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Turquia: “paquistanização” e o golpe de julho de 2016 (1) Imprimir E-mail
Escrito por Ramez Philippe Maalouf   
Terça, 27 de Setembro de 2016
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A tentativa de golpe militar na Turquia realizada em 15 de julho de 2016, o quinto se fosse bem sucedido, foi decorrente, sobretudo, entre muitos motivos, da instabilidade política do país, gerada pela ingerência do governo turco do presidente liberal-conservador pró-ocidental “islâmico” de Recep Tayyp Erdogan na Guerra da Síria (iniciada em 2011). Esta ingerência turca está relacionada com o recrutamento e o envio de grupos de extermínio, esquadrões da morte, armados e financiados pelos EUA e seus clientes e vassalos locais (Israel, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar e Turquia), a partir do território turco para a Síria, a fim de depor o governo do presidente Bashar al-Assad, do partido Ba’ath, socialista, nacionalista e laico. Sendo assim, a Turquia desempenha uma função geopolítica muito semelhante à do Paquistão na desestabilização do governo revolucionário do país vizinho, o Afeganistão, a partir do final da década de 1970 (o que acabou provocando a intervenção militar soviética em 1979, encerrada dez anos depois) até os dias atuais.

 

O Paquistão, sob a ditadura “islâmica” liberal-conservadora do general Zia ul-Haq (1977-88), patrocinada pelos EUA, serviu de base de recrutamento e de treinamento para os esquadrões da morte “islâmicos”, denominados pelo presidente ianque Ronald Reagan de “combatentes da liberdade”, que eram enviados ao Afeganistão para derrubar o governo esquerdista pró-soviético que assumiu o poder em Cabul em 1978. Este apoio paquistanês-ianque teve continuidade na década de 1990, quando o governo liberal da primeira-ministra Benazir Bhutto ajudou a instalar o grupo talibã no poder em Cabul em 1996, encerrando a guerra civil afegã iniciada em 1992, após a queda do governo revolucionário.

 

A ingerência turca na Síria sempre foi patrocinada pelos EUA, o maior interessado na deposição do governo de Assad. Ao ser eleito presidente da Síria, em junho de 2000, Bashar al-Assad promoveu uma tímida abertura política e econômica, a chamada “Primavera de Damasco”, que foi comprometida ao se recusar a integrar a coalizão militar liderada pelos EUA para invadir e destruir o Iraque em 2003. Esta invasão anglo-americana acabou exterminando mais de 1,5 milhão de iraquianos, devastando o país mesopotâmico, gerando uma “guerra civil” (“sunitas” x “xiitas”), gerenciada pelos invasores, e implantando um regime sectário liberal fantoche, em condomínio com a República Islâmica do Irã.

 

Vinganças históricas

 

Desde que sofreu uma ameaça de invasão conjunta turco-israelense, em 1997, a Síria, sob o governo de Hafez al-Assad (pai de Bashar), buscou se aproximar do Iraque, que estava submetido a um embargo genocida (no qual se proibia a compra de alimentos e de remédios), promovido pelo Ocidente, e aos bombardeios periódicos dos EUA. A aproximação entre Hafez al-Assad com o seu ex-inimigo mortal Saddam Hussein, então presidente iraquiano, fez soar o alerta em Washington D.C., especialmente nos círculos neoconservadores, que exigiam a deposição chefe de Estado iraquiano e a extinção do partido Ba’ath, do qual as alas iraquiana e síria governavam os dois países árabes.

 

O Iraque, apesar do embargo genocida, continuava sendo o único país árabe que combateu Israel que jamais havia assinado qualquer acordo com o dito “Estado judeu”. Os grupos neoconservadores ianques, ultradireitistas liberais-conservadores, defendiam uma segunda grande invasão do país mesopotâmico, até como uma forma de apagar o vexame do empate militar, com peso de derrota, da Guerra do Golfo de 1991. Eles pressionavam o governo de Bill Clinton para que deflagrasse a guerra. Ele acatou parcialmente as exigências, fazendo apenas, no verão de 1998, um bombardeio um pouco mais intenso do que aqueles realizados quase semanalmente sobre o Iraque desde 1991.

