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Da FIESP ao “baixo clero” do Congresso, Temer não conseguirá administrar as pressões ao seu redor Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Sábado, 03 de Setembro de 2016
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Após 20 meses, chegou ao fim o segundo mandato de Dilma Vana Rousseff, primeira mulher a presidir o Brasil e destituída num intrincado processo de impeachment. De toda forma, na entrevista que o Correio da Cidadania publica com o cientista político Ruda Ricci, vemos o diagnóstico de uma longa série de erros que mataram o apoio popular, tornaram seu governo natimorto e abriram caminho para uma presidência que pode levar o país ao “esgarçamento social”.

 

“O que já está em curso há quatro meses, e vai continuar, é a desmontagem do estado social, já frágil, do Brasil. Temer teve muita sorte na vida, mas é insensível, sem envergadura política, sem nenhuma elaboração para o país, um político frágil, que tem apenas 10% de popularidade. E hoje é dominado pela FIESP e o baixo clero, que do ponto de vista financeiro têm posições opostas; o primeiro quer conter recursos; já o baixo clero quer liberá-los para suas bases eleitorais. Michel Temer não consegue conter e administrar essa pressão”, analisou.

 

Ao longo da conversa, Ricci, que publicou o livro Lulismo (ed. , 2007), critica a postura dúplice do PT ao longo do processo, já praticamente decidido há meses, inclusive com considerável anuência do partido “golpeado”. Ricci também destacou que nem tudo foi obra dos “inimigos” do lulopetismo, uma vez que setores da população que respaldaram sua reeleição prontamente se divorciaram de sua agenda de austeridade.

 

“Como podemos ter dúvidas de que a maioria da população iria retirar o apoio à Dilma? Não foi a Rede Globo, nada relacionado à grande imprensa, mas porque a população pobre do Brasil é sábia e não apoiou o retrocesso. Em um mês a Dilma já tinha perdido 30% do que havia conquistado de apoio popular nas urnas. Em três meses 50%. É a população dizendo: ‘ah, você é da elite como os outros? Então nós não apoiamos você’”, afirmou.

 

Quanto ao futuro, Ruda Ricci considera que o governo Temer reinaugura, de forma explícita, a luta de classes brasileira, um tanto adormecida pela fórmula de sucesso que contentou amplos e diversos setores da sociedade nos mandatos de Lula.

 

“A partir de agora, se há alguém que acha que com o Temer nós vamos estabilizar e ter paz social, é muito desinformado, possivelmente insensível e incapaz intelectualmente de fazer uma leitura do fato de que em um país rico com altíssima desigualdade social não há como a direita e os liberais terem maioria ou apoio da maioria da população. Se o lulismo fragmentou os interesses sociais por negociação corporativa, o Temer está unificando todos os movimentos sociais da esquerda do Brasil”.

 

A entrevista completa com Ruda Ricci pode ser lida a seguir.

 

Correio da Cidadania: Como você assistiu e sentiu o trâmite final do processo de impeachment de Dilma, apreciado e votado no Senado ao longo da última semana?

 

Ruda Ricci: Não houve absolutamente nada de novo ou imprevisível. Já se sabia há um mês que seriam 60 votos pelo impeachment no Senado. A decisão começou com o acatamento da Câmara da denúncia contra a Dilma. Ali, pra recordar, tínhamos um domínio do baixo clero, como já há muitos anos, que é financiado especialmente pelo empresariado de SP, ligado à FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), inclusive Eduardo Cunha. O que aconteceu na Câmara, naquele momento, foi um profundo constrangimento de caça aos votos da FIESP, que liberou alguns jatinhos. Há quem diga que cada voto custou entre 6 e 8 milhões de reais. Pra não falar do constrangimento de sites, como o R7, que ameaçavam divulgar lista de nomes de deputados envolvidos com prostitutas. A imoralidade do jogo já era muito pesada.

 

Quando a Câmara acatou a denúncia, evidentemente, o baixo clero viu um risco. Se Dilma Rousseff não sofresse impeachment, a possibilidade de os deputados que votaram a favor não terem financiamento nas eleições deste ano era grande, já que seus cabos eleitorais são prefeitos e vereadores. Portanto, significava que os deputados tinham de pressionar a bancada do Senado, o que de fato ocorreu.

