Brasil e Estados Unidos: a influência do jornalismo tradicional

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Nos Estados Unidos, o impacto da imprensa, a despeito da incontestável ascensão dos sítios e portais, como o Huffington Post, é ainda significativo. Dois seculares títulos no campo político têm contínua ressonância: New York Times e Washington Post, adquirido pelo proprietário da Amazon em 2013.

De quando em quando, jornais têm acesso à documentação reservada ou mesmo confidencial da área de defesa ou de chancelaria por servidores motivados por diferentes razões – do patriotismo à sabotagem.

 

Não há consenso entre diplomatas, militares, historiadores, politólogos ou advogados, por exemplo, se deveria prevalecer o chamado segredo de Estado ou o direito do público à informação no tocante a temas como certos acordos castrenses, determinadas movimentações comerciais ou eventuais trocas de espiões.

 

No final de 2009, houve um ponto explícito de discordância entre Brasil e Estados Unidos: o Irã. O motivo do desentendimento originava-se da finalidade da política nuclear do país sob controvertido governo – à Casa Branca, o objetivo do projeto era sem sombra de dúvida o militar; ao Planalto, o civil não poderia ser posto de lado.

 

A polêmica veio a lume em decorrência da visita do dirigente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, a Brasília. De acordo com o tradicional diário New York Times, o presidente Barack Obama teria destinado a seu correspondente brasileiro, Lula da Silva, uma carta de três páginas em que haveria uma relevante gama de assuntos do cotidiano bilateral - http://www.nytimes.com/2009/11/25/world/americas/25brazil.html.

 

Resguarda-se a imprensa norte-americana pelo sigilo de fonte, ao invocar a primeira emenda como proteção, haja vista os famosos precedentes do período dos anos 70 – os chamados Documentos do Pentágono, revelados por Daniel Ellsberg, e o Escândalo de Watergate, conjunto de informações trazidas a público sem autorização do Federal Bureau of Investigation (FBI) por Mark Felt.

 

Embora sem constar a ordem dos tópicos, mencionar-se-iam Honduras (em função do golpe de Estado no qual se havia encerrado o mandato do presidente Manuel Zelaya, próximo do arco bolivariano. Washington havia de maneira pragmática aceitado nova eleição, enquanto o Brasil, não, por considerar como a legitimação da defenestração do dirigente) e a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a ser realizada em dezembro do mesmo ano.

 

Continuaria a missiva com citação à Rodada Doha, derivada através de extensas e exaustivas negociações da Organização Mundial do Comércio. Devido ao tempo transcorrido, diminuía-se o entusiasmo para o estabelecimento de regras voltadas a reduzir os entraves alfandegários entre os países-membros.

 

Por fim, indicar-se-ia a controvertida questão iraniana. O titular estadunidense solicitaria ao brasileiro auxílio, de sorte que o mandatário persa pudesse submeter o programa energético ao rigoroso crivo da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

 

Destarte, a chancela de desenvolvimento para fins pacíficos ser-lhe-ia concedida e o longo e desgastante impasse, superado. O patamar da discórdia residia no grau do enriquecimento do urânio por instituições persas. Até um determinado ponto, 20%, o material radioativo poderia ser basicamente empregado na área de saúde, por exemplo.

 

Se comprovado o documento com o teor citado pelo jornal, a Casa Branca reconheceria no Planalto condições de sugestionar o comportamento do Irã em sensível tema. Transcorrido o período de mais de meia década, a tensão entre norte-americanos e iranianos mantém-se, malgrado tentativas brasileiras de apaziguamento na administração Lula da Silva.

 

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

 

 

 

 

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