Sempre reunidos, jamais unidos

 

 

 

 

Reunite aguda é uma grave enfermidade que já deveria figurar nos anais da medicina. Há governos que fracassam porque o funcionalismo público se consome em excessivas reuniões para decidir se devem comprar clipes prateados ou coloridos. Nas igrejas se diz que, quando Jesus voltar, encontrará o rebanho reunido, mas não unido.

 

A soma de reuniões dos dirigentes da Olimpíada do Rio para reduzir o caos no trânsito da cidade superou o número de eventos, entre treinos e competições, de todo o torneio. E o caos só aumenta...

 

Cura-se mais rápido uma doença quando se conhece a sua etiologia. Quando surgiu, pela primeira vez, a síndrome da reunite?

 

Consta que a primeira reunião foi há um tempo inqualificável pela ciência – até porque não havia tempo -, quando as três Pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, se reuniram para decidir quando haveriam de criar o Universo.

 

Hoje sabemos que teve início no Big Bang, ocorrido a 13,7 bilhões de anos. Se houvesse o fator tempo para medi-la, a primeira reunião da Santíssima Trindade teria se dado 20 bilhões de anos antes da explosão primordial.

 

O Filho mostrava-se ansioso por iniciar o processo que, 13,698 bilhões de anos depois, o levaria a se encarnar em terras palestinas. O Pai cofiou suas longas barbas e mostrou-se de acordo, pois se sentia um pouco velho e temia que as criaturas inteligentes previstas no projeto não tivessem suficiente fé em sua onipotência.

 

O Espírito Santo, sempre cauteloso, objetou que convinha não se precipitarem. “A pressa é inimiga da perfeição”, disse, criando o jargão que, séculos mais tarde, se tornaria lugar comum. O projeto poderia dar errado e, no futuro, em vez de uma Criação paradisíaca, a mais inteligente das espécies, picada pela mosca azul, ousaria querer se comparar a Deus e inventar artefatos de guerra, para ceifar vidas, e alquimias biogenéticas para produzir seres destituídos de livre arbítrio.

 

A Trindade, então, descansou sempiterna por mais 20 bilhões de anos, até que o Pai e o Filho detonaram o ovo cósmico que deu origem ao Universo. O Espírito Santo não aprovou e, democrático, se admitiu como voto vencido. Previu, porém, que os seres inteligentes que resultariam do processo evolutivo da Criação jamais estariam unidos, mas, como Sísifo, buscariam incessantemente tal utopia teimando em estar sempre reunidos.

 

Hoje, há reuniões para preparar reuniões, e reuniões para avaliar reuniões. Na Cúria Romana, são infinitas as reuniões para decifrar se o pecado original consistiu em a serpente convencer Adão e Eva de comerem a maçã ou o fato de o casal não comparecer à segunda reunião na qual o Criador ficara de explicar por que semeara um fruto proibido no Jardim do Éden.

 

Como castigo, estamos todos condenados a fazer reuniões sem nunca chegar a duradouras uniões.

 

 

Frei Betto é escritor, autor de “Um Deus muito humano” (Fontanar), entre outros livros.

 

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