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Traídos e abandonados, os curdos resistem Imprimir E-mail
Escrito por Luiz Eça   
Terça, 06 de Setembro de 2016
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Surpreendentemente, aviões e tanques turcos entraram no norte da Síria para atacarem os curdos. Unidos aos rebeldes sírios, eles expulsaram o Estado Islâmico (EI) de Jarablus, cidade estratégica na fronteira com a Turquia, evitando que os curdos chegassem antes. Em seguida, iniciaram o cerco da cidade de Marbij, recém-conquistada pelos curdos ao EI.

 

Como os curdos resistiram, o vice-presidente norte-americano, Joe Biden, ordenou que saíssem, sob pena de acabar a ajuda que a aviação estadunidense lhes vinha dando na guerra contra os fanáticos terroristas.

 

Mas os conflitos continuaram. Para pôr fim a essa luta entre aliados seus, o Pentágono clamou: “estamos apelando para que todos os atores armados parem imediatamente e tomem medidas apropriadas para paralisar o conflito”.

 

Turcos e os aliados rebeldes sírios recusaram-se a atender a Washington.

 

Os curdos também. Só darão adeus às armas quando conseguirem um Estado independente. Coisa que nunca tiveram em muitos séculos de história.

 

Com cerca de 32 milhões de habitantes, os curdos vivem no Curdistão, região que compreende partes da Turquia, Síria, Iraque e Irã.

 

Trata-se de uma etnia aparentada com a persa, mas com língua, costumes e tradições próprias.

 

Sabe-se que em tempos remotos viviam em várias áreas sob diferentes chefes separados entre si.

 

Depois da conquista árabe, no século 7, os curdos se tornaram muçulmanos, mantendo, porém, sua identidade étnica.

 

O que não os impediu de se integrarem ao império árabe muçulmano e, posteriormente, ao seu sucessor, o império seldjúcida.

 

Um dos maiores sultões muçulmanos era curdo. Sendo grande guerreiro, Saladino tinha também virtudes morais raras no seu tempo.

 

Com a ascensão dos turcos otomanos ao comando do império, no fim do século 13, a situação dos curdos não mudou.

 

Eles lutaram pela primeira vez por um Estado autônomo e o reconhecimento do Curdistão na revolução fracassada de 1880.

 

Na 1ª Grande Guerra, com a derrota da Alemanha, de quem era aliado, o império turco otomano foi extinto.

 

O território curdo foi dividido entre a República Turca, o Iraque e a Síria. O Irã manteve sua parcela das terras curdas.

 

Na República Turca, limitada à Anatólia e à Trácia Oriental pelo Tratado de Lausanne, a situação dos curdos sofreu alternâncias. Ora os governos locais lhes concediam direitos, ora impunham amargas restrições.

 

Em 1984, o partido curdo PKK se revoltou, exigindo direitos iguais aos dos turcos. Lançaram uma guerra de guerrilhas, só interrompida por um cessar-fogo, em 1999.

 

Reiniciado em 2004, o conflito tornou-se extremamente violento. Em 2011, houve novo cessar fogo, a guerra voltou em 2013 e continua nos dias de hoje. Até setembro de 2016, já foi registrada a perda de 30 mil vidas.

 

Os curdos sírios também passaram por fases alternadas de concessões e repressões. Com a fragmentação do império turco otomano, a Síria foi submetida ao mandato da França.

 

Usando a tática colonialista de dividir para reinar, o governo de Paris atribuiu aos curdos os mesmos direitos dos cidadãos franceses. E recrutou grande número desses “novos franceses” para as suas forças armadas.

 

Com a emancipação da Síria, os curdos perderam seus direitos de cidadania. E o censo nacional os classificou como turcos imigrados ilegalmente para o país.

 

A repressão aos seus direitos civis perdeu força a partir dos anos 70. Ganharam mais liberdade nas dezenas de anos seguintes.

 

Na revolução anti-Assad, as tropas do governo abandonaram muitas áreas curdas, deixando sua administração para autoridades locais.

