãos em geral, em qualquer lugar do mundo. Veja Lula e FHC, por exemplos... impiedosos e cruéis com a classe trabalhadora e com os consumidores pobres.
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0 #3 Eleições MunicipaisPaulo Pesce 11-01-2008 08:59
Concordo com o Querido Frei Beto, eu pessoalmente julgo que nossa democracia, ainda é bastante jovem, o que causa esse desconhecimento, apatia, desinteresse do eleitor. Ainda ocorre muita farra de compra de votos, as pessoas vendem o voto sem nenhuma culpa ou puder, enquanto sua cidadania escorre pelo ralo farto da corrupção. Espero que de tanto apanhar nosso povo aprenda a ler por detrás das palavras sofismáticas destes bandidos políticos de carreira. Salve a Democracia!
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0 #2 2008 - Eleições MunicipaisPercio 11-01-2008 07:56
Como sempre, Frei Betto escreve com uma clareza de raciocínio de fazer inveja.
Parabéns pela matéria.
Desejo também feliz 2008 a todos do Correio da Cidadania.
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0 #1 Vereadores: Delegados bem remuneradosLúcio Santos 11-01-2008 03:31
Caro Frei Beto,
A sua brilhante inteligência poderia ser canalizada conduzir uma "força tarefa" no sentido de promovermos uma mudança na Constituição Federal, acabando com a figura política do Vereador, com carago remunerado. Aliás, parece-me que apenas no Brasil e outros poucos países da América Latina mantêm essa formatação política de remunerar "Vereadores". Bairros e Cominidades teriam representantes eleitos pela sociedade civil para trabalho sem remuneração, trabalho voluntário e solidário.Teriamos, assim, iniciando, na prática a tâo desejada democracia participativa. Acho que uma Campanha nesse sentido traria bons resultados.
Cordialmente,
Lúcio Santos
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