 

Logo após a votação da Câmara, o que vimos no Senado foi a situação da Dilma se agravar. Nos últimos momentos, tivemos um papel decisivo de Lula e PT na eleição de Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. Na medida em que Lula se envolveu neste acordo, estava selada a sorte de Dilma. Portanto, estou dizendo claramente que parte do PT fez acordo na Câmara pra que Dilma não voltasse.

 

As discussões que acompanhei, inclusive entre dirigentes nacionais do PT, era de que o melhor seria a Dilma não voltar, pois teria seu governo absolutamente interditado, pelo alto empresariado e Congresso, o que poderia agravar mais ainda a situação do partido. Assim, ao não voltar, ela seria vitimizada e com as politicas sociais e econômicas adotadas pelo Temer, suicidas do ponto de vista politico e social, o PT poderia retomar, a partir de 2017, sua capacidade eleitoral, podendo até fazer o presidente em 2018.

 

Portanto, não é surpresa alguma o desfecho. Tanto que no acordão a Dilma não teve seus direitos políticos cassados, de modo que em dois anos pode se eleger senadora pelo Rio Grande do Sul.

 

Correio da Cidadania: O que achou da postura e discurso da presidente Dilma em sua defesa?

 

Ruda Ricci: Ela chegou tarde, acima de tudo. Durante quatro, cinco anos, foi uma pessoa inflexível, que não atendeu os movimentos sociais. Em 2013, fazia um ano que os movimentos não se encontravam com a presidente. Depois das manifestações de junho, ela chamou os movimentos. Já conversei com muitas pessoas que estiveram nessa reunião e todos se diziam surpresos e muito irritados com ela. Tivemos tensões de Lula e apoiadores, como Gilberto Carvalho, com ela durante todo o tempo. CNBB, comissões municipais, CUT se afastaram muito do Planalto. Depois, no total desalento, Dilma saiu a campo, coisa que nunca fez desde que foi eleita pela primeira vez. Escreveu cartas, arrecadou dinheiro, fez caravanas para defender o mandato, foi ao Senado, e com brios, apontando aos senadores, falando que nunca recebeu recursos escusos de campanha. Era tarde.

 

Na verdade, um teatro. Ela tentou salvar a biografia. Ela voltou a ser brizolista nesses momentos. Dilma nunca foi petista, nunca esteve vinculada a princípios e concepções originais do PT e de movimentos, nunca foi da direção nacional do partido. Ela sempre foi brizolista, getulista, trabalhista. Aliás, há muito tempo não se via tanto trabalhista falando grosso. O marido dela, por exemplo, deu uma importante entrevista, ao passo que nas redes sociais falavam que “os petistas são covardes, nós não”. E o PT, sem dúvida, se acovardou, teve medo do enfrentamento.

 

Agora, vemos que quem sai na rua não são os petistas. São movimentos populares das periferias e a esquerda que diariamente vai enfrentar o governo Temer.

 

Correio da Cidadania: O que vislumbra para os próximos tempos com a entronização de Michel Temer? Acredita que podemos adentrar tempos de instabilidades, e até quedas, nos próximos tempos, talvez com alguma semelhança com a Argentina entre 2001 e 2003?

 

Ruda Ricci: Já entramos nesse período. Não sei se o Temer, como aconteceu com o De la Rúa, vai pegar o helicóptero e fugir do Palácio do Planalto. Não sei se chega a isso. Quarta-feira não teve nada de importante no Brasil. Importante foi há quatro meses, quando começou o mandato interino. Ali começou o pacote de maldades. Quem acha que essa semana foi importante é quem pensa que a luta institucional é o centro da política de um país. Nunca foi. O centro é o embate cotidiano, inclusive nas ruas. E foi aí que o Temer conseguiu manobrar, porque o PT saiu das ruas.

 

Assim, o governo petista já estava completamente entregue à corte. Não foi quarta-feira, que não teve importância alguma. Neste dia vimos apenas um teatro mambembe, que simplesmente confirmou a lacuna jurídica do Brasil, absurdo total que gera impeachment sem prova e retira a pessoa do poder por um crime e mesmo assim lhe assegura os direitos políticos. Só um país mambembe faz algo assim.

