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Escrito por Roberto Andrés   
Sábado, 03 de Setembro de 2016
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O patrulhamento está aumentando por aqui. As menções aos "isentões", muitas vezes de maneira violenta, fazem crer que Dilma caiu por culpa exclusiva de algumas pessoas que não quiseram se alinhar a uma corrente, a um modo de narrar.

 

Os ataques podem servir para distribuir culpa e rancor, mas não ajudam em nada a combater a oligarquia que assumiu o poder de vez. Útil mesmo seria entender, investigar, refletir o porquê do povo brasileiro não ter ido às ruas contra o impeachment. Em que lugar, afinal, o projeto do PT se distanciou da sociedade e das maiorias sociais que um dia fizeram parte dele?

 

O patrulhamento vem em tom de cobrança. Você fica contra a parede, devendo assumir a culpa por não ter "lutado contra o golpe". Mais uma vez, ninguém está patrulhando o povo, a maioria negra, pobre e periférica que não foi às ruas. Para fazer isso, teria que ter autocrítica.

 

Os aumentos irregulares da tarifa de ônibus em BH, nos últimos anos, constituíram violações legais e a direitos cidadãos. A cada aumento da tarifa, para benefício de alguns engravatados, a cidade se faz mais injusta, o número de mortes no trânsito (dos mais pobres) aumenta etc.

 

Estive nas ruas e nas redes contra esses aumentos. Nunca patrulhei os amigos que não se mobilizaram. Imaginem se, a cada vez que perdemos na justiça, começássemos a atacar e chamar de hermeneutas blasés aqueles que não estavam nessa luta?

 

Belo Monte foi um dos maiores casos de violação de direitos do Brasil recente (http://bit.ly/1HQSH4t). Ali, o Estado brasileiro se juntou às empreiteiras e passou por cima da lei diversas vezes, com grande violência aos moradores de Altamira, aos rios etc.

 

Belo Monte foi o projeto central de Dilma, que ela tocou desde o primeiro governo Lula. Nunca foi uma concessão, mas um projeto prioritário, tocado com autoritarismo. Os ativistas do Xingu Vivo, vários deles fundadores do PT, sentiram o golpe quando Dilma deu um murro na mesa e disse: "Belo Monte vai sair". Isso em 2004.

 

Seria o caso de patrulhar e ojerizar todas as pessoas que, por razões diversas, não se manifestaram contra Belo Monte, incutindo neles a culpa pela obra ter sido levado a cabo e causado tanta destruição?

 

Nas eleições de 2014, a máquina governista fez a operação de transformar tudo que não era o PT (com exceção do PSOL, que não tinha chances reais) em extrema-direita. Foi o jeito que encontraram para enfrentar a candidatura de Marina Silva, uma candidatura de centro-esquerda bastante próxima do primeiro governo Lula, como apontou o Moysés (http://bit.ly/2bEzwxX).

 

Fui percebendo o quanto há de totalitarismo nesse tipo de operação, na verdade um dispositivo de captura que faz com que a única saída possível seja o PT, ou, agora, Lula. Com uma mão te dão o medo e, com outra, a alternativa.

 

Por isso nunca quis comprar a narrativa, como foi vendida, do golpe. Não por desacreditar que haja uma irregularidade em curso, mas porque, do jeito que ela vem empacotada, leva a crer que havia um governo promovendo mudanças progressistas e o golpe o interrompeu.

 

Como vários ex-ministros de Dilma hoje são ministros do Temer, e algumas das medidas de austeridade já vinham sendo tomadas, vejo também bastante continuidade entre os dois governos. O golpe, sem dúvidas, é no povo brasileiro, mas parte dele já estava sendo dado pelo governo deposto.

 

Como achei que essa discussão por aqui não andava, optei por me calar ou intervir poucas vezes. Fui para a rua, trabalhar junto com muitas pessoas na criação de alternativas para a política local. Foram 18 meses de trabalho de formiguinha no Cidade que queremos BH, com conversas nas ruas, aproximações, trocas, aprendizado.

 

O processo se desdobrou e cresceu. Acho que estamos experimentando um fazer político que pode contribuir nos anos obscuros que vem por aí.

 

Não vou patrulhar ninguém por participar ou não participar de seja o que for. Não vou culpar o outro por não conseguir convencê-lo da minha tese. O momento é de construir pontes e de caminhar com respeito à diversidade de opiniões.

 

 

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Roberto Andrés é urbanista, professor da UFMG, editor da revista PISEGRAMA.

 

 

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Última atualização em Sexta, 09 de Setembro de 2016
 

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