 

Por ter se negado a ir à guerra total contra o Iraque, William “Bill” Clinton sofreu um processo de impeachment e, por muito pouco, não foi deposto. Mesma sorte não teve seu correligionário candidato à sua sucessão, Al Gore, eleito presidente pelo voto popular, porém, deposto por um golpe de Estado “suave” promovido pela Suprema Corte e pelo governo da Flórida, chefiado por Jeb Bush, que impuseram George W. Bush (irmão de Jeb) na presidência dos EUA. Como é sabido, o presidente ianque nomeado, imbuído pelos poderes ditatoriais auferidos pelo Patriot Act após os atentados de 11 de setembro de 2001, declarou a “Guerra ao Terror” e invadiu o Afeganistão, em outubro de 2001, e o Iraque, em março de 2003.

 

Os membros do governo do ditador (ao estilo romano) dos EUA, W. Bush, filho do ex-presidente George H. W. Bush, derrotado na Guerra do Golfo, eram, em sua maioria, neoconservadores capitaneados pelo sinistro vice-presidente Dick Cheney. Eles queriam obter a vitória que não conseguiram no Iraque em 1991, isto é, derrubar Saddam Hussein e o “regime” ba’athista, que se recusava fazer qualquer acordo com o Ocidente mesmo sendo ameaçado pelo Irã. Destruir o Iraque – um processo em curso desde 1961, quando os EUA estimularam o separatismo étnico dos iraquianos “curdos” em resposta à Revolução Iraquiana de 1958 – , era o primeiro passo que pretendiam dar para atacar a Síria e o Irã, dois outros países governados por nacionalistas esquerdistas e conservadores respectivamente. O aniquilamento destes três países do Oriente Médio romperia o eixo da resistência à hegemonia ianque na região e também ofereceria mais segurança ao regime de apartheid de Israel para seu processo de limpeza étnica, visando expulsar toda a população árabe palestina dos territórios sob seu domínio.

 

Um Oriente Médio implodido e submisso aos EUA era e continua sendo o melhor caminho para apertar o cerco à Rússia e à China, cujas capitulações, se ocorrerem, garantirão o controle absoluto da Eurásia, assim como a hegemonia mundial. Apesar do unilateralismo de W. Bush, os ianques precisaram de apoio regional para os ataques ao Iraque e ao Afeganistão, que são vizinhos do Irã. No entanto, o governo dos aiatolás percebeu a manobra de cerco ianque à república islâmica e buscou cooperar com W. Bush nas invasões dos dois países vizinhos. Há suspeitas de que Teerã tenha sofrido ameaças de ataque nuclear caso se recusasse a cooperar. Estas suspeitas são reforçadas pelo fato de que W. Bush teria ameaçado seu vassalo paquistanês, o general e ditador Pervez Musharraf, de “devolver o Paquistão à Idade da Pedra” caso o país bloqueasse seu espaço aéreo à aeronáutica ianque para os bombardeios ao Afeganistão, país cujo governo talibã foi acusado de dar abrigo à al-Qaeda, organização terrorista acusada pelos EUA de ser autora dos os atentados de 11 de setembro. É bom lembrar que os talibãs são extremistas “islâmicos” de tendência wahhabita e haviam tomado o poder cinco anos antes, apoiados pelas armas, dinheiro e treinamento da CIA e de suas afiliadas locais. A Arábia Saudita, cuja religião oficial é o wahhabismo, e o Paquistão foram os dois únicos países que reconheceram diplomaticamente o governo talibã afegão.

 

A destruição do Afeganistão e do Iraque, promovida pelos EUA, desestabilizou toda a região, especialmente os países vizinhos em maior ou em menor grau. A implosão do país mesopotâmico, por exemplo, abriu caminho para a destruição da Síria por meio de uma guerra iniciada em 2011, quando dezenas de milhares de terroristas invadiram o país através das fronteiras turco-síria e iraquiano-síria, ao mesmo tempo em que a maioria das tropas ianques era retirada do Iraque. Da mesma forma, a destruição do que restava do Afeganistão abalou severamente a estabilidade política do Paquistão, que só mantém sua unidade política por causa das forças armadas, a única e autêntica instituição nacional em funcionamento em todo o território paquistanês.

 

Como todo país submetido ao liberalismo, o Paquistão também sofreu a corrosão do seu tecido social, tornando o Estado e sua sociedade disfuncionais, vivendo em estado permanente de caos, com os constantes golpes militares pró-ocidentais. Assim, o Estado paquistanês foi incapaz de conter a infiltração, pela sua fronteira com o Afeganistão, dos grupos armados simpatizantes dos talibãs que davam apoio ao governo de Cabul sob ataque dos EUA, o que causou e ainda causa conflitos entre forças de segurança do governo e estes aliados dos talibãs afegãos. Isto fez crescer enormemente o número de atentados a bomba contra civis, assim como a violência sectária tanto étnica quanto confessional.

