Sobre provas, convicções e hóspedes indesejáveis

 

 

Em 14/09, um grande grupo de crianças e jovens negros circulava por Copacabana. A polícia foi chamada para reprimir um suposto arrastão.

 

Cerca de 40 menores foram detidos. Nada foi encontrado com eles que justificasse as acusações de roubo.

 

A polícia não precisava de mais provas contra o grupo além do racismo que alimenta suas convicções e as dos que a acionaram.

 

A casos como esses correspondem exemplos em que a impunidade preserva criminosos comprovados, mas que têm a cor de pele e a classe social consideradas adequadas.

 

No mesmo dia do “arrastão” de Copacabana, Lula da Silva foi acusado de corrupção pela Operação Lava Jato. Não há provas, disseram os acusadores, só convicção.

 

Os protestos de Lula são legítimos. Mas a perseguição política de que ele é vítima tem motivos muito específicos. Não se trata do que seu governo fez ou deixou de fazer. Mas de suas origens sociais e históricas.

 

Alguém que nasceu na Senzala, liderou greves e presidiu um partido de esquerda jamais conquistará a confiança da Casa Grande. Ainda que nunca tenha faltado docilidade no tratamento que dispensou a seus proprietários.

 

É por isso que a regra que destina tratamento injusto ao andar de baixo abriu uma exceção para fazer o mesmo no andar de cima, desde que os atingidos sejam hóspedes que se tornaram muito inconvenientes.

 

Mas há um crime pelo qual Lula pode ser condenado com abundância de provas. É a convicção de que deverá permanecer ao lado dos que jamais toleraram sua gente.

 

 

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Sergio Domingues é sociólogo e servidor público federal.

Blog: Pílulas Diárias.

 

Comentários   

0 #1 Inquisição hojePedro Augusto Pinho 21-09-2016 11:41
Anita Novinsky, professora internacionalmente conhecida por suas pesquisas sobre a Inquisição nos séculos XVI a XIX, escreve: “entender o sentido profundo de um processo, o que é verdade e o que é forjado, se a confissão é falsa ou verdadeira, se o réu cometeu o crime ou se foi queimado inocentemente, é muito difícil, em consequência da estrutura inquisitorial corrupta e repressiva” (Inquisição: Prisioneiros do Brasil, Perspectiva, 2009).
A Operação Lava Jato, cinco séculos depois, em muito se iguala e repete a Inquisição. Primeiro pela origem e instrumentação estrangeira, depois pelo medo que infunde, outrora pelas cerimônias públicas e festivas dos autos-de-fé, hoje pelos prêmios e aparições na mídia, e ainda, nas palavras da professora Novinsky, lá “responsável pelo bloqueio do desenvolvimento da uma burguesia portuguesa. O comércio nacional passou a ser exercido por estrangeiros”. Aqui, coloque-se a engenharia nacional, a pesquisa nuclear e a produção de petróleo, sempre com empresas e tecnologia brasileira, e temos a Lava Jato impondo as empresas estrangeiras.
Pode surpreender a ausência de freios tanto aos desmandos do século XVI quanto aos do século XXI. Antes era a toda poderosa Igreja, agora o Departamento de Estado da nação mais rica e fortemente armada do planeta.
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