 

O que já está em curso há quatro meses, e vai continuar, é a desmontagem do Estado social, já frágil, do Brasil. Num país que é a oitava economia do mundo, o mais rico da América latina, com esse IDH, abaixo da média da América latina, país tão rico e desigual, precisamos de Estado social forte. E o Temer está desmontando isso porque é cruel, é um politico pequeno, sem expressão nem mesmo em São Paulo. Teve a sorte de assumir a presidência do PMDB em função das dificuldades do Valdir Raupp em distribuir recursos, conforme depoimento recente da Lava Jato. Havia um acordo em 2013 para ele ser indicado ao STF, o que exigia alteração da idade máxima para ministro da corte, o que foi feito, e Sérgio Cabral seria o vice de Dilma. Cabral caiu por causa da desmoralização política que sofreu naquele ano. Temer teve muita sorte na vida, mas é insensível, sem envergadura política, sem nenhuma elaboração para o país, um político frágil, que tem apenas 10% de popularidade. E hoje é dominado pela FIESP e o baixo clero, que do ponto de vista financeiro têm posições opostas; o primeiro quer conter recursos; já o baixo clero quer liberá-los para suas bases eleitorais. Michel Temer não consegue conter e administrar essa pressão.

 

Se prosseguir no pacote econômico que já anuncia, colocará o país numa rota de esgarçamento social, como ocorreu, por exemplo, na Grécia. Total desamparo à maioria da população, e eleitores, com grande dificuldade de manejo político. Isso pode levar, no ano que vem, o baixo clero que o apoiou no impeachment a se aventurar na cassação de seu mandato, através do processo que está no TSE. É possível que o próprio Congresso que acaba de derrubar a Dilma eleja um novo presidente, de forma indireta. É uma possibilidade real.

 

Com isso, o governo Temer passará por chantagens diárias no Congresso e mobilizações fortíssimas de rua, da esquerda não petista e de movimentos sociais, como o MTST, quem têm força ainda. Quem está indo nas periferias dos grandes centros sabe o que vem por aí de agora em diante. Manifestações quase diárias, como já vemos e veremos neste fim semana. O país entra em rota de colisão. A quarta-feira apenas anunciou a aventurai iniciada há quatro meses e vai, irresponsavelmente, levar o país a uma colisão social muito forte.

 

Correio da Cidadania: Considera que há risco real de fechamento democrático, para além da retórica dos setores ligados ao PT?

 

Ruda Ricci: Não. Porque não há consenso nenhum no bloco de poder que assumiu o governo. Ele não se compõe. Ele se divide, a exemplo do baixo clero e da Fiesp. É transversal aos partidos, há brigas internas muito grandes. O Caiado já rompeu com o governo Temer na própria quarta-feira do impeachment. Houve uma mobilização muito grande na Câmara dos Deputados, na qual os assessores de várias bancadas chegaram a afirmar que o Temer estava desesperadamente segurando o PSDB no governo.

 

A leitura que faço é que começou a chantagem. Ou seja, um presidente fraco como ele será chantageado como Dilma foi. Ele tem o mesmo índice de popularidade de Dilma, e o que ocorreu com ela se repetirá com ele. O problema é que ele não sabe a quem ceder. O que o PMDB sempre foi com a Dilma o PSDB será agora. Ou seja, um governo muito instável.

 

Não vejo possibilidade de fechamento democrático, até porque já vivemos o Estado de Exceção, dentro do conceito de Agambem. Isto é, uma ação lacunar em relação à suspensão de direitos ou de certa lógica jurídica democrática, mas dentro da ordem constitucional. O problema do Brasil são lacunas jurídicas que ferem a lógica democrática. Rapidamente: como pode um Congresso definir o futuro de uma autoridade pública eleita pela população? Ou seja, como pode um deputado ou senador eleito pela população (portanto, seu mandato é de origem e propriedade do eleitor) decidir rumo e futuro de outra autoridade também eleita pelo cidadão? Este instituto legal é absurdo do ponto de vista democrático. Quem retira o poder pelo voto é quem votou.

 

Mas no Brasil é assim. Pior: o vice-presidente da República conspirou abertamente contra sua colega de chapa. Isso sim é crime de responsabilidade na legislação brasileira. E mais: montou um governo interino e seu ministério trazendo peças que foram derrotadas pelas urnas. É uma lacuna jurídica e uma contradição que fere completamente a democracia brasileira. Mas não estamos vivendo uma ditadura. O nome correto é Estado de Exceção.

 

Nós temos uma lei federal contraditória, que tem hiatos gravíssimos, onde não é restringida a um presidente interino a possibilidade de ele trazer ao centro do governo quem o eleitor derrotou nas urnas e não queria governando o país. É um país que realmente tem muitas dificuldades de entender o que é a democracia.

