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Entrevista com um coxinha Imprimir E-mail
Escrito por Paulo Metri   
Terça, 27 de Setembro de 2016
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Um jovem recém-eleito com seu grupo para o Diretório Acadêmico de uma escola de Engenharia ficou encarregado da área de comunicação. Uma de suas primeiras atividades foi fazer uma entrevista com determinado professor para o jornal do Diretório, previamente negociada com a direção da escola.

 

Sem determinação expressa, a direção deixou clara sua preferência por uma entrevista que se restringisse a questões curriculares e específicas de sua cadeira. O professor era reconhecido por todos como competente e, também, muito conservador. O jovem, querendo se desvencilhar de uma entrevista anódina, fez a primeira pergunta:

 

-         Por que há tanta pobreza no nosso país?

 

O professor, muito bem estruturado, responde:

 

- É resultado da ação de vários fatores, como, por exemplo, o descaso do governo e das famílias, a falta de investimentos no país e à falta de estímulo do governo aos empresários. O governo cobra altas taxas de impostos, cria uma burocracia generalizada e não dá incentivo ao empreendedorismo.

 

- Então, vamos analisar por partes. Em que consiste o descaso do governo que o senhor se refere?

 

- O governo deveria criar igualdade de oportunidades para todos os cidadãos poderem enfrentar a vida. A partir deste começo com igualdade, alguns iriam se distinguir porque aceitam correr riscos, trabalham com bastante afinco e são responsáveis, obtendo maior retorno do próprio trabalho.

 

- Então, a igualdade de oportunidades se relaciona com escolas, hospitais e demais atendimentos sociais, principalmente para os mais pobres. Mas os cortes do atual governo vão ser exatamente nestas áreas. Este governo seria contra a igualdade de oportunidades?

 

- O governo Temer encontrou o país desgovernado. Tem de fazer cortes para poder honrar os compromissos assumidos.

 

- O senhor fala de compromissos financeiros. Os compromissos sociais não contam? São menos importantes?

 

- Temos que honrar as nossas dívidas. Existe a Lei de Responsabilidade Fiscal.

 

- E com relação às dívidas sociais, podemos ser irresponsáveis? Porque os rentistas são politicamente fortes e o povo, não? Enfim, por que não se diminui a taxa de juros, pelo menos não irão existir tantos compromissos futuros?

 

- A taxa de juros é fixada para debelar a inflação existente. Às vezes, não se pode diminui-la.

 

- Existe tese contrária a esta sua afirmação, mas temos outros temas para falar. Por exemplo, a política de cotas nas universidades públicas não visa à melhoria da igualdade de oportunidades?

 

- Sim. Mas neste caso, consegue-se a melhoria à custa da piora do ensino. A média das notas dos alunos diminui, provando que os cotistas são alunos fracos.

 

- Esta sua afirmação é contestada por uma pesquisa da UERJ. Nela, é provado que, no cômputo geral, os cotistas são bons alunos. O que o senhor acha do fato de cerca de 42 milhões de pessoas terem ascendido a uma classe de renda maior no governo Lula?

 

- Quem disse isto? Este número é muito alto.

 

- Quem disse foi o IBGE. Cerca de 32 milhões saíram da miséria e entraram na categoria de pobres e cerca de dez milhões migraram da pobreza para a classe média. É alto, sim. Trata-se de uma Argentina.

 

- Entretanto, graças ao governo Dilma, todos já devem ter retornado às suas condições iniciais.

 

- O senhor acredita que um país pode ter desenvolvimento social em consequência de investimentos estrangeiros?

 

- Claro. Com novos investimentos no país, novos postos de trabalho serão gerados, além de a arrecadação aumentar, o que proporciona mais recursos para a área social.

 

- Contudo, pelo comportamento histórico de empresas estrangeiras, constata-se que os seus investimentos tendem a empregar o mínimo de nacionais, comprar o mínimo de materiais, máquinas e equipamentos no país, não desenvolver tecnologia e realizar projetos de Engenharia, aqui, no Brasil. Além de praticar o superfaturamento de importações e subfaturamento de exportações, e a camuflagem da remessa de lucros através de assistências técnicas pagas à matriz no exterior.

 

- Mas, aumenta o pagamento de impostos no país.

 

- Aumenta. Entretanto, vamos tomar como exemplo o setor do petróleo. O Brasil é um dos países do mundo que menos taxa a produção de petróleo, em torno de 45% do valor da produção, enquanto existem países com taxações acima de 80% e a média mundial está em torno de 65%. Outra pergunta: por que tanto ódio ao PT?

 

- O PT roubou! Você acha isso pouco?

 

- Não é pouco. Mas, o partido, como um todo, roubou? Ou foram alguns de seus integrantes? Assim como integrantes de outros partidos também roubaram.

 

- Mas, foram integrantes da direção do PT.

 

- Nem todos os integrantes da sua direção. E os partidos, que hoje estão no poder, são compostos de vestais?

 

- Têm ladrões neles também. Mas vão ser todos pegos, sem exceção.

 

Neste ponto, o rapaz fica pensativo e, após alguns segundos, volta a falar:

 

- Confesso ao senhor que esta entrevista está saindo toda errada, pois eu não deveria discutir com o senhor. Um jornalista deve fazer perguntas que obrigam o entrevistado a se revelar. Nunca partir para uma discussão. Desculpe-me.

