Novas questões, novas escolhas

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Os novos dados sobre o PIB brasileiro, divulgados recentemente pelo IBGE, revelaram que nos últimos anos a economia do país cresceu um pouco mais do que se supunha. A nova informação parece consistente, pois a revisão na metodologia de cálculo do PIB vinha sendo preparada há anos e segue normas internacionais.

 

Faltou um elemento para que o IBGE pudesse gerar estimativas ainda mais confiáveis: verba para que fosse realizado um censo econômico. O último foi feito em 1985, e desde então o eterno “ajuste fiscal” tem impedido a realização de atualizações, que trariam informações importantes não só para um cálculo mais apurado do PIB, mas para subsidiar a formulação e avaliação de várias políticas públicas.

 

Rumo distinto?

 

O que muda, qualitativamente, na análise da trajetória recente da economia brasileira à luz dos novos dados do PIB? Em rigor, muito pouco.

 

Embora numa proporção menor do que antes se calculava, o crescimento da economia brasileira nos últimos anos, de marcante “bonança” global, continuou bem inferior ao da economia mundial como um todo. A desvantagem na comparação com o ritmo médio de crescimento alcançado por outras economias periféricas – chamadas de “emergentes” no vocabulário da grande mídia – prosseguiu muito expressiva.

 

A revisão para cima no PIB não implicou revisão para baixo no desemprego. Este continua alto nas metrópoles (únicas regiões onde são feitos levantamentos regulares) – na faixa de 10% da população, pelo critério de aferição adotado pelo IBGE, e de 16%, pelo critério mais rigoroso das pesquisas que seguem a metodologia formulada pelo convênio Dieese/Seade. O pior é que, desde 2005, a redução do desemprego tem ocorrido de forma descontínua e muito lenta. Pior ainda: sabe-se agora que isso vem ocorrendo apesar de a economia estar crescendo mais do que se imaginava – logo, sua capacidade de criar empregos se revela ainda menor do que parecia.

 

Raio de manobra

 

A grande mídia tem enfatizado alguns pontos como grandes novidades. Se o PIB é maior do que se supunha, então, como proporção do PIB, a dívida pública é menor do que se estimava. O mesmo para a dívida externa.

 

Isso significa que, em tese, a política econômica está menos manietada pelos constrangimentos enormes que essas dívidas criaram desde o início dos anos oitenta: pressões para conter gastos e aumentar impostos pra economizar recursos pra pagar juros; pressões sobre a taxa de juros pra fechar as contas externas; pressões de alta da cotação do dólar, dificultando enormemente o controle da inflação; pressões dos credores externos e internos por reformas liberalizantes na economia (abertura financeira e comercial, privatizações) etc.

 

No caso da taxa de câmbio, a situação já se inverteu, em comparação à tradição brasileira: não se convive com uma falta de dólares ou com o risco de que essa falta possa sobrevir de repente. Pelo contrário, o quadro é de “sobra” de dólares, devido a uma soma de fatores: a prévia desvalorização do real (1999-2002), que induziu as empresas atuantes no Brasil a buscar mercados no exterior; a forte alta dos preços de muitos produtos primários, tanto agrícolas como minerais, que exportamos; a taxa de juros, ainda entre as mais altas do mundo (logo, com forte poder de atração de capitais em busca de valorização); e o próprio processo de redução da dívida pública e de fortalecimento das contas externas, que reduzem o risco em que os investidores avaliam incorrer ao fazer aplicações no país.

 

O desafio, portanto, é bastante diverso daquele que marcou a trajetória da economia brasileira de forma quase ininterrupta desde a crise de 1930. Agora a questão é: como administrar a “sobra” de dólares?

 

Escolhas

 

Existem variadas maneiras de responder à questão – assim como havia variadas maneiras de se lidar com a crise da dívida externa e a explosão da dívida pública que condicionaram a trajetória da economia desde fins da década de 1970.

 

No caso desses desequilíbrios que ora se revelam bem menores, vale lembrar a frase de Tancredo Neves: “não pagaremos a dívida com a fome do povo”. Essa dívida está agora, em boa medida, paga. Como a política econômica optou, sistematicamente, por uma distribuição perversa dos ônus do chamado “ajustamento” das contas externas e das contas públicas, pode-se dizer que a dívida foi paga, sim, com a fome do povo (duas décadas e meia de baixo crescimento da economia, elevação estrutural do desemprego, corrosão do poder de compra dos salários, desestruturação do Estado, deterioração dos serviços públicos prestados à população e da infra-estrutura econômica etc.).

 

Agora, em tempos de “bonança” das finanças e do comércio internacionais, o leque de escolhas da política econômica se ampliou. Até que ponto o governo se esforçará para fazer frente à tendência de valorização do real, que aponta para a perspectiva de a economia do país voltar a especializar-se, a uma velocidade bem maior do que nos últimos 25 anos, na produção de bens primários voltada à exportação (velho sonho dos liberais da velha guarda)? Como serão distribuídos os frutos do crescimento econômico, que esboça acelerar-se (pelo menos enquanto a apreciação do real não fragilizar novamente as contas externas, o que pode levar anos)?

 

São as questões a que devemos atentar.

 

 

Jurandyr O. Negrão é economista.

 

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