 

Como aconteceu na Síria, a situação dos curdos no Iraque, sob mandato inglês, melhorou logo após a 1ª Grande Guerra.

 

A Constituição Provisória de 1921, de autoria dos súditos da rainha, dava direitos iguais a árabes e curdos. Atribuía grande autonomia à região curda.

 

Era a tática de dividir para reinar. Findo o mandato inglês, os primeiros governos independentes do Iraque garantiram os direitos da minoria curda.

 

Mas essa bonança não durou muito. Os partidos nacionalistas curdos foram fechados. Cidades curdas foram destruídas e os habitantes de áreas ricas em petróleo foram removidos para outras partes, o que causou conflitos generalizados.

 

Em 1970, um Acordo de Paz parecia ter acalmado as tensões. Ele prometia aos curdos autoadministração, reconhecimento do caráter binacional do Iraque, representação política no governo central, entre outros direitos.

 

No entanto, com a implementação de uma lei regulatória frágil, os choques voltaram. Até que, nos anos 80, sob Saddam Hussein, os curdos foram perseguidos como nunca.

 

Na guerra contra o Irã, o ditador internou 500 mil civis curdos em campos de concentração, lançou armas químicas em cidades curdas e arrasou vilas e casas nas zonas das batalhas.

 

Depois da derrota do ditador na Guerra do Golfo, foi criada uma região livre no norte do Iraque, com um governo curdo eleito, protegida por aviões norte-americanos e ingleses

 

Poucos anos depois, veio a invasão do Iraque e a queda de Saddam Hussein. E, em 2005, a nova Constituição iraquiana reconheceu a região autônoma curda e completos direitos civis ao povo.

 

Nova guinada

 

Mudanças muito mais significativas foram detonadas com o surgimento do Estado Islâmico. Os fanáticos islamitas começaram atacando o norte e o centro do Iraque.

 

O exército iraquiano não foi páreo para eles, que venceram uma série de batalhas até tomarem Mosul, a segunda maior cidade do país, praticamente sem resistência.

 

Cruzando a fronteira com a Síria, as tropas do EI conquistaram largas faixas de território, criando o chamado Estado Islâmico nas zonas ocupadas nos dois países.

 

Somente os curdos, tanto os do Iraque quanto os da Síria, foram capazes de se opor a eles.

 

Com forte apoio aéreo norte-americano e armamentos fornecidos pelo Irã e pelos EUA, o exército iraquiano se recuperou e passou à ofensiva.

 

Por sua vez, os curdos avançaram no norte, já tendo expulsado o EI de 11 cidades (até 2/9/2016).

 

O que está criando um problema: estimulados por seus triunfos, o governo do Curdistão iraquiano vai realizar um referendo para seu povo escolher entre a criação de um Estado independente ou manutenção da autonomia administrativa atual.

 

Enquanto isso, os curdos procuram ganhar terreno, anexando as cidades ocupadas pelo EI nas regiões disputadas por eles e o governo central iraquiano.

 

Nada de entregar as cidades

 

Arif Tayfur – alta autoridade do KDP, partido que governa os curdos – declarou ao Middle East Eye: “as áreas que estamos capturando agora pertencem ao Curdistão. Mas eles (o governo de Bagdá) dizem que pertencem ao Iraque. Nós não vamos abandonar estes territórios”.

 

Isto tem levado o exército do governo central a apressar seus ataques para garantir ao país algumas valiosas áreas petrolíferas. Para evitar o que aconteceu com Kirkuk, uma das mais importantes cidades do Iraque, que depois de retomada do EI tornou-se parte do Curdistão. Não será devolvida ao governo de Bagdá.

 

Do outro lado da fronteira, na Síria, a arrancada do EI trouxe para o poder dos fanáticos vastas porções do território sírio, especialmente no Curdistão. Ocupado na guerra contra os rebeldes, o governo de Damasco pouco pôde fazer.