 

De volta ao presente

 

Quando Barack Obama passou a ocupar a Casa Branca, em 2009, ele aumentou tanto as tropas ianques no Afeganistão quanto a frequência dos ataques de drones sobre os territórios afegão e paquistanês, assassinando milhares de civis nos dois países. Longe de lograr estabilidade, obteve mais caos em ambos os países asiáticos, pois este era o objetivo real da “geoestratégia do caos” do governo Obama.

 

Desde que Recep Tayyp Erdogan se envolveu na Guerra da Síria, a Turquia parece trilhar o mesmo caminho do Paquistão. Isto não significa que a Turquia fosse um exemplo de sociedade pacífica e ordeira. O moderno Estado turco nasceu de uma revolução nacionalista ultraconservadora “ocidentalizante”, em 1923, liderada pelo general turco-otomano Mustafá Kemal (chamado de Atatürk, “pai dos turcos”). Este líder militar e político introduziu um nacionalismo exclusivista étnico, aos moldes dos Estados nacionais europeus, sem paralelos na região. Somente outros dois Estados da região adotariam naquela época, entre as décadas de 1920 e 1940, o modelo exclusivista étnico e ou confessional: o Reino da Arábia Saudita, em 1932, e o Estado de Israel, em 1948. Este exclusivismo turco, inédito até então no Oriente Médio, teria provocado o massacre e a expulsão das comunidades cristãs do país, formadas, sobretudo, por gregos e armênios, que viviam mescladamente com os demais habitantes locais há milênios.

 

No entanto, este nacionalismo exclusivista “ocidentalizante” foi desafiado pela presença dos curdos kurmanjis, que formam cerca de um quarto da população do país, apesar de eles serem majoritariamente muçulmanos da corrente sunita, tal como os turcos étnicos. Seria desnecessário dizer que os kurmanjis sofreram pesada repressão militar do Estado turco se não houvesse a mitologia (criada pelas potências ocidentais e alimentada pela esquerda) em torno da “repressão” aos curdos iraquianos, majoritariamente da etnia sorani. Enquanto o líder revolucionário Saddam Hussein reconhecia através de um acordo formal a nacionalidade curda no Iraque, em 1970, o Estado turco, pró-EUA, não apenas negava os direitos nacionais, como também empreendia uma feroz repressão, muito mais sangrenta do que a existente no vizinho mesopotâmico.

 

Pelo fato de ser vassala dos EUA, a Turquia não sofreu as mesmas pressões e censuras dos organismos internacionais e da mídia pró-ocidental que o Iraque, que era pró-soviético; teve mãos livres para esmagar qualquer aspiração mínima de autonomia cultural. Para o regime kemalista, os curdos kurmanjis eram considerados “turcos das montanhas”. Em 1971, enquanto a ditadura militar kemalista, sob a capa do governo civil do presidente Cevdet Sunay, apoiada pelos EUA, proibia o ensino e o uso da língua curda kurmanji, Saddam Hussein fundou, assim que assumiu o poder em 1968 – antes do acordo de 1970, portanto –, a Universidade de Suleimanyia, na região autônoma curda do norte do Iraque, no bojo de um processo de modernização do Estado.

 

Além do racismo explícito do regime kemalista turco, o nacionalismo exclusivista também se refletiu no papel das forças armadas turcas, consideradas pelas inúmeras constituições do país como “guardiões da República”, da laicidade e do secularismo do Estado. Esta ideologia kemalista se defrontava com a religiosidade da população, que era majoritariamente rural. Isto ajuda a explicar as tentativas de partidos confessionais, de ideologia liberal-conservadora, serem reconhecidos pelo Estado, embora tivessem que disfarçar seu teor religioso. Toda vez que alcançavam o poder, eram depostos manu militari. Foram ao todo quatro golpes de Estado promovidos pelas forças armadas: 1960, 1971, 1980 e 1997, antes do golpe fracassado de julho de 2016.

 

O estratégico país bicontinental, “ponte” entre a Europa e a Ásia, foi uma importante peça no tabuleiro de xadrez da Guerra Fria. Em 1952, a Turquia ingressaria na OTAN, sendo palco de duas graves crises da Guerra Fria, em 1947 e em 1961, por formar junto com o Irã e o Paquistão o “Cinturão Norte” do Oriente Médio, uma barreira pró-ocidental de contenção da URSS. Esta “barreira” foi formalizada através de uma aliança, forjada pela Inglaterra, com a adesão do Iraque, através do chamado Pacto de Bagdá, patrocinado indiretamente pelos EUA, em 1955. Em 1957, a Turquia, juntamente com o reino hachemita do Iraque, fez inúmeras ameaças de invasão à Síria, sob pressão dos EUA, que queriam submeter o único país árabe que confrontava militarmente Israel naquele momento.

