A política dos pixels - discurso fotográfico e manipulação histórica

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Hoje recebi a imagem acima num grupo de whatsapp, creditada ao habilidoso fotógrafo Lula Marques. Imagens podem ser interpretadas de muitas maneiras. Só que às vezes carregam discursos quase autoexplicativos, perfeitamente concatenados nas escolhas de enquadramento, na relação entre os seus planos e no seu timing político. Uma foto pode tornar-se um texto, um panfleto, uma palavra de ordem. Por apenas uma letra, a FOTO pode virar um VOTO. É esse, exatamente, o caso desta imagem.

 

Ao fundo, vemos a célebre imagem da Dilma guerrilheira em grande dimensão, de olhar altivo contra seus carrascos, em plena ditadura civil-militar. À frente, a seriedade da Dilma presidenta, com o rosto voltado para o mesmo ângulo da guerrilheira. A primeira mulher eleita presidenta do Brasil, injustiçada, às vésperas de um golpe de Estado comandado por seu vice. Dois planos, dois tempos históricos e uma única luta. A coerência parece estar encarnada no rosto incisivo de uma mulher forte, que, apesar da passagem do tempo, permanece combatendo pelos mesmos ideais.

 

Como não escorregarmos no aconchego da linearidade histórica? Como não nos reconfortarmos pelo sentimento de estarmos "do lado certo da luta política" há muitas e muitas gerações? Uma foto que emociona, faz vibrar o coração de uma juventude que não viveu a ditadura e admira a resistência das gerações anteriores. Pois é! Justamente por exercer tamanho magnetismo no sentido de uma interpretação única e linear da história brasileira que essa foto, enfim, torna-se uma brilhante peça de propaganda.

 

Trata-se de um discurso fotográfico com alto potencial de manipulação histórica (o que, atenção, não retira nenhum mérito do fotógrafo; não sendo ele genial, nada seria preciso dizer sobre seu clique).

 

De qual manipulação histórica estamos falando? Os expressivos olhares da guerrilheira e da presidenta, postos em coerência geométrica, geram a impressão de uma linearidade histórica que é simplesmente falsa.

 

O que representa o olhar da Dilma guerrilheira dos anos 1970? A coragem perante o inquisidor, a fidelidade às causas democráticas de uma ampla esquerda latino-americana, a convicção profunda de que é possível emancipar o Brasil do elitismo e do autoritarismo.

 

E o que representa o olhar da Dilma presidenta em 2016? A governabilidade como princípio, a covardia de um pragmatismo que entregou todos os pontos de um programa e agora está sendo (desgraçadamente) forçada a entregar também a faixa presidencial. A necessidade de ressuscitar símbolos do passado para ocultar as vergonhas do presente. A perplexidade de ter sido dócil com a oligarquia que agora a apunhala.


"E nós, aqui embaixo, dançamos". Não temos reformas de base para defender! Não temos reforma agrária, reforma tributária, reforma urbana. Muito pelo contrário. Temos o ajuste do Levy, o triunfo do agronegócio predatório, o sequestro das terras indígenas, a lei antiterrorismo e as alianças espúrias. Com muitas cerejas no bolo: o apoio do PT ao DEM para a presidência da Câmara e mais de 20% das coligações para prefeituras em chapa PT/PMDB. Temos a promiscuidade público-privada da Lava Jato e nenhum projeto de reforma política para reivindicarmos. Temos a conivência do nosso “governo de esquerda” com o oligopólio das comunicações, que hoje reedita seu golpismo do passado. Será mesmo essa a única esquerda possível que o Brasil pode desenvolver?


Por estes e outros motivos, essa foto precisa ser amplamente debatida. É hora da esquerda brasileira se confrontar com tal divergência de maneira generosa e firme. Onde queremos realmente chegar? E por quais caminhos?

 

A experiência petista no governo foi extremamente importante. Devemos reconhecer os méritos da inclusão social, do aumento do bem estar, de uma juventude com avós e pais analfabetos que entrou na universidade, das moradias populares construídas, do aumento do salário mínimo, e por aí vamos. Devemos reconhecer os avanços no debate público proporcionados pela Comissão Nacional da Verdade e todas as suas edições estaduais e locais. Fazer tábula rasa entre PT e PSDB obstrui qualquer diálogo. Não façamos. Mas tampouco podemos cair no perigoso mito produzido por esta imagem. Esse mito nos levará à repetição dos mesmos erros.


Repetir ou criar? Eis a questão.

 

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Joana Salém Vasconcelos é doutoranda em História Econômica na USP, professora e militante do PSOL-SP.

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