Por que Dória ganhou? Por que ganhou desse jeito?

 

 

 

 

1) É um sintoma do desgaste da política convencional. Único candidato que não é associado à política profissional, o tucano superou três ex-prefeitos, inclusive o atual, além de um político ordinário também forjado nos meios de comunicação, cujo conservadorismo assustava a muitos antes do pleito. A altíssima abstenção (que superou 20% do eleitorado) somada aos votos nulos e em branco, superou a votação do eleito - indício eloquente da apatia e do descrédito dos candidatos. Parece que o paulistano finalmente jogou a toalha, desiludido com a conversão do PT em partido da ordem.

 

2) Personificando o self-made man, Dória encarna o mito liberal de saídas individuais para os problemas sociais. Não é uma ideia nova nem original: Antonio Ermírio apostou nela nos anos 1980, e Trump também. A novidade é a sua força. Por um lado, deriva do próprio descrédito da política (Ermírio, que era um empresário de verdade, perdeu para Quércia, um político de verdade).

 

Mas também resulta do estreitamento da política praticado pelo PT. Em lugar de fomentar saídas de classe para os problemas brasileiros, o partido cultivou variantes desta mesma ideologia liberal na presidência: políticas focalizadas, conciliação de classes e inclusão pelo consumo.

 

Ainda mais: ao dobrar-se à camisa de força imposta pelas finanças à gestão do Estado, o PT corroborou a visão encarnada por Dória, de gestão da coisa pública como uma empresa privada. Segundo este raciocínio, faz sentido eleger um rico empresário. A lógica capitalista em que a riqueza é um fim, associada ao mérito, coloniza a economia e também a política.

 

3. Por baixo do glamour do comunicador polido e obcecado com a própria imagem, mal se disfarçam os traços autoritários, cultivados com esmero por este ardiloso marqueteiro.

 

A eleição de Dória é sintoma preocupante da simpatia popular por medidas duras e práticas repressivas para lidar com a crise. Sem dúvida, o desinteresse do PT em canalizar construtivamente a expectativa de mudança, expressa pela última vez em junho de 2013, alimentou esta inversão da maré.

 

Portanto, a despeito do esforço de Haddad em insular o pleito das pautas nacionais, isso foi impossível. A votação tucana revela a força da ideologia de que o PT (a esquerda) é responsável pela crise - uma crise que, na realidade, é muito maior que o partido. E inclusive, o engole. Esta ideologia, que oculta as continuidades entre os governos sintetizada na figura de Henrique Meirelles, legitima caminhos pela direita para atravessar a crise. Ao mesmo tempo, joga água no moinho das viúvas do PT, e interdita todo debate pela esquerda.

 

Dória não é uma aventura, como ensaiou Sílvio Santos, nem um acidente, como foi Collor de Melo. É um projeto. Sob a fachada do seu programa de TV, costurou pacientemente relações com o capital, o tucanato e o entretenimento. A bancarrota do PT só lhe deu um empurrão, tornando seus protagonistas mais vorazes. E o seu alcance, mais perigoso.

 

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Fabio Luis Barbosa dos Santos é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo.

 

 

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