Divisor de Águas

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A virada do ano está definitivamente encoberta por um manto indelével: o calvário do frei Luiz Flávio Cappio. Nada, nenhuma análise de balanço ou projeção de perspectiva, pode fugir ao crivo deste acontecimento espantoso.

 

O debate travado, no duplo sentido da palavra, sobre as implicações materiais da obra gigantesca é apenas a feição descoberta do iceberg. O desfecho imediato do protesto singular, qualquer que seja, será apenas um momento do processo maior. O leve tremor que alcançou a superfície dos acontecimentos, aparências à parte, indica o deslocamento de camadas profundas na alma brasileira.

 

O crucificado do Gólgota também foi condenado pelos poderosos da época: o delegado do império, os sátrapas locais, a máquina mercante e até a hierarquia do templo. Não faltou, inclusive, uma parte do público que preferiu Barrabás. Aos sucedâneos de hoje da mesma malha de interesses, vale lembrar o poema de Juana Inês de la Cruz : “Firma Pilatos a sentença que julga alheia, mas é a sua. Oh caso forte! Quem crerá que, firmando alheia morte, o mesmo juiz nela se condena?”.

 

Os poderosos, eufóricos, comemoram na borda do vulcão. A prosperidade do capitalismo da exclusão gera ganhos vertiginosos nas roletas do cassino financeiro. Os muito ricos estão com tudo e estão prosas. A mídia grande, que manipula mais do que informa, garante a ofensiva ideológica do modelo dominante. Desigualdade, competição inumana? Ordem natural das coisas. Poluição descontrolada? Preço do progresso. Urbe violenta? Culpa dos pobres. 

 

As alavancas do poder público estão definitivamente embrulhadas no manto sulfuroso da pequena política. A seqüência de escândalos, distribuídos entre os poderes dos vários escalões da República, é a contrapartida inevitável do predomínio absoluto da política de negócios. Nunca a política brasileira esteve atrelada de maneira tão escancarada nas malhas da corrupção sistêmica. Nunca o povo teve que buscar tão fundo a ressurreição da esperança.

 

Duas fotografias, publicadas na Folha de S. Paulo (página 20, 9/12), fornecem uma imagem precisa do momento atual A primeira, maior, mostra o presidente Lula e o governador Cabral, olhos injetados pelas libações festivas, dando gargalhadas. Na legenda, noticia-se a liberação de 12 milhões de reais para os banqueiros do bicho que controlam a liga das escolas de samba do primeiro grupo no Rio de Janeiro. Ao lado, em foto menor, aparece a figura de frei Cappio no seu décimo segundo dia de jejum, acompanhado por Letícia Sabatella.  Uma estampa de rara e angelical beleza, onde a aura de dignidade expressa a força da fé dos que sabem que mais fortes são os poderes do povo.  

 

O balanço do ano de 2007 e as perspectivas de 2008 não se resolvem sem a decifração do mistério profundo que emana das águas do São Francisco.  Muito abaixo da crosta, abaixo das águas represadas dos açudes e até dos aqüíferos mais profundos, há uma fonte de água limpa que insiste em jorrar. Entroncamento , esquina da história, o gesto do bispo Cappio, o radical sereno, é um divisor de águas.  

 

Léo Lince é sociólogo.

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Comentários   

0 #3 Greve de Cappio: o maior acontecimento dRinaldo Martins de Oliveira 26-01-2008 12:41
No meu ponto de vista, a greve de Cappio representou o mais importante acontecimento político dos últimos tempos, pois foi um ato que transcendeu os limites e as limitações da atuação política dentro da lógica "institucional". Os movimentos sociais e organismos políticos no país e de fora estavam precisando de um gesto radical como esse para fazê-los refletir um pouco sobre seus métodos de intervenção, que estão muito comportados e que não ameaçam a ordem constituída. Foi um bispo mendicante, sozinho, apenas com seus princípios evangélicos, capaz de colocar em xeque todo o governo e quebrar a sua remoda de falso popular, coisa que ninguém até agora tinha conseguido fazer. Isto exige uma profunda reflexão de todos os que pretendem mudanças no país e no mundo.
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0 #2 PARABENS E AGRADECIMENTOSPLINIO sAMPAIO 03-01-2008 15:52
Prezado Leo
que lindas imagens voce usou para descrever a saga do povo pobre do Brasil!
Meus parabens pelo seu lindo artigo e meus agradecimentos pela valiosa colaboração que vem prestando ao Correio.
Um abraço, Plinio
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0 #1 Transposição do São Franciscojoão alhais 30-12-2007 11:39
A greve do Bispo contra atransposição das águas do São Francisco, é puramente irracional e emocional. Sou mineiro resido em Minas Gerais, mas a única iniciativa do lulismo que apoio é essa. A obra está atrasada pelo menos 400 anos. Quem se opõe é quem tem interesse economico em irrigação e energia principalmente os baianos. Se o Rio São Francisco sai de Minas Gerais degradado é culpa e responsabilidade dos mineiros. joão alhais
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