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A Batalha de Gênova (5): Escola Diaz, a repressão a frio Imprimir E-mail
Escrito por Gregorio Maestri   
Sexta, 30 de Setembro de 2016
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O Correio da Cidadania republica uma série análises de Gregório Maestri sobre a violenta repressão da polícia italiana aos protestos antiglobalização em Gênova (Itália), no encontro do G-8 realizado na cidade há 15 anos – entre 19 e 22 de julho de 2001 (e publicado à época dos acontecimentos). O autor elaborou suas análises, à época, a partir de uma incursão na história do país.

 

Sábado, 21 de julho de 2001. A morte do jovem manifestante e as violências policiais provocam forte reação popular. Aos milhares, chegam a Gênova operários, funcionários, donas de casas. Gente comum, com filhos e cachorros. Desfilam coesas as já ralas filas de combatentes antifascistas dizimadas pelos anos. Duzentas mil pessoas manifestam em memória de Carlo Giuliani, contra as violências, a polícia, o governo, em defesa dos direitos democráticos.

 

Nesse momento, as terríveis imagens do assassinato do jovem genovês e da violência policial rodam o mundo. Com o desaparecimento da polícia, a cidade volta à ordem. Nesse sábado ensolarado, milhares de estrangeiros aprenderam a gritar em italiano as principais consignas da demonstração: "Assassini!", "Vergogna!", "Cile!", "Pinochet!" (Assassinos! Vergonha! Chile! Pinochet!”).

 

Logo tem início a dança macabra da polícia e dos Blocos Negros. E, mais uma vez, Gênova conhece o inferno do dia anterior. As cenas repetem-se monótonas, com redobrada violência. Ataques de colunas policiais. Jatos d´água. Bombas de gás. Mãos levantadas. Resistência. Prisões. Feridos. Medo. Muito medo.

 

Finalmente, após dez horas de luta urbana, a paz volta. Apesar da violência policial, a noite cai sobre uma cidade eletrizada pela magnitude da manifestação popular. 19 horas. Tudo tranquilo. Muitos manifestantes deixam a cidade. Outros, preparam-se para partir no dia seguinte.

 

Refúgio seguro


Manifestantes dormem nas escolas Diaz e Pertini, cedidas pelo poder público para sediarem a administração central do GSF. A Escola Diaz vive um pouco do espírito de festa. Violão. Canções. Conversas entre amigos, camaradas, namorados. Enviam-se os últimos e-mails para pais, parentes, amigos.

 

A Escola Pertini, ao lado, funciona como centro de imprensa, estúdio de gravação das rádios de esquerda, centro de operadores de internet etc. É a principal sede da assistência jurídica do GSF. Os que não dormem redigem a lista dos "desaparecidos", gravam programas de rádios, introduzem nos computadores informação sobre as violências policiais e suas ligações com os Blocos Negros.

 

As escolas são espaços oficiais reconhecidos. Estão, portanto, ao abrigo das violências policiais. Quanto muito, policiais vigiam os arredores e alguns manifestantes são interpelados e presos ao acaso. Em situação suspeita, dois jovens alemães são detidos. Esperavam por pizza fora de um restaurante.

 

23 horas. Escolas Diaz e Pertini. Os manifestantes já dormem, cansados pela atribulada marcha. Alguns poucos retardatários trabalham. Preocupados pela crescente presença da polícia nos arredores, raros notívagos abrigam-se na Escola Pertini.

 

Na calada da noite


Escuta-se fortíssimo ruído na próxima via Battisti. São as tropas de elite do grupo Celere, de Roma, que avançam a trote cadenciado, quebram a porta de madeira, penetram na escola Diaz. A surpresa é total. Nenhum telefonema informara a incursão. Não se apresenta o mandado de invasão do prédio.

 

Começa o drama. Manifestantes são golpeados nos sacos de dormir, deitados, tontos de sono, incapazes de se protegerem. Os que se levantam são derrubados, chutados, até sangrarem. Tomados pelo ódio, os policiais batem nas cabeças, verticalmente. As grandes janelas permitem que a violência inusitada seja vista da Escola Pertini, ao lado.