 

Portanto, não é que corremos o risco de acabar com a democracia no Brasil. Nós vamos continuar a viver essa situação porque do ponto de vista formal e legal a democracia brasileira é incompleta, inacabada, contraditória. É o que precisamos entender. Temos de parar de fazer leituras exageradas, extremadas. Temos de entender o Brasil como ele é hoje. Não estamos correndo risco para o futuro. Já corremos risco desde a Constituição de 1988 e é isso que não se quer discutir.

 

Correio da Cidadania: Como você relacionaria o atual momento com as massivas manifestações de 2013 e como as manifestações comandadas pela direita entre 2015 e 2016 se situam no meio disso?

 

Rudá Ricci: Em primeiro lugar, a direita no Brasil sempre perdeu eleição. Vamos começar a colocar os pingos nos “is” e ordem na análise. A direita nunca ganhou eleição no Brasil. Nem em 1964 a população aprovou. Segundo pesquisas que hoje sabemos que Ibope fez na época, quase 70% dos brasileiros queriam a permanência de João Goulart.

 

A direita nunca foi popular. É que às vezes nos confundimos porque a maioria da população pobre, muito pobre, é sábia e fica em silêncio. A maioria da população brasileira não saiu às ruas em 2013, não saiu em 2014, nem em 2015 e nem em 2016; não bateu panela e nem ficou seguindo patinho amarelo. A maioria da população brasileira é aquela que está dizendo que se a eleição fosse hoje o primeiro lugar ficaria com Lula. A população brasileira é essa que está colocando Luciana Genro em primeiro lugar em Porto Alegre, com 27% das intenções de votos. Só 10% apoiam Temer. A população brasileira é aquela que coloca o Marcelo Freixo em primeiro ou segundo lugar nas eleições do Rio de Janeiro, que coloca Edmilson em primeiro lugar em Belém do Pará, Erundina em terceiro em São Paulo.

 

Precisamos fazer uma leitura clara do que é o país. O Brasil é um país majoritariamente de pobres. Uma coisa é um pobre que sempre foi pobre e vai continuar sendo. Portanto, está absolutamente desalentado e não tem esperança em relação ao seu futuro; a outra coisa é um pobre que melhorou de vida, e muito, nos últimos anos e agora está voltando à vida anterior. É muito diferente. Esse pobre sabe que o Estado pode ajudar. E o Temer não irá retirar o que ele ganhou nos últimos dez anos, mas voltar ao arcabouço do Estado Social para 1950, ou até antes. O atraso é de mais de meio século.

 

Vou citar aqui uma análise que vi na semana passada do professor Ricardo Antunes, da Unicamp. Ele diz: “o que o Temer conseguiu fazer no Brasil nos últimos quatro meses foi escancarar a luta de classes. A luta de classes hoje no Brasil está aberta. Não há mais dúvidas do que está acontecendo. Quem está indo para as ruas nesses dias não é quem defendeu Dilma”. Tem que ficar muito claro.

 

Quem está saindo na rua majoritariamente e convocando manifestações é quem era contra a conciliação lulista de interesses. Gente que está nos morros, nas periferias dos grandes centros, gente que está perdendo direitos. É muito diferente ser comandado por gente que estava no topo do Estado brasileiro, a administrar o aparelho público estatal, de quem está defendendo a própria sobrevivência, as 11 mil casas que Dilma tinha sancionado e Temer disse que vai cortar. Que está defendendo o SUS e as políticas pelo fim do analfabetismo, agora abolidas pelo Temer. Ou seja, gente que está desesperada e discutindo na periferia – e a classe média não sabe disso.

 

No final de semana, estive, por exemplo, em Suzano e pela zona leste de São Paulo, onde estávamos discutindo a PEC 241 do Temer. E isso a classe média não sabe: a periferia está discutindo o que Temer está fazendo. É o pessoal que está saindo na rua e vai enfrentar qualquer tipo de batalhão de choque porque está lutando por sobrevivência. Não é uma luta ideológica. É por sobrevivência. E tal luta vai ocorrer no Brasil numa escalada cada vez maior até 2017.