 

- Não, pode colocar os seus argumentos. Eu gosto de ouvir argumentos contrários ao meu pensamento, desde que sejam lógicos e não agressivos. Você nem me chamou de “coxinha”.

 

- Não sei como vou resolver a questão da entrevista, mas quero colocar mais um ponto. Acho que o senhor é um tanto esperançoso ao pensar que os ladrões de outros partidos vão ser presos. O senhor acha que o Aécio vai ser pelo menos investigado? Ele foi citado em seis delações e nada é feito. Não estão faltando representantes da Justiça dispostos a reconhecer os erros de integrantes do PSDB?

 

- Eu concordo com você. Não se pode perseguir só um partido. Mas, você acha que existe um complô da Polícia Federal, Procuradoria Geral e Justiça, cujo intuito é só destruir o PT? A concentração no PT não será porque identificaram neste partido muitos corruptos?

 

- O senhor esqueceu a mídia como integrante do complô. Este complô existe. Por outro lado, tais integrantes não estariam deixando os bandidos de outros partidos para depois que passar no Congresso uma lei que dará anistia para quem fez roubos no passado? O argumento para tal perdão será que “se continuar a caça às bruxas, o mundo político irá se desestabilizar e, sem a política, nada avança na sociedade”.

 

- O maior fator de desestabilização da política é deixar o ex-presidente Lula impune e solto.

 

- Não me diga que o senhor acredita que Lula é corrupto. Se ele tivesse sido corrupto, teria sido burro também porque, com o roubo, ele poderia ter um patrimônio muito maior do que o que tem hoje.

 

- Ele é daqueles que é impossível encontrar fluxo de grana para seu patrimônio, mas ele tem tudo em nome de terceiros. Além disso, deixou outros roubarem.

 

- Agora, o senhor extrapolou. Virou estação repetidora da Globo. Os acusadores de Lula deviam ter mais respeito por ele, o cidadão que prolongou a vida de milhões. O senhor é uma daquelas pessoas que teve oportunidades na vida, neste mundo sem igualdade de oportunidades. Está certo que o senhor teve o mérito de aproveitar o “cavalo encilhado que passou na sua frente”.

 

Neste ponto, o universitário ficou pensativo e, depois de algum tempo, retornou:

 

- Posso lhe pedir que faça um exercício de abstração comigo?

 

- Bem, esta entrevista está sendo tão inusitada! E, por que não faria?

 

- Será melhor se o senhor fechar o olho. Imagine a si próprio como uma criança. O senhor é preto. Sua família consiste do senhor, seus irmãos e sua mãe. Vocês moram em um barraco na encosta do morro. Uma vala negra mal cheirosa passa ao lado do barraco. A figura feminina que lhe dá comida passa o dia longe e vocês ficam em casa com a filha da vizinha que tem 13 anos tomando conta. Você tem sempre fome. A comida quando chega não esgota a fome. Dois de seus irmãos maiores lhe batem e roubam a comida que a mãe de vocês deixa para todos. Na sua cabeça infantil, você quer entender a razão de tudo isso. Você está cansado de tanto sofrer, mas não sabe se expressar. A sua feição é de dor. Você nunca sorri. A partir de determinado momento, sua mãe começa a trazer para casa mais comida. Ela própria está sorrindo, coisa que raramente você via. Depois uns homens trazem um armário grande que tem frio dentro. Sua mãe é a própria expressão da alegria. Ela já pensa em arrumar os dentes dela. Só é estranho porque apareceu um homem dizendo que era meu pai, mas minha mãe o botou para correr.

 

Abrindo os olhos, o professor diz:

 

- Sim, já entendi. Mas, aonde você quer chegar?

 

- Quero chegar ao ponto que ninguém ouve depoimentos como estes. Podem ser 32 milhões de depoimentos deste tipo. Mas, os potenciais depoentes não sabem se expressar e, além disso, são politicamente fracos, o que não traz ninguém para ouvi-los. Por outro lado, os meios de comunicação endeusam o carrasco que ceifa o emprego de milhares de brasileiros em nome de uma moralidade seletiva, em que a lei só é aplicada para os inimigos, enquanto para os amigos, há um prestimoso esquecimento. E a verdade dura de ser ouvida pelos representantes da nossa oligarquia e do capital externo é que o responsável por essa melhoria das condições de vida da população pobre é o presidente Lula. Com esta abstração, busco comunicar o possível depoimento de um antigo “com fome”, se ele conseguisse falar.

 

- Mas, você é contra a apuração da corrupção?

 

- Que se apure a corrupção onde quer que ela ocorra. Mas, que não se enxovalhe um homem de bem e com sensibilidade humana, como tentaram fazer com Getúlio Vargas.

 

A entrevista acabou. Ambos agradeceram a sinceridade do outro e o rapaz concluiu:

 

- Além de tudo, o senhor é muito educado. Não me chamou de “petralha” nenhuma vez.

 

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia e colunista do Correio da Cidadania.

Blog do autor: http://www.paulometri.blogspot.com.br

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Última atualização em Qui, 29 de Setembro de 2016
 

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