 

Ali também coube aos curdos o papel principal na defesa. Que desempenham com sucesso. Novamente receberam dos EUA apoio de armas, treinamento e logística e, principalmente, da força aérea ianque nas batalhas contra o EI.

 

A Rússia uniu-se a esse esforço bélico com uma sucessão de bombardeios com efeitos devastadores sobre o Estado Islâmico. Porém, surgiu um obstáculo.

 

O governo de Ancara considera os curdos seus maiores inimigos. Para ele, os curdos sírios do PYD são irmãos dos curdos turcos do PKK, grupo com quem trava uma guerra de morte já há 20 anos.

 

Portanto, o presidente Erdogan não admite que seu grande aliado, os EUA, estejam ajudando militarmente os grandes inimigos do seu povo. Os turcos protestaram várias vezes contra essa posição contraditória de Washington.

 

Mas eis que, tendo instalado uma administração autônoma no Curdistão reconquistado, a principal força curda cruzou o rio Eufrates e avança em direção a uma faixa da fronteira turca, já ocupada por tropas de sua etnia.

 

A extensão do Curdistão até a fronteira com a Turquia facilitaria a entrada de armamentos do PYD para o PKK, além de se tornar um refúgio onde os curdos turcos encontrariam proteção.

 

Turquia entra em ação

 

Erdogan resolveu partir para a apelação. Invadiu o norte da Síria, onde lutam EI e curdos do PYD. Forças turcas, integradas por tanques, aviões e tropas rebeldes anti-Assad, que há anos o governo de Ancara vinha ajudando militarmente, atacam tanto objetivos dos fanáticos islamitas quanto dos curdos do PYD.

 

O presidente turco exige que as tropas curdas recuem para o leste do rio Eufrates, o que as afastaria da perigosa proximidade com a fronteira da Turquia.

 

Do seu lado, os curdos não estão dispostos a entregar suas conquistas territoriais sem luta. Tudo isso está gerando um impasse que enfraquece a guerra ao EI.

 

No Iraque, os governos de Bagdá e do Curdistão só não chegaram às vias de fato porque concordam em primeiro derrotar o Estado Islâmico.

 

Isso acontecendo, mesmo que no referendo curdo vença a continuidade da administração autônoma, dificilmente o governo iraquiano irá aceitar a perda das cidades que seus vizinhos lhes estão tomando na guerra.

 

E embora o referendo, segundo as autoridades curdas, não ter poder de decisão sobre os rumos do Curdistão, uma decisão em massa pela independência poderá forçar o governo a um conflito com Bagdá.

 

E os EUA ficarão na difícil situação de, mais uma vez, terem de optar por um dos seus aliados, deixando o outro na mão. Esse dilema já está posto na Síria.

 

Washington já sinalizou que deixará os curdos na mão quando Biden os ameaçou, caso não entregassem Mobiji aos turcos.

 

Vale mais a pena a amizade da Turquia, que tem muito mais peso do que os curdos, ainda mais agora que Erdogan está se fazendo de difícil. Ele exige não só o abandono dos curdos sírios como também a extradição do seu rival Gulen. E dá mostras de que, não sendo atendido, poderá causar muitos estragos.

 

Já vem se aproximando da Rússia e do Irã, tendo até acenado com uma possível mudança em sua atitude na guerra contra o governo Assad.

 

Não será no fim do seu governo que Obama deixará isso acontecer. Apesar do seu futuro provavelmente sombrio, os valorosos curdos não baixam as armas.

 

Vale citar o comentário de Joshua Landis, diretor do Centro de Estudos do Oriente Médio, da Universidade de Oklahoma: “certamente, os curdos se sentem traídos. E eles foram traídos. Tenho certeza de que as Forças Especiais dos EUA, que trabalharam com os curdos nos últimos dois meses, estão se sentindo muito envergonhadas, porque eles sentem que mentiram ao encorajarem os curdos a fazer o trabalho pesado”.

 

 

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Luiz Eça é jornalista.

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Última atualização em Sexta, 09 de Setembro de 2016
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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