 

A partir de agora, se há alguém que acha que com o Temer nós vamos estabilizar e ter paz social, é muito desinformado, possivelmente insensível e incapaz intelectualmente de fazer uma leitura do fato de que em um país rico com altíssima desigualdade social não há como a direita e os liberais terem maioria ou apoio da maioria da população. Michel Temer exagerou e politicamente revela inabilidade, porque ao invés de tentar implantar uma reforma de cada vez, em quatro meses inaugurou frentes que atacam direitos dos trabalhadores de todo o país.

 

Se o lulismo fragmentou os interesses sociais por negociação corporativa, se fragmentou os movimentos sociais por temas (saúde, questão racial, mulheres, educação etc.), o Temer está unificando todos os movimentos sociais da esquerda do Brasil, pela ânsia de destruir os direitos de todos esses segmentos. Até mesmo setores mais pragmáticos, de luta por moradia, saúde e outros, que negociam com todos, com o Temer não têm saída. Assim, estão indo para a esquerda porque não há mais o que negociar.

 

Temer está atacando todos os direitos. É importante entendermos que as manifestações vão continuar e vão entrar em 2017. O Temer inaugurou, como disse meu colega Ricardo Antunes, a luta de classes aberta em nosso país.

 

Correio da Cidadania: Em resumo, o que teria levado a uma débâcle tão estrepitosa do governo petista, após anos de euforia e consagração internacional?


Rudá Ricci: Por vários motivos. Nos anos de Lula a política social avançou, mas politicamente andamos para trás. Os conselhos de gestão pública foram transformados praticamente em rituais burocráticos, não aumentamos seu poder. Na educação, trouxemos propostas ou norte-americanas ou muito atrasadas, como é o Ideb, que avalia alunos por número. Recuamos em relação às discussões da década anterior, como a volta da humanização da discussão sobre currículo das reformas educacionais, por exemplo. Não avançamos no orçamento participativo. Houve um esboço em 2003 das audiências públicas para monitorar o PPA (plano plurianual) e foi abandonado.

 

Politicamente, o lulismo aumentou o poder dos deputados federais, que passaram a negociar com os prefeitos o convênio com ministérios e Caixa Econômica para políticas federais. Assim, Lula tirou recursos das prefeituras para colocar no governo federal, a fim de nacionalizar programas nacionais de infraestrutura e na área social. E o deputado federal surgiu como aquele que fazia a mediação para os prefeitos, que ficaram reféns dos deputados e seus recursos federais. Ou seja, foi um atraso político. Lula, com certo getulismo, fragmentou a demanda dos movimentos sociais e o lugar para negociar. Fragmentou os movimentos sociais, retirou as entidades de mediação na rua e colocou dentro do Estado. Isso foi muito importante e pouco discutido.

 

Já nos governos Dilma Rousseff, nós fomos caminhando, principalmente a partir de 2013, para a direita. A Dilma no final de 2013 e início de 2014 financiou ou possibilitou a ida de polícias militares e polícia federal para os Estados Unidos, para treinarem junto a Blackwater. Está na imprensa! A Blackwater é um grupo paramilitar mercenário que matava civis nas guerras do Afeganistão e do Iraque. E o governo Dilma começou a incentivar a criação da Lei Antiterrorismo. Isso é ser de direita.

 

Na mesma época, falou que os meninos que estavam em manifestação eram terroristas. O governo Dilma é o que em janeiro de 2015 baixou um pacote monetarista e aumentou o desemprego, o inverso do que ela falou em 2014 durante o processo eleitoral. Como é que podemos ter dúvidas de que a maioria da população iria retirar o apoio à Dilma? Não foi a Rede Globo, nada relacionado à grande imprensa, mas porque a população pobre do Brasil é sábia e não apoiou o retrocesso.

 

Em um mês a Dilma já tinha perdido 30% do que havia conquistado de apoio popular nas urnas. Em três meses tinha perdido 50%. Isso não tem nada a ver com a TV e a direita. É a população dizendo: “ah, você é da elite como os outros? Então nós não apoiamos você”. E é por isso que o governo Dilma se destroçou em termos de popularidade e o Lula continua popular – mesmo afetado pela crise do PT.

 

Estou dizendo com todas as letras que o PT no último período se tornou conservador. Não é um partido de esquerda e destruiu os laços históricos que tinha com a base social. O PT se “peemedebizou”. Tornou-se um partido muito popular, de voto popular, mas de política gelatinosa, que não nos permite entender o que quer afinal. Foi punido pelo eleitor pobre. Assim como Temer está sendo punido. É ou não é coerente? Claro que é.

