Livro não se empresta...

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“Nem se devolve”, completava um amigo nosso, useiro e vezeiro em guardar eternamente os livros que lhe emprestávamos. “Livro não tem dono, por isso eu tomo!”, repetia ele, risada diabólica, olhos argutos, dedos compridos. E ficávamos com receio de deixá-lo entrar em nossas modestas bibliotecas.

 

A dele não era modesta. Tinha livros por toda a casa. Em cima da geladeira, dentro dos armários e gavetas, na mesa da cozinha, no banheiro, debaixo da cama, porque todas as estantes já estavam ocupadíssimas, e as estantes cobriam todas as paredes, na sala, no quarto, no corredor.

 

Esse amigo era o terror das livrarias e sebos. Sem que se soubesse como, furtava os livros e desaparecia com eles, e a essas livrarias e sebos retornava como se nada tivesse acontecido. Nunca ninguém conseguiu flagrar, filmar, fotografar, mas todos sabíamos que era ele.

 

Não empregávamos a palavra “ladrão” para qualificá-lo. Seria ele talvez um pobre monocleptomaníaco — sua idéia fixa eram os livros, sobre os mais variados temas, nos mais inusitados idiomas.

 

Esse amigo não pretendia casar-se. Não tinha espaço para dividir. Nem na casa nem no coração. Chegara a ficar noivo de uma livreira... mas a moça percebeu que o interesse dele não era por seus belos olhos e sim por seus belos livros.

 

Feira de livro é com ele mesmo. Horas e horas por entre os estandes, livros misteriosamente escondidos dentro de seu casaco — ninguém se dá conta.

 

Nós sabíamos. Deveríamos ter denunciado o nosso amigo à polícia? Deveríamos ter obrigado nosso amigo (ele se sentia muito mais amigo dos livros do que nosso...) a consultar um psiquiatra?

 

Ladrão incomum, não pensava em dinheiro, não revendia os livros. Passava as noites lendo romances e tratados científicos, pensamentos poéticos e versos filosóficos. Não lia para ministrar aulas e palestras. Lia para satisfazer sua vontade de ler, estranha conduta...

 

Lia para experimentar a dor e o prazer, a saudade, o entusiasmo. Não era só monocleptomaníaco, mas também bibliomaníaco irrecuperável. Sua obsessão: ver, cheirar, tocar os livros. Ao dormir, cobria-se com enciclopédias. E como travesseiro, um dicionário, que lhe parecia macio, recheado de lã e nuvens.

 

Vãs foram nossas tentativas de reeducá-lo. Chegamos a levar nosso amigo a um padre, que talvez pudesse exorcizá-lo daquele demônio. Mas o padre o expulsou da paróquia quando viu que ele queria roubar a sua bíblia.

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.
Web Site: www.perisse.com.br

 

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