 

Com a defecção do Iraque deste Pacto, em decorrência de sua revolução nacionalista e esquerdista, em 1958, Israel, Turquia e Irã, formariam a chamada “aliança tridentina” dentro da “Aliança da Periferia” (que incluía a Etiópia, os separatistas curdos iraquianos e os separatistas sulistas do Sudão), idealizada pelo líder israelense David Ben-Gurion, segundo o qual o “Estado judeu” deveria buscar aliança com Estados não árabes, não muçulmanos e não sunitas para favorecer a hegemonia ianque no Oriente Médio frente à URSS e conter o nacionalismo árabe “radical” (por ser anti-imperialista).

 

Instabilidades locais

 

Ao longo das décadas de 1960 e 1970, a Turquia enfrentou uma grave instabilidade política decorrente do descontentamento popular em relação às políticas liberais, adotadas “coincidentemente” desde a entrada do país na OTAN, em 1952. Com governos reformistas sociais sofrendo permanentes “vetos” militares em favor dos liberais-conservadores, não tardou surgirem grupos armados esquerdistas que combatiam o regime kemalista pró-ocidental e liberal. Ao mesmo tempo, também surgiram movimentos, partidos e grupos armados ultradireitistas. Tal radicalização política levaria ao sangrento golpe militar que instauraria a ditadura do general Kenan Evran em setembro de 1980, que obteve efusivo apoio ianque do governo Ronald Reagan. Esta sangrenta ditadura promoveria feroz repressão religiosa, étnica e política aos curdos kurmanjis, aos armênios, aos árabes sírios de Alexandreta, aos muçulmanos alevis, aos comunistas, aos socialistas e até liberais. Mais de 40 mil curdos soranis seriam exterminados sob a ditadura do general Evran. Esta agressividade política seria sentida até mesmo na sua política externa.

 

Em 1974, a Turquia, sempre apoiada pelos EUA, invadiu o Chipre para impedir a unificação deste país insular com a Grécia, que também estava submetida a uma ditadura militar igualmente vassala de Washington D.C. A ditadura do general Kenan Evran, em 1983, criaria a República Turca do Norte do Chipre, balcanizando a pequena ilha – que durante quase um século havia servido de base naval para a Inglaterra –, sem sofrer qualquer oposição efetiva dos EUA. Como se isto não bastasse, Evran apresentou um projeto de construção de uma barragem no rio Eufrates, ameaçando indiretamente cortar o fornecimento de água à desértica Síria. A resposta do presidente sírio Hafez al-Assad foi uma ameaça de ataque à represa e o apoio financeiro e o envio de armas para o Partido dos Trabalhadores Curdos (PKK), comunista curdo kurmanji, e para a milícia armênia Exército Secreto de Libertação da Armênia. Ambas as milícias iniciaram uma luta armada contra a ditadura militar pró-ocidental turca na primeira metade da década de 1980.

 

O fim da ditadura de Evran coincidiu com o fim da Guerra Fria, no final da década de 1980. Como marco inicial da Era Pós-Guerra Fria, os EUA, liderando uma coalizão militar de mais de 30 países, promoveram um ataque colossal ao Iraque, em 1991, com um contingente de mais de 700 mil soldados, para expulsar as tropas iraquianas que haviam invadido o Kuwait em agosto de 1990, num momento em que soldados ianques permaneciam ocupando militarmente o Panamá após terem invadido o país centro-americano, derrubando seu presidente, em dezembro de 1989. A Turquia apenas liberou seu espaço aéreo e suas bases militares às tropas ianques para a ofensiva ao Iraque sem, no entanto, enviar soldados.

 

Na década de 1990, os kemalistas, constrangidos pelos EUA, permitiram a chefia do Estado turco nas mãos de “islâmicos” moderados, que buscaram levar a esfera de influência turca para as ex-repúblicas soviéticas da Ásia Central e do Cáucaso, cujos povos eram de etnia turca e de fé muçulmana, sem deixar de pleitear o ingresso na União Europeia (UE). Com o passar do tempo, esta política deu poucos resultados. A Turquia não expandiu sua zona de influência, não ingressou na UE e ainda levou a Armênia buscar proteção da Federação Russa, temendo a ameaça de uma invasão turca.