 

Correio da Cidadania: O que será do lulismo daqui em diante? Dentro disso, como imagina a esquerda, de modo geral, nos próximos anos?


Rudá Ricci: O lulismo tem duas saídas: o próprio Lula ou Ciro Gomes. Mas o lulismo não tem como sair do PT. O PT deve ser um partido menor já no próximo ano. Deve perder muitos deputados e prefeitos, não nas eleições, mas porque sairão do partido. Há anúncios já feitos nos bastidores em relação a isso e só estavam aguardando o processo de impeachment para não serem desleais a Dilma Rousseff.

 

Devemos ter a partir de agora uma miríade de partidos de esquerda. Como o caso do Partida, criado pela Márcia Tiburi, que será o partido feminista, a Frente Favela Brasil, criada agora, um partido de negros e favelados. Ou o caso do Raiz Movimento Cidadanista, criado pela Luiza Erundina e pelo Celio Turino, ou o PSOL. Mas acho que a rigor a noção de esquerda popular vem dos movimentos sociais. E nesse caso o maior movimento social do Brasil, na atualidade, é o MTST dirigido pelo Guilherme Boulos.

 

O PT será apenas mais um partido e ele tem que se decidir se é de esquerda ou não. Aquela frase do Lula, “eu não sou de esquerda, não sou socialista, eu sou metalúrgico”, ficou no passado. Foi muito bonitinha naquele período, mas hoje não tem validade nenhuma. Ele tem que decidir. Mas de qualquer maneira, Lula é maior do que o PT. Quer dizer que o PT vai se enfraquecer, mas não está claro se o Lula vai se enfraquecer. Por isso que ele é perseguido e ameaçado quase diariamente. Toda vez que aparece uma pesquisa com o Lula à frente, há uma série de ameaças de que ele vai ser preso, foi indiciado etc. Não é por acaso. É uma luta política e econômica aberta, que contaminou todas as esferas das instituições brasileiras.

 

De qualquer forma, há uma alternativa no campo lulista com o Ciro Gomes, caso o Lula não possa. Eu acho importante termos claro que o eleitor brasileiro que é pobre vota numa certa identidade, inclusive visual. Veja que os dois mais citados pela maioria dos eleitores como prováveis destinos dos seus votos em 2018 são pessoas com “cara de pobre”, ou que vieram da pobreza: Lula e Marina Silva. Se a maioria do eleitorado não tem uma leitura ideológica, tem uma leitura pelo menos por identidade de classe, e não é de classe média. Importante entender que por isso e pelo histórico de presidente, Lula continua muito mais forte do que o PT.

 

Correio da Cidadania: Como a destituição da presidente Dilma deve se refletir nas eleições municipais?


Rudá Ricci: Deve se refletir só nas capitais. Vamos lembrar que mais de 80% dos municípios brasileiros têm menos de 40 mil habitantes. Nessas cidades pequenas as pessoas se conhecem. O candidato a vereador e a prefeito é um vizinho. Por causa disso, a questão ideológica é praticamente nula no Brasil. O que se tem são grupos de famílias ou grupos políticos que alinham quase a cidade inteira de um lado ou de outro. Grande parte dos municípios brasileiros tem apenas dois candidatos a prefeito. Alguns têm somente um candidato a prefeito. Portanto, eleição municipal é movida por interesses muito peculiares, de ruas, bairros, famílias.

 

Nos grandes centros urbanos, as questões dos interesses grupais e de classe são mais nítidas. O debate sobre a questão nacional vai influenciar os grandes centros urbanos e capitais do país. Mas na grande maioria dos cinco mil municípios do Brasil não vai influenciar em absolutamente nada. Inclusive temos pessoas com perfil progressista que estão em partidos do centro e do centro-direita por conta da legenda. Muitos petistas em alguns estados foram do PROS ou da REDE e vai ser muito difícil depois tentar computar os resultados das eleições no Brasil se o recorte for partidário. Muitos partidos do Brasil são satélites de partidos mais fortes.

 

Na grande maioria dos municípios brasileiros, a questão nacional e o impeachment não vão influenciar em nada. Mas nos grandes centros urbanos e capitais brasileiras vai influenciar, por terem manifestações quase diárias desde o impeachment.

 

 

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Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

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Última atualização em Sexta, 07 de Outubro de 2016
 

A publicação deste texto é livre, desde que citada a fonte e o endereço eletrônico da página do Correio da Cidadania




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