Sobre o sentido histórico perverso e melancólico de ataques como a PEC241

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Os processos de ataques aos direitos da classe trabalhadora em uma economia de feição colonial e organizada por uma política truculenta e mesquinha tem uma carga de perversidade que se imiscui na carne e no espírito das pessoas.

 

Da autonomia ao puxa-saquismo ou a autonomia como puxa-saquismo: as estratégias dominantes de sobrevivência político-econômica vão transformando a vida social em uma grande gincana de servilismo. Do direito social à filantropia: a decisão de se as pessoas (pobres) terão educação e saúde vai passando à precariedade institucionalizada, ficando a cargo do funcionamento de estruturas de “ajuda”, organizadas por particulares para construírem socialmente uma imagem de si “mais humana”, em que, através de ações, em geral, pontuais, erráticas, acríticas e desarticuladas, deixam uma legião de pobres lhes devendo favores pelo “direito privatizado” ao estudo ou por terem um atendimento elementar de saúde. Da dignidade à compaixão. Vemos bilionários, copartícipes da pilhagem de recursos públicos, agindo através de fundações para “resolver” os problemas da falta de serviços públicos adequados. Uma espécie de solidariedade oportunista e imoral, mas que, em uma lógica profunda de cinismo, vai tomando conta do corpo social e elegendo milionários para cargos públicos.

 

Passam-se leis “legais” que representam retrocessos político-sociais grandes, mas há as leis “extralegais” que não pararam de funcionar um só momento, apesar de deixarem de ser questionadas e passarem até a louvadas (como emblemático, lembro do “instinto animal dos empresários” reivindicado por Dilma em 2012) por forças e governos ditos progressistas.

 

E não é de surpreender ouvirmos discursos do Lula, que alguns consideram a principal liderança “de esquerda”, “a nossa (única) alternativa”, se orgulhando dos lucros extraordinários obtidos por empresários em governos petistas. Seu posicionamento em relação à especulação financeira é claro: “Banco tem que crescer”.

 

Através de posições como essas, que por trás da retórica da “consequência” e da “política do possível”, mascaram a preferência pelos privilégios de bancos, empreiteiras e latifundiários, foram bloqueados movimentos mais profundos de crítica social. Pois, afinal, o lucro e o crescimento econômico na periferia do capitalismo deixaram de depender de uma lógica de espoliação durante os governos petistas? E junto ao necessário “Fora Temer” não devemos refletir se as medidas vergonhosas e desastrosas de “ajuste” começaram somente no governo peemedebista?

 

A desmoralização da organização portadora de uma estratégia política que previa reformas progressivas e progressistas (através do abandono “tático” da reivindicação de reformas estruturais e de alianças com “setores mais progressistas” das classes dominantes), o programa democrático popular, levou da esperança à frustração não só uma geração de militantes sociais. Os representantes “puro sangue” das classes dominantes (os herdeiros de uma tradição política mais afeita a senhores de escravos do que a pelegos sindicais) têm agora a seu dispor toda uma atmosfera social de melancolia entre potenciais lutadores do povo.

 

Muitos dos que poderiam estar se engajando em um projeto de transformação estrutural da sociedade brasileira estão perdidos, em um misto de confusão, sentimento de derrota, descrença e de “instinto de sobrevivência” individual que só não é estritamente liberal pela alta carga de angústia e ressentimento que carrega.

 

Esse clima ideológico de derrota pode levar à perpetuação de um clima de melancolia em que a perda do objeto de desejo, em nosso caso, da perda de uma “perspectiva-convicção” de transformação radical da sociedade, é preenchida por novas esperanças, agora em ideais nostálgicos e inconsistentes de que há alguns anos com o PT tudo era completamente diferente ou de que é possível recompor uma política de conciliação de classes no Brasil. Leituras e apontamentos como esses impedem que elaboremos uma adequada relação entre as continuidades políticas e os arranjos de forças criados na história recente do país.

 

É, aparentemente, difícil de entender como muitos intelectuais fazem suas críticas às medidas do governo Temer desresponsabilizando o PT das medidas que vêm tomando seus aliados históricos (e até de alguma forma recentes, se tomarmos as alianças eleitorais do PT com os golpistas ou o apoio do partido à eleição de Rodrigo Maia à presidência da Câmara), algumas delas, inclusive, formuladas sob as batutas petistas. Mas algumas questões difíceis de entender são justamente as cruciais na luta política.

 

Não haverá vida fácil pra ninguém

 

Será difícil convencer a população de que os problemas sociais poderão ser equacionados pela filantropia de primeiras-damas ou de fundações de multimilionários, ainda que a Globo e os monopólios midiáticos recebam muito e aperfeiçoem seus mecanismos de persuasão para isso. Com a restrição dos já escassos direitos sociais, os problemas sociais serão profundamente agravados.

 

Será difícil para os governos arranjarem mecanismos de arrocho das condições de vida da população para a garantia dos lucros dos monopólios econômicos, pois, afinal, vivemos sob uma lógica econômica fundamentalmente insustentável tanto do ponto de vista da saúde humana e da utilização dos recursos naturais quanto em relação à própria capacidade do Mercado (esse semideus!) em fomentar o uso das forças produtivas ao invés da especulação como forma predominante de geração de valor. Ou seja, o horizonte é de crises gerando mais crises.

 

Será difícil também para as forças sociais pelegas convencerem da necessidade de um novo pacto social com os herdeiros do escravismo (agora defensores explícitos da política neocolonial “para chegarmos ao desenvolvimento”, como nos promete “A ponte para o futuro” do PMDB). Em um contexto de capitalismo mundial degradado e degradante, são suspeitas as tentativas de criação de base política para novos ciclos econômicos “inclusivos”.

 

É preciso, com coragem, aprofundar os debates e as lutas que tensionem as saídas políticas hegemônicas.

 

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Potiguara Lima é militante da educação pública e filiado ao PSOL.

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