Golpe é a preservação de um sistema político podre contra todos nós

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Como esperado, Dilma Rousseff (PT-RS) foi definitivamente afastada do cargo de presidente com 61 votos ante os 54 necessários para tal. Ainda que tenha desempenhado uma performance acima de qualquer expectativa na segunda (29/8), se posicionando frente a questões dos senadores que a julgaram por cerda de 14 horas, isso não foi suficiente para reverter a votação de maio, que lhe afastara provisoriamente. Pelo contrário, a diferença aumentou.

 

Michel Temer (PMDB-SP) assume a presidência e, na mesma quarta (31/8), Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, assume o cargo por conta da viagem à China que vai promover Temer como estadista global na reunião do G-20, com líderes mundiais como Obama e Merkel, entre outros. O golpe está dado e pode ser resumido no afastamento do PT para ter seu lugar ocupado por PSDB e DEM.

 

No entanto, o buraco é mais embaixo. O problema é que o sistema político está apodrecido e descolado da sociedade. Neste sentido, como parte desse sistema político, o PT foi parte do golpe, primeiro ao isolar Dilma para pavimentar a candidatura de Lula (PT-SP), depois ao propor um acordo para salvar os direitos políticos de Dilma, que deveria ficar inelegível por oito anos na letra da lei. A aprovação dessa anistia mostra a capacidade regenerativa do sistema político e a participação do PT em tal processo, bem como um efeito do desempenho performático de Dilma na segunda (29/8). Não haverá surpresa se em breve Eduardo Cunha (PMDB-RJ) for condenado e tenha direitos políticos também preservados.

 

Não há inocentes, nem entre os golpeados de sempre: nós, ordinárias pessoas que recebem os efeitos de um sistema político que se preserva, que mantém o status quo, que é mais do mesmo e, provavelmente, terá como desdobramento previsível o travamento definitivo da Operação Lava Jato. E não há um partido sequer que esteja a fazer a diferença no momento. Para 2018, teremos uma eleição fragmentada com o partido único, ou seja, todos em vertentes de uma contínua defesa da austeridade e de uma democracia de baixa escala. E ainda vão tentar entender a descrença e desesperança na política institucional que se clarifica nos tempos que correm.

 

Um efeito claro e triste de toda essa disputa que consumiu nove meses da vida política brasileira será o esmagamento das eleições municipais, tidas como possibilidades senão de inovação de reconfiguração das forças políticas, mas serão absorvidas pelo cenário nacional. As candidaturas locais que se engajaram na luta contra o golpe, muito mais discursiva do que prática, vão sofrer mais ainda as consequências de não terem se voltado para discutir as questões locais e sedimentar as pautas que importam para a população que em sua maioria está descolada desse processo, tratando com indiferença marcante para quem consegue sair às ruas.

 

Para não ficar no beco sem saída, neste momento não podemos adiar a recomposição necessária do campo de oposição ao que teremos como establishment, materializado em Temer, mas não na figura e, sim, no que ele representa em termos de interesses que perpassam o tecido estatal: a intensificação do ajuste fiscal, as medidas de austeridade, a reforma da previdência quando setembro chegar, a reforma trabalhista até o fim do ano, a perda de direitos, o maior contingenciamento de gastos de áreas como saúde e educação, ao menos os pontos mais evidentes.

 

Precisamos resistir e ir além, construir alternativas e, se a seara institucional está cada vez mais fechada e previsível, é na sociedade que poderemos, através de organização e luta, constituir novas possibilidades de construção democrática e mudança social que beneficie a todos, e não somente uma casta. O desafio aumenta e não cabe a depressão, que virá para muitos. Afinal, o golpe foi contra todos nós, ordinários que somos, golpeados a todo instante, uns mais que outros.

 

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Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador colaborador da UERJ.

 

 

 

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