Passivos reputacionais

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O que é essencial para alguém colocar em marcha um projeto que pode oferecer riscos ao meio ambiente? Dinheiro. E como conseguir dinheiro para executar projetos ambientalmente nocivos? Nos bancos. Isto posto, como conter a degradação ambiental financiada por volumes razoáveis de recursos financeiros? Com os bancos mantendo um controle rígido sobre o destino do dinheiro que emprestam. Parece simples e é.

 

Faz já algum tempo que alguns ambientalistas perceberam essa interessante realidade. Chico Mendes, por exemplo, conseguiu notoriedade internacional ao recomendar ao Banco Mundial a suspensão do financiamento para pavimentação de rodovias que cortam o Acre. Ainda nos ano 80, algumas ONGs começaram o duro trabalho de fazer com que os maiores ícones do capitalismo mudassem os critérios de avaliação para as concessões de empréstimos. A intenção era (e ainda é) que os banqueiros levem em conta algo mais do que simplesmente o lucro que pode ser gerado com o negócio.

 

A pressão, de início, foi feita sobre os bancos multilaterais, como o Banco Mundial, o BID e o FMI. Na época, estas instituições respondiam pela maior parte dos grandes investimentos nos países então chamados de “subdesenvolvidos” (hoje temos o politicamente mais correto “emergentes”. Na prática, quase nada mudou na relação de forças entre as nações, mas o nome ficou “mais bonito”).

 

Aos poucos, este cenário foi se modificando. Já nos anos 90, a artilharia começou a ser direcionada para os bancos privados, de onde saem hoje a maior parte dos grandes empréstimos para grandes obras. Um dos resultados disso foi a Declaração de Collevecchio, endossada em 2003 por mais de 200 ONGs de todo o mundo, que convoca as instituições financeiras a aceitar seis compromissos e a adotar as medidas apresentadas para implementá-los. São eles sustentabilidade dos mercados e governança, não provocar dano, responsabilidade, prestação de contas, sustentabilidade e transparência.

 

Quase todos os grandes bancos brasileiros são signatários dos Princípios do Equador. Definido em 2002, suas regras exigem cuidados especiais do ponto de vista socioambiental em projetos com empréstimos superiores a US$ 50 milhões (em 2006, o valor foi reduzido para US$ 10 milhões). Os diretores destes bancos gostam muito de lembrar estes princípios, para passar a imagem de ambientalmente corretos. No entanto, raramente citam que essas regras estão limitadas aos chamados “project finance”, destinados a grandes obras, como hidrelétricas, cujos empréstimos só começam a ser pagos quando o empreendimento entra em operação.

 

O total destinado aos “project finance”  não chega perto de 5% do total emprestado pelo sistema financeiro mundial. Os outros 95% vão ao sabor do vento. Não existe qualquer controle para saber se o dinheiro que sai dos bancos será usado para desmatar ou queimar reservas florestais, poluir rios, destruir manguezais ou promover o trabalho escravo.

 

Para citar apenas um exemplo próximo, em julho deste ano o Ministério do Trabalho libertou mais de 1.100 trabalhadores escravizados pela Pagrisa, uma usina de cana do Pará. A empresa produzia 50 milhões de litros de álcool por ano e tinha como sua maior cliente a Petrobras. Entre seus financiadores, HSBC, Bradesco e Banco do Brasil.

 

É muito bonita a propaganda do Bradesco, que está passando na televisão, sobre o “banco do planeta”. Tem bela trilha sonora, criança fofinha, golfinho, igarapé e planeta visto do espaço. Mas o projeto parece não ir muito, além disso. Pelo menos o banco não se preocupa em informar as ações práticas do “banco do planeta”. No sítio do Bradesco na internet, encontrei, além do vídeo de 30 segundos, um discurso vazio sobre ações pontuais e alguns princípios de conduta cheios de generalidades e imprecisões, sem fatos concretos.

 

É também muito bom saber que o Banco Real economiza papel e eletricidade nas suas agências e departamentos. Mais, afirma ter inaugurado uma agência em São Paulo considerada a primeira construção sustentável da América do Sul, certificada conforme os critérios da organização norte-americana Leadership in Energy and Environmental Design. Tudo isso é importante, mas a forma como os bancos podem realmente ajudar é modificando profundamente os critérios de concessão de crédito, coisa que ainda está longe de acontecer.

 

Fico contente ao perceber que os bancos estão preocupados com sua reputação e que estão investindo em campanhas milionárias de marketing para construírem uma imagem de ambientalmente corretos. Melhor que outros, como o Grupo Santander, que nem mesmo os Princípios do Equador assinou. Bancos como o Bradesco e o Real podem não perceber, mas estão enroscando-se lentamente numa teia de compromissos ambientais, da qual terão dificuldade para desvencilhar-se.

 

Gustavo Pimentel, gerente do Eco-Finanças, projeto da ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, foi muito feliz ao cunhar o termo “passivos reputacionais” para designar esta teia. Os bancos têm assumido compromissos importantes, mas muitas vezes, acredito eu, sem refletir sobre as reais conseqüências. As cobranças para que suas ações no futuro realmente reflitam toda essa boa vontade com a Natureza virão, e virão com força.

 

 

Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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