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Maior combatividade exige abandono de ilusões e criatividade política Imprimir E-mail
Escrito por Valéria Nader   
Qui, 03 de Janeiro de 2008
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Nosso entrevistado especial nesse começo de 2008 é o historiador e professor da Universidade Federal de São Carlos Marco Antônio Villa.

 

“A modorra sintetizou bem o momento que vivemos, marcado pelo desinteresse pela política. Além da incompetência das direções de transformar a política em um tema relevante”. A partir desse diagnóstico muito claro, Villa é também muito direto e enfático em suas previsões para o futuro, no que se refere aos meios hoje ao nosso alcance para o desenvolvimento da nação.

 

Acredita que a esquerda perdeu o rumo, entre outros, em função de um arraigado apego a dogmas; que o governo Lula cooptou boa parte dos movimentos sociais; e que 2008 assistirá, desde muito cedo, às inócuas discussões em torno às eleições do segundo semestre, em detrimento, mais uma vez, dos eternamente esquecidos temas relevantes, a exemplo da reforma política.

 

A construção, no atual momento histórico, e passado um ano do segundo mandato do presidente-operário, de um autêntico e possível projeto de esquerda e/ou de transformação não é, na visão do historiador, tarefa simples. Requereria “entender o Brasil com uma ótica original, sem dogmas, sem citações de catecismo, sem fundamentalismo. Construir um pensamento e uma ação política de esquerda para o século XXI”.

 

Confira abaixo entrevista exclusiva.

 

 

Correio da Cidadania: Crise no Senado, descoberta de novos e promissores campos de petróleo, a arrastada tentativa do Executivo de prorrogar a CPMF, o jejum de D. Cappio, entre outros, são fatos reveladores de 2007, o primeiro ano do segundo mandato de Lula. Como você avalia esse ano?

 

Marco Antônio Villa: 2007 foi um ano politicamente fraco. Só ficou um pouco mais animado em dezembro com a votação da CPMF e a greve de fome de D. Cappio. A modorra sintetizou bem o momento que vivemos, marcado pelo desinteresse pela política. Além da incompetência das direções de transformar a política em um tema relevante.

 

CC: As análises retrospectivas dos anos que se vão não trazem grandes novidades, pelo menos, as alvissareiras. No ano de 2007, no entanto, surgiram notícias mais enfáticas, especialmente no campo econômico, de retomada de crescimento, de queda do desemprego, de menor inflação e até mesmo de elevação do rendimento da população. Trata-se de algo sólido, a seu ver, ou apenas a evidência de um quadro momentâneo de “pneumonia sem febre”, que poderá em algum momento explodir?

 

MAV: O país manteve seu ritmo de crescimento com uma leve aceleração. Deve ser lembrado que a baixa inflação e o aumento do emprego melhoraram a vida especialmente dos setores mais pobres da população. O que se critica é que o momento internacional é favorável - como nunca nas últimas décadas -, porém o governo não consegue acelerar o ritmo do crescimento econômico.

 

CC: No que se refere ao nosso cenário político, à época do pico da crise no Senado, houve discussões calorosas sobre se vivíamos ou não uma crise institucional em nosso país. Enquanto alguns estudiosos a negavam peremptoriamente - entre outros argumentos, porque vivemos uma República calcada em uma forte figura presidencial -, outros enxergavam seus sinais, por exemplo, em um certo disfuncionamento de nossa República, onde há um Executivo que legisla por meio de um emaranhado de medidas provisórias e um Legislativo que exerce inconcebível “poder liberatório” sobre o Executivo. Qual a sua opinião?

 

MAV: Não vivemos em 2007 uma crise institucional. Aqueles acontecimentos são típicos de uma democracia - como a brasileira - com os defeitos já conhecidos. O ideal seria aprender com tudo aquilo e realizar as reformas tão faladas, mas até hoje sequer iniciadas.

