topleft
topright
ISSN 1983-697X

Boletim Diário

Email:
Para assinar o boletim de
notícias preencha o
formulário abaixo:
Nome:

Brasil nas Ruas

Confira os artigos sobre manifestações e movimentos sociais no Brasil.

Arquivo - Artigos

Áudios

Correio da Cidadania, rádio Central 3 e Revista Vaidapé fazem “debate autônomo” sobre as eleições  

Leia mais...
Image

Plinio de Arruda

MEMÓRIA

Confira os textos em homenagem a Plinio


Leia Mais

Plinio em Imagens



Confira a vida de Plínio


Charge


Imagem




Artigos por data

 Nov   December 2016   Jan
SMTWTFS
   1  2  3
  4  5  6  7  8  910
11121314151617
18192021222324
25262728293031
Julianna Willis Technology

Links RSS

Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania Correio da Cidadania

Áudios - Arquivo

AumentarDiminuirVoltar ao original
Pensando a longo prazo – Realidade e ideologia Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Sexta, 07 de Outubro de 2016
Recomendar

 

 

 

Elaborar uma “teoria crítica” sobre a realidade brasileira não tem sido tarefa fácil. Primeiro porque, embora às vezes alguns dos problemas da realidade saltem aos olhos, nem sempre tal realidade “é visível a olho nu”, como diz acertadamente Jessé Souza em A Tolice... Uma das dificuldades, como ele sugere, consiste em que existem “ideias dominantes, compartilhadas e repetidas por quase todos”, que procuram fazer com que “o privilégio (seja) legitimado..., aceito mesmo por aqueles que foram excluídos de todos os privilégios”.

 

Jessé conclui, acertadamente, que “a ‘crítica das ideias’ dominantes é a primeira trincheira de luta contra os ‘interesses dominantes’ que se perpetuam por se travestirem de supostos interesses de todos”. Porém, ao mesmo tempo, ele acredita que a “grande maioria das versões apologéticas do ‘sujeito liberal’ nutre-se com fundamento empírico na história da pujança econômica e política norte-americana, em maior ou menor grau, na figura do protestante weberiano”.

 

Ainda segundo Jessé, com base nessa “versão” importada, a grande maioria dos autores contemporâneos “pretende demonstrar que existe uma hierarquia ‘meritocrática’ entre os países e entre as classes que hoje monopolizam todos os privilégios”. “Essas teorias” seriam “utilizadas para mostrar que a corrupção no centro é sempre tópica e passageira, e só na periferia ela é sistêmica e societária...”

 

Assim, um dos problemas de Jessé continua consistindo em não considerar que a “crítica das ideias” faz parte da ideologia e da disputa ideológica no contexto da luta, que se trava materialmente na base da sociedade, em torno dos diversos problemas que a dominação privada capitalista impõe às demais classes existentes na sociedade.

 

Ele resiste em aceitar que a ideologia e a luta ideológica resultam da divisão real, material, de cada sociedade em classes sociais. Isto é, classes divididas a partir da divisão da propriedade privada dos meios de produção, que cooperam entre si através de relações de concorrência e/ou subordinação, e conflitam entre si, seja na concorrência, seja para reduzir ou superar a subordinação, através de inúmeras formas objetivas e subjetivas.

 

Portanto, a existência de idênticas relações de classe em diferentes sociedades pode fazer com que inúmeros aspectos das ideologias presentes numa sociedade pareçam “importadas”. Por exemplo, é comum na história brasileira dizer que, no passado escravista, surgiram “liberais” influenciados pelo liberalismo inglês, como Nabuco e outros. No entanto, é preciso não esquecer que, a essa altura da história brasileira, já haviam surgido relações de assalariamento no colonato da agricultura cafeeira e em vários outros setores. E que, com a imigração europeia, pelo menos no sul do país se implantara uma economia agrícola não latifundiária. Ou seja, já havia um fundamento empírico local no qual o liberalismo burguês podia fincar raízes, mesmo tortas e distorcidas pela ideologia escravocrata.

 

Na divisão social do capitalismo, as relações básicas confrontam burgueses e trabalhadores assalariados. E as relações secundárias confrontam burgueses contra burgueses (financeiros, industriais, agrários, comerciais, de serviços; muito grandes, grandes, médios e pequenos); trabalhadores contra trabalhadores (pelas vagas do trabalho assalariado, por profissões mais rentáveis, por postos de mando, por pretender transformar-se em burgueses).

 

Além disso, classes intermediárias, remanescentes ou não de formações sociais anteriores, como latifundiários de velho tipo, camponeses familiares (independentes e/ou agregados), artesãos, autônomos, lutam tanto entre si, quanto contra a burguesia (como um todo, ou contra suas frações financeiras, industriais, agrárias, comerciais e de serviços), e/ou contra os trabalhadores assalariados.

 

Tais condições de existência, nas quais a burguesia é a classe “dominante”, mesmo com a presença de “restos”, ou “remanescentes”, geram as formas ideológicas burguesas: direito inalienável da propriedade privada, confundindo propriedade privada dos meios de produção com propriedade privada dos meios de consumo; liberdade de troca (compra e venda) no mercado; “igualdade” no direito de pensamento e expressão; “fraternidade” na superação das divergências; superação das dificuldades através do esforço e da dedicação; meritocracia; direito de “liquidar” seus concorrentes; juros altos como instrumento de controle da inflação...

