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Pensando a longo prazo – Convicções e Blitzkriegs Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Quarta, 21 de Setembro de 2016
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Não são apenas parênteses que nos fazem desviar da rota de pensar a longo prazo. Mesmo sendo previsível que a tropa de choque da Lava Jato lançasse alguma ofensiva pesada contra o PT e Lula, não há dúvidas de que ocorreram novidades nessa nova empreitada. Primeiro, a de transformar convicções em fatos jurídicos, substituindo provas. Depois, a de utilizar o modelo de blitzkrieg, a famosa guerra-relâmpago utilizada pelos nazistas durante a segunda guerra mundial, como ação de guerra política.

 

Se as convicções de policiais, procuradores e juízes se tornarem norma jurídica, da mesma forma que o domínio de fato, o Brasil realmente vai ingressar por um caminho ainda mais cavernoso. Por um lado, de arbítrios inomináveis, no estilo “Escola Base” e outras convicções idênticas que resultaram em barbaridades. Por outro, de chacota e desprezo internacional, provavelmente com um rebaixamento ainda maior do que o alcançado pelo terrorismo de Estado da ditadura militar.

 

Algo idêntico pode ocorrer com o modelo blitzkrieg de ofensiva política. É verdade que as blitzkriegs militares nazistas iniciais pegaram franceses, tchecos e poloneses desprevenidos, e tiveram sucessos rápidos. No entanto, o modelo tupiniquim se parece mais às blitzkrieg lançadas pelos nazistas contra as ofensivas soviéticas em Stalingrado e Kursk, e contra a ofensiva aliada nas Ardenas. Ou seja, blitzkriegs mal ajambradas, tortas, desesperadas, que tentaram mascarar a debacle da máquina de guerra nazista.

 

Da mesma forma que a tentativa de transformação da convicção em prova é uma aberração jurídica, o plano de ataque da blitzkrieg da Lava Jato se parece com a infantilidade dos líderes nazistas quando se viram diante da iminência da derrota. Não é preciso ser muito inteligente, nem tão letrado, para verificar que o conteúdo do amontoado de slides apresentados pelo grupo de trabalho da Lava Jato à imprensa, sem qualquer prova minimamente verossímil, se parece mais com a já destroçada máquina de guerra nazista do final da guerra.

 

Para piorar, se aquele conjunto de disparates tivesse qualquer traço de verdade, os procuradores que o apresentaram deveriam colocar-se a priori como réus. Afinal, pelas convicções que expuseram, não sobra ninguém nesta nossa República. Então, o que se pode perguntar é: por que eles correram o risco deliberado de não só parecerem com os nazistas desesperados diante da contraofensiva aliada na Segunda Guerra Mundial, mas também com um grupo de estudantes despreparados frente à prova do ENEM?

 

A hipótese mais racional é que tenham se dado conta de que a resistência popular e democrática contra o golpe parlamentar que destituiu Dilma está crescendo. Isso pode impor à Lava Jato que investigue o conjunto do tucanato, peemedebenato e outros “natos”, envolvidos em ladroagens tipo “Cunha”. Se isso se impuser, tal conjunto tornará insignificante o número de petistas envolvidos em atividades semelhantes. E, para piorar, pode reforçar a necessidade imperiosa de reformular o sistema político brasileiro num rumo mais democrático e participativo.

 

Para frear as tendências democráticas, que o grupo da Lava Jato considera erradas, fracas e inconsistentes, a saída parece ter sido criar um factoide desproporcional e irracional contra seus inimigos principais, desde o início, o PT e Lula. Mas, como tudo que é exagerado, esse factoide está mais para uma brutal e evidente aberração jurídica e para as blitzkriegs do final da era nazista.

 

O que nos leva à segunda hipótese: a de que, para salvar da guilhotina da Lava Jato o tucanato, o peemedebenato e os outros “natos” envolvidos em corrupção, o mais adequado seria realizar aquilo que ficou evidente na conserva entre Sérgio Machado e outros próceres da República: dar um basta na Lava Jato. Os destemperos das acusações contra o PT e Lula, de tão incongruentes, forçariam os órgãos judiciários superiores a colocar um freio na turma curitibana. Seus componentes sairiam chamuscados, mas teriam cumprido seu dever, do mesmo modo que fizeram os comandantes das blitzkriegs nazistas derrotadas.

 

Qualquer que seja a hipótese verdadeira, cada vez fica mais evidente que o Brasil não necessita apenas Fora Temer! e de Diretas Já!. Precisa, principalmente de uma estratégia e de táticas adequadas que orientem a crescente mobilização social para discutir e votar um projeto de desenvolvimento, que englobe reformas democráticas e participativas na economia, na sociedade e na política. E que evitem, portanto, o retrocesso do Brasil à condição de uma República bananeira, mesmo que grande parte de seus campos esteja sendo trabalhado por máquinas comandadas por computadores, que não mais necessitam de grandes contingentes de trabalhadores.

 

E, mais uma vez, para que isso ocorra, é fundamental que o PT e outras forças de esquerda, presentes em nosso cenário político, caiam na real a respeito da atual ofensiva reacionária e conservadora, e corrijam seus rumos ideológicos e políticos. Sem tal correção, pode até ocorrer uma forte mobilização social contra os planos golpistas de fazerem os pobres pagarem pela manutenção dos altos lucros da burguesia estrangeira e nativa.

 

Será importante lembrar que o golpe de 1954, que levou Getúlio ao suicídio, foi derrotado porque grandes camadas populares se mobilizaram em massa contra ele. Algo idêntico voltou a acontecer em 1961, quando quiseram impedir a posse de Jango. Porém, como essas massas mobilizadas não sabiam o que mudar, ou visavam apenas mudanças tópicas, os perigos reais não foram extirpados. Assim, talvez seja o momento certo de aprender que convicção não pode substituir prova, que blitzkrieg pode ser apenas um movimento para disfarçar objetivos ocultos, e que sem projetos, estratégias e táticas corretas, as mobilizações sociais podem se escoar sem realizar as mudanças necessárias.

 

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Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

 

 

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