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Escrito por Léo Lince   
Domingo, 23 de Dezembro de 2007
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A virada do ano está definitivamente encoberta por um manto indelével: o calvário do frei Luiz Flávio Cappio. Nada, nenhuma análise de balanço ou projeção de perspectiva, pode fugir ao crivo deste acontecimento espantoso.

 

O debate travado, no duplo sentido da palavra, sobre as implicações materiais da obra gigantesca é apenas a feição descoberta do iceberg. O desfecho imediato do protesto singular, qualquer que seja, será apenas um momento do processo maior. O leve tremor que alcançou a superfície dos acontecimentos, aparências à parte, indica o deslocamento de camadas profundas na alma brasileira.

 

O crucificado do Gólgota também foi condenado pelos poderosos da época: o delegado do império, os sátrapas locais, a máquina mercante e até a hierarquia do templo. Não faltou, inclusive, uma parte do público que preferiu Barrabás. Aos sucedâneos de hoje da mesma malha de interesses, vale lembrar o poema de Juana Inês de la Cruz : “Firma Pilatos a sentença que julga alheia, mas é a sua. Oh caso forte! Quem crerá que, firmando alheia morte, o mesmo juiz nela se condena?”.

 

Os poderosos, eufóricos, comemoram na borda do vulcão. A prosperidade do capitalismo da exclusão gera ganhos vertiginosos nas roletas do cassino financeiro. Os muito ricos estão com tudo e estão prosas. A mídia grande, que manipula mais do que informa, garante a ofensiva ideológica do modelo dominante. Desigualdade, competição inumana? Ordem natural das coisas. Poluição descontrolada? Preço do progresso. Urbe violenta? Culpa dos pobres. 

 

As alavancas do poder público estão definitivamente embrulhadas no manto sulfuroso da pequena política. A seqüência de escândalos, distribuídos entre os poderes dos vários escalões da República, é a contrapartida inevitável do predomínio absoluto da política de negócios. Nunca a política brasileira esteve atrelada de maneira tão escancarada nas malhas da corrupção sistêmica. Nunca o povo teve que buscar tão fundo a ressurreição da esperança.

 

Duas fotografias, publicadas na Folha de S. Paulo (página 20, 9/12), fornecem uma imagem precisa do momento atual A primeira, maior, mostra o presidente Lula e o governador Cabral, olhos injetados pelas libações festivas, dando gargalhadas. Na legenda, noticia-se a liberação de 12 milhões de reais para os banqueiros do bicho que controlam a liga das escolas de samba do primeiro grupo no Rio de Janeiro. Ao lado, em foto menor, aparece a figura de frei Cappio no seu décimo segundo dia de jejum, acompanhado por Letícia Sabatella.  Uma estampa de rara e angelical beleza, onde a aura de dignidade expressa a força da fé dos que sabem que mais fortes são os poderes do povo.  

 

O balanço do ano de 2007 e as perspectivas de 2008 não se resolvem sem a decifração do mistério profundo que emana das águas do São Francisco.  Muito abaixo da crosta, abaixo das águas represadas dos açudes e até dos aqüíferos mais profundos, há uma fonte de água limpa que insiste em jorrar. Entroncamento , esquina da história, o gesto do bispo Cappio, o radical sereno, é um divisor de águas.  

 

Léo Lince é sociólogo.

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Última atualização em Domingo, 23 de Dezembro de 2007
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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