 

Avisada, a imprensa chega. A pancadaria prossegue. Os fatos são transmitidos, ao vivo, pelas rádios populares presentes. Agora, os policiais tentam entrar na Escola Pertini, onde portas e janelas são fragilmente barricadas com móveis escolares. Aterrorizados, os manifestantes, jornalistas e radialistas refugiam-se nas salas de gravação. Esperam, inermes, serem massacrados.

 

Aos borbotões, os policiais penetram com suas máscaras, escudos e armaduras. Muitos manifestantes gritam e choram aterrorizados, de braços levantados. Os policiais param, recuam, confusos. Compreendem que estão para massacrar manifestantes desarmados em estúdios radiofônicos que transmitem, ao vivo, para a rádio nacional.

 

Na pátria de Dante


A Escola Pertini está salva, sobretudo porque chegam deputados e senadores, principalmente do Partido Refundação Comunista que, ao exigirem que se mostre o mandado de invasão, descobrem, estarrecidos, que não havia ordem judicial.

 

Jornalistas e parlamentares que reivindicam o direito de ingressar no prédio são lançados contra os muros da escola, como criminosos. Gritos de dor e pedidos de socorro ainda são ouvidos através das amplas janelas. Até o fim do massacre, ninguém entra na Escola Diaz.

 

A seguir, durante quase uma hora, mais de 140 feridos são transportados, em macas, por um grande número de ambulâncias, à disposição da polícia. Ninguém é informado para onde são levados. Ninguém compreende a razão da invasão. Muitos saem com a mãos alçadas, ao igual dos tempos da ocupação.

 

Parlamentares, advogados, jornalistas e médicos penetraram na escola vazia. A cena é macabra. Nos muros, no chão, no próprio teto, marcas de abundante sangue fresco. Aqui e ali, pedaços de tecido adiposo, de dentes, de orelhas! Embebidos em mar de sangue, os pertences dos jovens manifestantes – roupas, mochilas, cobertores, colchões, travesseiros, livros, escovas de dentes...

 

Queima de arquivo


As razões do assalto são óbvias: no chão, destruídos, pisoteados e despedaçados; fotos, vídeos, disquetes, arquivos. Os computadores do GSF foram literalmente esmigalhados, enquanto os da Escola permanecem intactos. Três discos rígidos com prova contra a polícia foram sequestrados.

 

Compreende-se que a operação fora planejada por agentes policiais infiltrados para destruir provas da violência policial. Uma ação absolutamente anticonstitucional. Gravações revelarão que as ordens de comando eram de "massacrar os manifestantes".

 

O governo justifica a ação pateticamente. Ela pretendia prender militantes negros (dos blocos negros) que, em total dissensão com o GSF, jamais se aproximaram dos prédios. Não sendo possível apresentar um que fosse, apresentam-se as ‘armas’ sequestradas na Escola: facas de cortar frutas; acessórios de jardinagem da escola; simpáticos canivetes universais suíços, com as lâminas abertas, na tentativa de causar alguma impressão.

 

Manifestantes feridos são levados para delegacias, onde permanecem de pé ou em posições incômodas, por mais de vinte horas. Agoniados com jatos de spray, vomitam sobre os companheiros. Tortura-se literalmente. Policiais excitados apagam cigarros nos braços e nas costas de detidos. Acionada, a Justiça determina a nulidade das prisões e a restituição dos discos rígidos sequestrados.

 

Tão forte é a impressão causada pela violação da Escola Diaz que, no dia seguinte, o primeiro-ministro, o ministro do Interior, os chefes da polícia e dos serviços especiais juram terem sabido do ocorrido apenas pela manhã, apesar das rádios e televisões terem noticiado os acontecimentos ao vivo, durante e após os ocorridos. A covardia moral mostra-se à altura da covardia dos atos praticados.

 

Leia também:


A Batalha de Gênova (4): 20 de julho – a sexta-feira negra

 

A Batalha de Gênova (3): A antiglobalização em branco, vermelho e negro

 

A Batalha de Gênova (2): Os senhores da guerra e o povo antiglobalização

 

A Batalha de Gênova (1): uma cidade-símbolo da globalização

 

 

 

 

Gregório Maestri, arquiteto, é belga, italiano e brasileiro.

Leia a publicação original em nossa edição 262.

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