Brasil e as olimpíadas: a execução da diplomacia lúdica

 

 

 

 

Encerrados há poucos dias no Rio de Janeiro, os Jogos Olímpicos registraram o desempenho satisfatório do Brasil, ao atingir o décimo terceiro lugar, com dezenove medalhas, entre as quais sete de ouro.

 

Diante disso, completa-se o inédito ciclo da diplomacia lúdica da administração trabalhista, iniciada durante a gestão de Lula da Silva, ao sediar o país em menos de uma década três grandes competições – além das mencionadas Olimpíadas, o Pan-Americano em 2007, também no Rio, e a Copa do Mundo em 2014, em várias cidades.

 

Servem-se os governos das celebrações esportivas contemporâneas para a exaltação do desenvolvimento da sociedade sob sua liderança. Justificam-se os vultosos gastos como a maneira mais adequada de divulgação a todo o planeta de um povo.

 

Além da constituição da infraestrutura específica, direcionada para diversos segmentos da população, como estudantes, por exemplo, há a ampliação do segmento do turismo com a expectativa de que os visitantes não somente retornem como divulguem o local a seus concidadãos.

 

Ao cabo de 2009, duas cidades prontificaram-se com mais exultação a abrigar o maior evento desportivo do globo: Chicago, município do qual se originou de forma política o atual presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e Rio de Janeiro, localidade na qual se expressava com vigor a aliança política da coligação petista-peemedebista. Sem muitas chances ou até sem impulso na concorrência, figuraram na seleção Tóquio e Madri.

 

Na ocasião, o dirigente estadunidense dispendeu algumas horas na sede de escolha do Comitê Olímpico Internacional (COI), situada em Copenhague, ao passo que o mandatário brasileiro dedicou-se com perseverança à indicação da antiga capital do país, ao aludir até à questão de que entre as dez maiores economias do globo apenas o Brasil não havia ainda acolhido aquele espetáculo desportivo. Outrossim, seria a primeira vez do continente sul-americano de abrigar os Jogos.

 

Outra justificativa para a solicitação era o fato de a economia estar, em tese, bastante bem, amparada no caso do Rio de Janeiro nas reservas petrolíferas do pré-sal, da qual o Estado extraía parte de sua arrecadação.

 

Estimava-se um custo de quase 15 bilhões de dólares à barriga forra para a inédita empreendida olímpica, dos quais boa parcela seria destinada a revigorar a infraestrutura, em parte feita para o Pan-Americano de 2007.

 

Na manifestação do governo brasileiro, a crise econômica mundial havia chegado ao seu território com menor força. Por isso, ele havia saído antes dela. O otimismo beirava, como se observa, a jactância.

 

Afinal de contas, era a terceira candidatura em pouco mais de uma década: nas inscrições anteriores, a cidade nem sequer havia passado da fase inicial. Em 2009, ela teria dois terços dos votos finais ao contrapor-se a Madri. A ufania com a possibilidade de sediar o evento foi tamanha que o presidente Lula da Silva afirmou:

 

“(...) eu sempre achei que tinha uma coisa que faltava para o Brasil. Nós somos um país que foi colonizado e pelo fato de termos sido colonizados, nós tínhamos mania de ser pequenos, nós tínhamos mania de não sermos importantes, nós sempre achávamos que os outros podiam e que a gente não podia (...) essa vitória para mim é: o Brasil ganhou, definitivamente, a sua cidadania internacional. Nós não somos de segunda classe, somos de primeira classe, não tem nem ninguém melhor, nem ninguém pior, pode ter igual, é assim que nós queremos ser e essa vitória significa isso”.

 

De todo modo, as Olimpíadas teriam outro competidor ao longo de sua realização perante a opinião pública: o julgamento da destituição da presidente Dilma Rousseff. Nesse, independente do resultado, houve um único perdedor, em vista do desinteresse social das duas agremiações pleiteantes à permanência no poder: a população.

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e é professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

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