As Teses de Abril e o Brasil atual

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As obras e ações de Lênin não devem, obviamente, ser transplantadas mecanicamente para qualquer realidade. Mas devido à grandiosidade das tarefas que o líder russo assumiu às vésperas da Revolução de Outubro, o posicionamento de Lênin, de 1917, pode ser resgatado para pensarmos o atual momento no Brasil e no mundo.

 

Grande parte das esquerdas no Brasil caiu em enorme retraimento e hoje, muitos, pedem a simples manutenção dos tempos anteriores ao governo Temer. Este posicionamento é consubstanciado no lema “nenhuma direito a menos”. Ou seja, sequer são reivindicados avanços em relação ao que existia. De forma semelhante, a maioria dos analistas e militantes vê o atual momento como um retrocesso político e defendem as garantias do Estado de direito existente até os governos petistas.

 

Outros dizem que não é momento de críticas ao período petista devido à ameaça “fascista” e outros dizem que as massas ainda ligam o PT aos trabalhadores e à esquerda e combater o PT hoje seria combater a imagem que as esquerdas ainda possuem. Ainda outros chegam a dizer que as esquerdas não podem se igualar à direita, pois se a direita está contra o PT, as esquerdas não podem ter este posicionamento. Alguns vão dizer que não estamos em período revolucionário e por aí vai.

 

O problema é que a maioria das esquerdas criou uma enorme “roda viva”. Em períodos de governos “democráticos”, como os petistas, as esquerdas, dizem, devem prezar a manutenção da democracia ante os perigos que os partidos de direita representam. Assim foi no apoio ao PT por receio do PSDB assumir o governo. Mas em períodos de “endurecimento” deve se apoiar os governos petistas contra a ameaça “fascista”.

 

Ou seja, de todo modo, não se sai deste círculo e o socialismo nunca é proposta defendida, pois nunca estamos em períodos pré-revolucionários. Mas como estaríamos neste período se os próprios ditos revolucionários não fazem nada para criar este momento e ficam esperando sempre aquele que seria adequado?

 

Pois bem. Em 1917, na Rússia, os trabalhadores eclodiram diversas manifestações e greves, quase espontâneas, devido ao estado de penúria das massas. Em fevereiro, cai a monarquia czarista e assume o governo provisório composto de mencheviques e social-revolucionários. De um período turbulento, Kerensky assume para realizar um governo nos moldes da democracia burguesa liberal. Saliente-se que os sovietes já funcionavam desde antes e tinham maioria menchevique.

 

A maioria dos bolcheviques saúda a queda do czar e defende o governo provisório, mesmo dele não participando. Mas a posição majoritária era de que os bolcheviques fossem a ala à esquerda do momento político do governo provisório, apesar do descontentamento de amplas massas dos trabalhadores.

 

Em março, Lênin, ainda exilado começa a escrever contra o governo provisório e em abril retorna de seu exílio. Neste mesmo mês, Lênin entrega ao partido as “Teses de Abril”, no qual defende a saída da Rússia da guerra e a derrubada do governo provisório. Mesmo reconhecendo ser minoria naquele momento, Lênin se coloca contra o defensismo e a conciliação com o governo provisório.

 

Somente assim se chegaria ao socialismo. As teses foram publicadas no Pravda, mas nenhum outro bolchevique a assinou. Muitos estavam perplexos e acusavam Lênin de sectário, anarquista, fora da realidade etc. Lênin sabia que não estava em maioria, mas para ganhar os movimentos de massas insatisfeitos era necessário defender as posições de esquerda e não criar ilusões com governos reformistas. Esta política ousada permitiu que os bolcheviques crescessem e a posição de Lênin tornasse majoritária no partido e nas ações de massas. Em outubro, tomaram o poder.

 

E no Brasil de hoje? Como foi escrito no início deste artigo, a grande maioria das esquerdas socialistas está retraída e se conformando com os governos liberais com algum cunho social, como os governos petistas. E, agora, durante a crise, mesmo as esquerdas revolucionárias, em sua grande maioria, preferiram não partir para o embate com todos os governos capitalistas, sejam do PT, do PSDB ou do PMDB, preferindo defender o “Estado de direito” e “as conquistas” de até então.

 

Com isto, a defesa de posições avançadas de enfrentamento com as classes burguesas não aparecem no contexto e as massas continuam apáticas e tentando “ganhar a vida”.

 

Pena que não temos a ousadia de um Lênin, de 1917, nos dias de hoje!

 

 

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Antonio Julio de Menezes Neto é professor na área de sociologia da FAE/UFMG

 

 










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