 

CC: E quanto à mobilização social, você acredita que esteja havendo uma retomada, com a ruptura face à inércia anterior, como vem sendo anunciado dessa vez por alguns representantes do campo da esquerda?

 

MAV: Não há mobilização política. Os movimentos sociais perderam o rumo. Pior: a esquerda perdeu o rumo e não consegue elaborar bandeiras que levem à mobilização.

 

CC: Ainda no tocante à mobilização social, pensando em uma das organizações mais importantes de nosso país, o MST, você considera que o movimento tenha iniciado em 2007 um afastamento mais efetivo do governo e de Lula – na medida em que vem fazendo uma crítica contumaz à nova onda de biocombustíveis, certamente circunscrita ao modelo econômico em voga -, ou ainda persiste, de certo modo, amarrado a esses dois entes?

 

MAV: Boa parte (ou a ampla maioria) dos movimentos sociais foi cooptada pelo governo Lula. O MST está paulatinamente perdendo a sua principal bandeira: a reforma agrária. Ao invés de enfrentar seriamente a discussão sobre a pertinência ou não da reforma agrária no século XXI brasileiro, optou por construir outras bandeiras de luta. Hoje, sinceramente, é mais um partido político do que um movimento social (sociologicamente falando). E um partido político de velho tipo, pré XX Congresso do PC da URSS. Suas lideranças se eternizaram no interior do ex-movimento social, controlam sua estrutura de poder e acabaram adquirindo os vícios deste tipo de organização burocrática. Um outro caminho seria se transformar em um partido agrarista, mas aí teria de mudar tudo, inclusive sua estrutura organizativa.

 

CC: Segundo disse, a esquerda perdeu o rumo. Mas como andou a sua atuação em 2007? Não houve avanço algum que se refere ao entendimento e diagnóstico da problemática brasileira e aos caminhos apontados para mudanças rumo a outro tipo de sociedade?

 

MAV: A esquerda brasileira só voltará a ser esquerda quando abandonar os dogmas. Ou seja, não é possível entender a luta política atual sacando do bolso uma citação de Marx, Engels ou Lenin. É um velho hábito introduzir a forceps uma citação de "O Capital", do programa de transição de Trotsky ou coisa que o valha, como se a citação resolvesse o dilema político. Como se o discurso alterasse magicamente a conjuntura política.

 

Em outras palavras: uma análise original, criativa, do Brasil tem de levar em conta que o mundo mudou. Não adianta apresentar argumentações fundamentalistas. Escrever que o capitalismo vive uma crise terminal é uma empulhação. O original é entender como o capitalismo enfrentou e venceu tantas crises no século XX. Original é ver como o capitalismo venceu o socialismo marxista. Original é analisar o que está acontecendo na China e seus reflexos na economia mundial. Original é analisar a América Latina e tentar compreender por que vive o seu maior ciclo de prosperidade econômica (com todos os problemas que sabemos que ainda há).

 

CC: Pensando ainda na esquerda, como avalia o desempenho do partido que tem representado contrapontos no cenário político, o PSOL? Você acredita que ele esteja hoje desempenhando papel análogo ao do PT, na época em que este fazia uma oposição mais verdadeira?

 

MAV: O PSOL não conseguiu romper o círculo de pequenos grupos. Heloísa Helena foi bem na eleição presidencial, mas despolitizou a sua campanha. A curto prazo, o PSOL dificilmente ampliará seu espaço político.

 

CC: Um dos grandes temas em recorrente discussão em nossa nação é a reforma política. Por que esse é um tema que não avança no país?

 

MAV: Porque não há interesse efetivo. Todo ano, falam que a reforma política vai caminhar e em dezembro tudo continua na mesma. A principal questão, creio, é que muitos serão prejudicados e a maioria tem medo de enfrentar um outro modelo eleitoral.

 

CC: O que seria para você uma verdadeira reforma política e o que ela deveria pressupor? Levada a cabo seriamente, daria realmente conta de sanar algumas de nossas mazelas políticas?