 

Como os EUA foram incapazes de derrubar o governo de Saddam Hussein e o “regime” ba’athista, objetivo estratégico de George H. W. Bush não declarado na invasão de 1991, por terem encontrado uma resistência militar tenaz das tropas iraquianas, que impediram o avanço das forças armadas ianques sobre Bagdá, o Iraque foi submetido a um feroz embargo de produtos de tecnologia dual (ou seja, para uso civil e militar simultâneo), incluindo desde armas até remédios e alimentos. Isto provocou a morte de milhões de iraquianos. Como esta punição coletiva e genocida não bastasse, os EUA criaram uma zona de exclusão aérea ao norte e ao sul do Iraque para favorecer a balcanização do país mesopotâmico há muito apregoada, desde a década de 1950, pelo então primeiro-ministro israelense David Ben-Gurion quando forjou a chamada “Aliança da Periferia”. O norte do Iraque, apesar de ser habitado por árabes iraquianos, turcomenos, assírios, yazeditas e curdos soranis, que viviam mescladamente há milênios, seria destinado pelos EUA ao controle curdo sorani para formar ali um Estado exclusivista étnico que servisse de base ianque encravada no Oriente Médio, criando uma profunda fenda para separar árabes, “curdos”, iranianos e turcos, de maneira análoga como procederam os ingleses ao proporem a criação de um Estado exclusivamente judeu na Palestina para separar o mundo árabe africano do asiático.

 

Percebendo que os intentos balcanizadores dos EUA sobre o Iraque, com a criação de um “Curdistão”, atingiriam a Turquia, tropas turcas invadiram o território iraquiano em 1993 e em 1996. Saddam Hussein não teve como reagir por causa do bloqueio aéreo ianque e porque os curdos soranis eram submetidas ao poder de dois clãs, os Talabani e os Barzani, que eram vassalos de Israel, do Irã e dos EUA desde 1961, quando, em reposta à tentativa de implantação da reforma agrária pelo governo revolucionário do então primeiro-ministro general Abdel Karim Qassem, provocaram uma rebelião separatista. Os turcos temiam que um “Curdistão” extirpado do Iraque serviria como um incentivo para os curdos kurmanjis a fazerem o mesmo dentro da Turquia.

 

A geoestratégia balcanizadora para o Iraque foi um importante fator para os EUA se distanciarem do regime kemalista. Os ianques não tardaram a favorecer os partidos “islâmicos” liberal-conservadores para assumirem o poder em Ancara, em substituição da velha elite turca kemalista, ao longo da década de 1990. O momento mais baixo da cada vez mais conturbada relação entre os kemalistas e os EUA foi durante a segunda grande invasão anglo-americana do Iraque, em 2003. Esta ofensiva foi apoiada militarmente pelos iraquianos curdos soranis, que haviam sido treinados pelos israelenses durante os anos 1990, sob proteção ianque. Os militares turcos vetaram o uso do espaço aéreo e de suas bases militares para o ataque ao Iraque. Isto foi uma humilhação para os EUA, sobretudo, para o secretário de Estado, general Colin Powell (muito mal visto, por sinal, entre seus colegas fardados patrícios por causa da derrota de 1991), que foi, quando jovem, colega de muitos oficiais turcos que estudaram nas academias militares ianques e agora comandavam as forças armadas turcas.

 

A partir de então, os EUA buscaram fortalecer seus laços com o Partido da Justiça e do Desenvolvimento (PJD), partido liberal-conservador que representava o ramo turco da Irmandade Muçulmana, uma organização não governamental que é misto de movimento político, religioso e organização assistencialista, fundado no então protetorado britânico do Egito na década de 1920, apoiado pela Inglaterra para combater tanto os nacionalistas quanto os comunistas. Tal aproximação entre os EUA e o PJD intimidou os militares kemalistas, que tiveram que aceitar a participação deste partido na vida política do país até por causa do desejo da Turquia de ingressar na UE, cuja cláusula de adesão é a existência de “democracia” (liberalismo) no país candidato.

 

O PJD teve entre seus fundadores um ex-jogador de futebol e militante anticomunista que se tornou prefeito de Istambul, entre 1994 e 1998, Recep Tayyp Erdogan. Ele foi membro do Partido do Bem-Estar, de tendência liberal-conservadora “islâmica”, até este ser banido por um golpe militar “suave” em 1997. Pelo visto, este foi o último golpe militar kemalista a ser autorizado pelos EUA até o do dia 15 de julho de 2016.

 

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Ramez Philippe Maalouf é mestre e doutorando em Geografia pela USP.

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