Mudança de Hillary Clinton: será pra valer?

 

 

 

 

Embora a imprensa considere Hillary Clinton praticamente eleita, ela tem ainda sérios problemas para garantir sua vitória.

 

Não vêm de Donald Trump, mas de um segmento com cujo voto a candidata democrata conta: os democratas progressistas, que em maioria absoluta tinham formado na campanha de Bernie Sanders.

 

Depois da derrota de Bernie, eles vacilaram em apoiar alguém considerada por todos a candidata desse “establishment” que queriam destronar.

 

Custou, mas o candidato socialista conseguiu convencer sua gente de que Hillary seria um passo à frente.

 

Importantes ideias progressistas que ela aceitara incluir na plataforma presidencial acalmaram aqueles que tanto lutaram pela revolução política defendida por Sanders.

 

Mas eis que fatos novos fizeram renascer antigas objeções devido a suspeitas de que Hillary iria descumprir suas promessas em duas questões vitais: o TPP e o fracking.

 

O TPP é um acordo comercial entre as nações do Oceano Pacífico (com exclusão da China e da Rússia) que, segundo os progressistas, causará perda de empregos nos EUA, prejudicará o meio ambiente, aumentará o custo da prescrição de medicamentos e ameaçará a capacidade do país de proteger a saúde pública.

 

Já o fracking é uma tecnologia de extração do gás de xisto para produzir petróleo, através da perfuração profunda do solo, onde é inserida uma tubulação e injetada grande quantidade de água e mais de 600 solventes tóxicos. Estudos comprovam que, onde o fracking foi adotado, ocorreram graves danos à saúde da população e ao meio ambiente: escassez e contaminação da água, contaminação e infertilidade do solo e grande aumento de doenças pulmonares e câncer, principalmente. Para se ter ideia do tamanho do perigo, existem atualmente nos EUA mais de 1 milhão e 100 mil poços.

 

E esse número tende a crescer ainda mais, pois se trata de um negócio altamente lucrativo por seu baixo preço de produção. Como nos EUA vigora o princípio do “é a economia, estúpido”, as leis são permissivas diante de possíveis danos aos cidadãos e ao meio ambiente causados pelo fracking.

 

Sob pressão de Bernie Sanders, Mrs. Clinton prometera lutar contra o TPP (Tanspacific Pacific Partnership) e a expansão do fracking.

 

Mas pareceu mandar essas promessas para o espaço, ao escolher para postos chaves duas figuras destacadas na defesa dessas causas que ela condenou.

 

Em vez de nomear para sua vice a senadora Elizabeth Warren, líder progressista, ela optou por Tim Kane, que, dois dias antes, votara a favor de poderes especiais para a aceleração do projeto do TPP, regando-o com fartos elogios.

 

Pior do que isso foi a nomeação do ex-senador e ex-secretário do Interior Salazar para a chefia da equipe de transição da presidência. A essa estratégica função de confiança cabe ajudar a implantar a nova administração, identificando, selecionando e vetando mais de quatro mil candidatos a cargos presidenciais.

 

Salazar é um firme e atuante defensor tanto do TPP quanto do fracking. Quando senador, esse cidadão foi um ativo aliado das empresas de petróleo, gás e minérios, pioneiras da nova tecnologia de produção de petróleo.

 

Voltando ao setor privado, ele apoiou fortemente o TPP e lutou com armas nos dentes contra restrições ao fracking.

 

Salazar ajudou um grupo pró-TPP – a Coalizão Progressiva Pelos Empregos Americanos - a rebater o argumento de que a TPP aumentaria as oportunidades das corporações para mover processos contra regiões ambientais protegidas.

 

Em novembro-2016, editorial do USA Today, escrito por Salazar e Bruce Babbitt, clamava que o TPP seria o acordo de comércio mais verde de todos os tempos, pois promoveria energia sustentável. Os dois citaram as posições antigas de Salazar em sua gestão da secretaria do Interior para fortalecer a credibilidade de suas mensagens.

 

Em dezembro, a devoção de Salazar ao fracking foi longe demais. Em artigo no Denver Post, proclamou que, ao contrário do que diziam, “as belezas naturais do Colorado, seu estado, seriam engrandecidas graças ao uso pelo TPP de padrões de proteção ambiental mais elevados do que qualquer acordo de comércio da história”.

 

Pouco antes de deixar seu posto no governo, este paladino do TPP e do fracking, numa conferência patrocinada pela indústria petrolífera, assinalou: “sabemos que não existe um único caso onde o fracking tenha causado um problema ambiental a qualquer pessoa”.

 

E convocou todos para a ação: “precisamos ter certeza de que esta história será contada”. De fato foi contada, mas não do jeito que Salazar gostaria.

 

A EPA (Agência de Proteção do Ambiente) calculou em aproximadamente 21 mil mortes nos EUA por câncer no pulmão, relacionadas ao gás radônio, a segunda causa de morte no país, espalhado pelo fracking.

 

Um estudo de 2014, realizado pelo Departamento de Saúde Ocupacional e ambiental do Colorado, revelou que mulheres que viviam perto de locais onde se fazia fracking têm 30% a mais de chances de gerarem bebês com defeitos congênitos no coração.

 

Como se vê, as escolhas de Kane e Salazar não batem com o apoio declarado de Hillary Clinton contra o TPP e o fracking e em defesa do meio ambiente, ameaçado por eles. É dose para os eleitores de Sanders.

 

Certamente não votarão em Trump, tido como o mal maior, mas muitos poderão ficar em casa no dia da eleição.

 

Ou mesmo votar em Jill Stein, candidata dos verdes, com ideias semelhantes às de Sanders, embora sem chances de emplacar.

 

O que poderá até ser desastroso para a candidatura democrata. Anna Salerno, ativista da campanha Sanders, colocou bem o problema. “Uma das minhas críticas é o fato de Hillary tentar apelar para ambos, esquerda e direita, ao mesmo tempo, e isto é difícil porque a situação agora está polarizada”.

 

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Luiz Eça é jornalista.

Website: Olhar o Mundo.

 

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