Ordem e progresso: em 13 versos a fala de um presidente sem culpa?

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“Estavam-me aclamando a pompa nova;

Agora eu era Alguém. Quis pô-lo à prova,

E, sem mais, na hora achei cavalheiresco

Fazer à barba branca o dom do ar fresco”

(GOETHE, Fausto II, 10.615, uma tragédia)

I

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

Governar não é fácil

Que culpa tenho eu de ser o presidente?...

 

II

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

Eu me culpo por nunca querer ser governo

Mesmo mandando sempre

Em qualquer governo

Feliz e contente às vezes fico desconcertado

Mas não me sinto culpado

O que posso fazer

Se agora sou o presidente?...

 

III

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

Já não sei mais o que é de antes ou de agora

Certo ou errado meu ou deles

Só sei que a culpa não é minha

E o povo será sacrificado

Dizem que a culpa é da culpa

Nunca minha

Assim ouço dizer

Culpado não posso ser

Sou só um presidente?...

 

IV

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

Desemprego inflação recessão

Convidei os banqueiros para governar

Sem culpa de transformar a nação

No caixa do sistema financeiro

Eles cuidam do dinheiro público

E eu feliz não me sinto culpado

Durmo bem e fico humorado

Afinal o presidente também pode dormir

Se culpa não tenho posso ser culpado?...

 

V

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

Já fui aliado presidente de partido

Muitos ministérios formei

Mais de sete em um governo mandei

Agora quero todos no meu jantar

Planejar sem culpa o cardápio

E com apoio de ilustres aliados

Oferecer ao povo suor sangue e lágrimas

Seguindo o conselho de um ilustre ex-presidente

O que pode fazer de mim um presidente

Honrado e sem culpa de ser lembrado

Que culpa tenho eu de ser tão dedicado à nação?...

 

VI

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

Meu governo que culpa tem

De ser bem governado

Tem banqueiro mandando

Bem preparado no ministério da fazenda

Na caixa econômica no banco do brasil

No banco central no tesouro nacional

No ministério do planejamento e orçamento

No ministério da previdência

Que culpa tenho eu de nomear tanta

Gente competente que gosta de trabalhar

E cuidar do dinheiro do povo

Que culpa tenho eu de honrados

Cidadãos cuidar do cofre do povo?...

 

VII

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

Que culpa tenho eu se o mundo

É redondo e a economia gira

Os banqueiros mandam

A economia gira como uma roleta

Gira tanto que no povo atira?...

 

VIII

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

Agora alguns não querem controlar

Os gastos dizem que eu ataco o povo

Meus ministros são fiéis e trabalham duro

Vão cortar mordomias salários

Remédios escolas hospitais

Previdência assistência social

Direitos sociais e trabalhistas

Vamos sem culpa virar uma nação de poucos

O que eu posso fazer se o mundo é cruel

E meus assessores garantem

Ninguém vai passar necessidades

Se não forem divulgadas em notícias

Que culpa tenho eu de querer

Uma nova nação para poucos

Quando para muitos sobram só migalhas?...

 

IX

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

Pagamos volumosa dívida pública

Ilegítimos muitos bilhões

Muitos outros bilhões sonegados

Livremente pelos donos do capital

Ao povo sobra suor sangue e lágrimas

Único vão de um sistema ilegítimo e corrupto

As vezes não posso ver tudo...

Alegram-se outros tantos sem lágrimas:

O fundo monetário internacional

O banco mundial

A organização mundial do comércio

A organização das nações unidas

Me elogiam toda hora

Me sinto muito bem nas alturas...

Que culpa tenho eu de estar

Fazendo tudo o que eles querem?...

 

X

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

Se o povo padece em massa

O governante pode isentar

Sua ação sem sentir culpa

Por estar fazendo tudo

O que os poucos querem

Para aumentar seus ganhos

Que culpa tenho eu se eles ganham muito?...

 

XI

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

A justiça não deveria ser

O bastão do governante

E a culpa ser todo o ato que maltrata

Seu povo

Que culpa tenho eu

De não haver justiça para todos?...

 

XII

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

O testemunho de um povo

É verdadeiro para o governante

Se a miséria e a violência devoram o povo

E são o verdadeiro lema da ordem e do progresso

Se o governante finge que não é o chefe

Da lei da força da violência que só o estado pode ter

Que culpa tenho eu de ser tão poderoso?...

 

XIII

 

A mais nova forma de governar

Ordem e progresso na frente

O povo atrás descontente

Fala de presidente:

Quem rejeita as dores sociais do povo

Como governante e chefe da nação

Pode viver sem sentir alguma culpa

Que culpa tenho eu por não sentir culpa

De ser presidente a culpa não é minha

Que culpa posso ter como presidente

Viu senhores não foi por causa dessa

Tal de culpa que às vezes na história

Cassam algum presidente

Preciso continuar insistindo

Que não sou culpado de nada

De tanto repetir certas coisas

O povo pode acreditar em mim?...

 

Leia também:


Um sonho ficcional sobre jurisprudência: os petrodólares e o roubo das “galinhas”


Brasil em 13 versos: o testamento

 

Roberto Antonio Deitos é poeta e professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná – UNIOESTE.

 

 

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