 

MAV: Acabar com o número mínimo e máximo de deputados por estado na Câmara. O Senado é que tem de ser a "Casa da Federação", ou seja, é lá que tem de haver a representação igualitária entre os estados. Outra medida poderia ser a adoção do voto distrital (ao menos ter alguma experiência). Outra seria o financiamento público das campanhas.

 

CC: Você acredita em propostas como as do jurista Fábio Konder Comparato, priorizando consultas, referendos e plebiscitos, como forma de trazer o povo ao centro do cenário político?

 

MAV: Não, discordo. Temos eleições de dois em dois anos. A questão central é o mau funcionamento, especialmente do Poder Legislativo.

 

CC: Como imagina que vá prosseguir essa discussão em 2008?

 

MAV: 2008 vai começar com a discussão do orçamento (o que é um absurdo, pois o ano vai começar é não há orçamento aprovado), depois só se vai falar de uma coisa: eleição municipal.

 

CC: O que a greve de D. Cappio revela de nosso governo e, também, para o nosso país? Como acha, ademais, que vai se desenrolar essa situação?

 

MAV: Sou contra a transposição. Há soluções mais baratas. Falta coordenação entre as agências federais que atuam na região, muito mais do que faltam recursos. Principalmente, inexiste um projeto para o semi-árido, que dê viabilidade econômica à região. Hoje, na maior parte dos municípios, a população sobrevive graças a duas fontes: a aposentadoria rural (criada pelo regime militar) e a bolsa-família. Não há atividade econômica rentável. As cidades sertanejas estão marcadas pelo desemprego, violência, alcoolismo e drogas.

 

CC: Você acredita que Lula queira e vá disputar um 3º mandato, segundo insinuações de sua própria base aliada, apesar de seus desmentidos peremptórios?

 

MAV: No Brasil nada é impossível. Como o governo não tem hoje um candidato viável, isto pode estimular, no segundo semestre de 2008, um movimento pró-terceiro mandato.

 

CC: Como imagina que vá caminhar a esquerda e as mobilizações sociais em 2008?

 

MAV: Sinceramente, acho que politicamente será irrelevante a atuação da esquerda. O PT ocupou o espaço com suas organizações, cooptou os movimentos sociais e pode atender a algumas demandas sociais. Deve ser reconhecido que o Lula ainda tem enorme prestígio entre as camadas populares.

 

CC: O que configuraria, ademais, no atual momento histórico, e passado um ano do segundo mandato do presidente-operário, um autêntico e possível projeto de esquerda e/ou de transformação?

 

MAV: Entender o Brasil com uma ótica original, sem dogmas, sem citações de catecismo, sem fundamentalismo. Construir um pensamento e uma ação política de esquerda para o século XXI. Falar daquele socialismo do século XX é inverter o dilema "socialismo ou barbárie". Aquele socialismo é a barbárie. O socialismo é uma criação especialmente de 1848. Temos de virar a página desta história, desta crítica ao capitalismo do século XIX. Uma esquerda efetivamente moderna, contemporânea, tem de ter a ousadia de conviver com o capitalismo, de ampliar os espaços sociais, de conquistar melhores condições de vida para as amplas maiorias. Tem de criar um pensamento que sabia viver em (e com a) democracia (pois grande parte da esquerda tem forte simpatia ainda, por incrível que pareça, pela ditadura "sobre" o proletariado).

 

Mas sei que isto dificilmente vai ocorrer. É mais fácil e cômodo repetir velhos slogans. E a esquerda vai envelhecendo, assim como os militantes dos anos 60, 70 e 80 vão perdendo os cabelos, aumentando de peso e, principalmente, falando uma linguagem que o jovem não entende. Como se, ao ver os carros na rua, dissesse que bons e confortáveis eram os Gordinis.

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Última atualização em Qui, 17 de Julho de 2008
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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