 

A lista é enorme, não se tratando apenas de “propaganda enganosa”. São as formas como a própria burguesia pensa a sua realidade. E como ela procura, como diz Jessé, que sejam “aceitas” pelas demais classes como se fossem suas. Isto é, sendo classe economicamente dominante, a burguesia também opera para fazer com que suas ideias, seus valores, sua ideologia, sejam também dominantes.

 

Por outro lado, para fazer a crítica a tal ideologia, é necessário que as classes opostas à burguesia tenham, latentes ou fragmentários, os pensamentos que questionem a subordinação humana e a falsidade das promessas de liberdade, igualdade, fraternidade, mérito etc. Se a realidade em que vivem tais classes subordinadas não apresentassem, objetivamente, contradições ao vivo com as ideias dominantes, a luta ideológica, ou a “crítica das ideias” não passaria de um sonho utópico.

 

No entanto, tais contradições entre as classes e entre seus pensamentos diferem em graus variados, seja pela força da ideologia dominante, seja pela força das contradições reais. Nestas condições, sempre estão presentes na sociedade diversas ideologias, conformando um mosaico ou um conglomerado contraditório. Basta ver as diversas teorias que buscam justificar, explicar, combater e/ou superar as brutais desigualdades sociais existentes no Brasil.

 

Ou seja, os pensadores das diversas classes sociais elaboram, ou reelaboram, ideologias que procuram expressar a realidade de cada classe realmente existente.

 

Em outras palavras, não é possível supor uma “crítica das ideias”, ou a luta ideológica, dissociada das lutas de classes, tanto as de caráter econômico (salários, custo de vida, condições de trabalho, prevenção de acidentes etc.), e de caráter social (educação, saúde, moradia, saneamento, transportes, lazer etc.), quanto as de caráter político (direito de voto, participação nas decisões econômicas, sociais e políticas governamentais, democratização do direito de expressão e difusão das informações etc. etc. etc.).

 

Se a luta das ideias, a luta ideológica, não tiver por base uma luta de classes real e ativa, ela será sempre uma “crítica sectária”, uma “crítica de iniciados”. Isto diz respeito, também, às relações entre as nações, em especial entre as nações capitalistas avançadas e as nações capitalistas atrasadas. Nesse sentido, reduzir as teorias que apresentam diferenças entre as nações àquelas que pretendem “demonstrar... uma hierarquia ‘meritocrática’ entre os países...” e que “são utilizadas para mostrar que a corrupção no centro é sempre tópica e passageira, e só na periferia ela é sistêmica e societária...” empobrece o debate e o desvia dos problemas centrais.

 

É lógico que Jessé tem razão em denunciar a corrupção como um sistema “organizado”, onde quer que o capitalismo esteja presente. No entanto, paralelamente a isso, a realidade da diferença entre os países capitalistas avançados e o Brasil tem que ser analisada como algo real mais grave. Já vimos que “nossa” indústria está muito menos desenvolvida do que a indústria dos capitalismos avançados. Além disso, a maior parte da indústria presente no território brasileiro não é “nossa”: é propriedade de corporações estrangeiras. O mesmo acontece com grande parte do comércio e dos serviços. E o agronegócio está atrelado às grandes corporações de insumos agrícolas e de comércio internacional.

 

Pior do que isso: a burguesia brasileira, em sua maior parte, é caudatária de burguesias dos países capitalistas avançados. Basta ver como essa burguesia cabocla continua querendo subjugar-se ainda mais àquelas, apesar da crise norte-americana e europeia, que oferece poucas chances a essas potências para contribuir no desenvolvimento brasileiro real.

 

Portanto, no enfrentamento ideológico, e também político e econômico das diferenças do Brasil com os países capitalistas avançados, é mais importante dar atenção às formas concretas através das quais elas nos subordinam a seus interesses geoeconômicos e geopolíticos do que à propaganda sobre qualquer pretensa “hierarquia meritocrática”.

 

 

Leia também:


Pensando a longo prazo – Capital em crise, aporias marxistas

 

Pensando a longo prazo – Convicções e Blitzkriegs

 

Pensando a longo prazo – Marx: demonstração histórica

 

Pensando a longo prazo – um parêntese

 

Pensando a longo prazo – Marx e sua economia política

 

Pensando a longo prazo – Desenvolvimento capitalista

 

Pensando a longo prazo – Ciência e Weber

 

Pensando a longo prazo – ainda sobre a ciência

 

Pensando a longo prazo – Sobre a ciência

 

Pensando a longo prazo – VI

 

Pensando a longo prazo – V

 

Pensando a longo prazo – IV

 

Pensando a longo prazo – III

 

Pensando a longo prazo – II

 

Pensando a longo prazo

 

 

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

 

Recomendar
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.


Vídeos

Índios Munduruku: Tecendo a Resistência

Imagem

Documentário sobre as resistências indígenas às hidrelétricas do Tapajós
Leia mais...

A Ordem na Mídia

Eugênio Bucci: “precisamos de um marco regulatório democrático na comunicação”


Há uma falência nos modelos de negócios refletida nas relações trabalhistas, na concentração de propriedade, formação de monopólios e oligopólios e no aparelhamento por parte de igrejas e partidos. Entrevistamos Eugênio Bucci, jornalista e professor da ECA-USP, que afirmou a necessidade de um marco regulatório democrático para fortalecer a democracia no Brasil.
Leia mais...


Brasil_de_fato
Adital
Image
Image
Banner_observatorio
Image
Image
Image
Image
Image
Image
Image
Image

Diario Liberdade

Espaço Cult

Image
Image
Revista Forum
Joomla Templates by JoomlaShack Joomla Templates