Tchau, querida! (Bye, bye, Lava Jato)

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Quanto mais se aproxima a confirmação do impeachment da presidente já afastada Dilma Rousseff (PT-RS) alguns pontos começam a ficar claros. Este artigo pode ficar apenas no seu título, ou seja, a mensagem “tchau, querida!” evocada na votação da Câmara dos Deputados em abril mostra seu sentido mais amplo: o recado não era apenas para Dilma, mas para parar a todo custo a Operação Lava Jato.

 

Esse é um ponto que precisa ser marcado e que foi decisivo para que eu fosse claramente contrário ao impeachment de Dilma e, ao mesmo tempo (esse ajuste de contas precisa ser feito aqui), “acusado” de perfilar o ex-governismo petista, por acreditar, como se vê, que a permanência de uma Dilma enfraquecida era o que possibilitava o ímpeto da Lava Jato, mais do que as habilidades contestáveis do juiz Sérgio Moro, como alguns insistiam. Aliás, é um sintoma de ignorância acreditar que a Operação Lava Jato se restringia a esse ator da forma como o senso comum esquerdista alardeia.

 

Vê-se que foi uma postura equivocada de quem ficou contra a Lava Jato por conta dos atos de Moro contra Lula em duas ocasiões: na sua condução coercitiva e na fracassada nomeação dele como ministro, ambas absurdas. Agora se veem perfilados com o ensaboado juiz do STF Gilmar Mendes, tido como “golpista”, e sua declaração sincera sobre o “cemitério dos heróis”, referindo-se aos procuradores, para começar a estancar de vez a Operação.

 

Assim, o petismo mais conservador e polarizado com o PSDB pode confirmar que a Lava Jato “não deu em nada”, esquecendo-se, claro, da colaboração permanente de Lula (PT-SP) e do próprio PT no “sacrifício” de Dilma, com a concordância da mesma, claro também, em “ficar na história” como quem fosse traída por Judas, para poder falar do golpe e pavimentar o retorno de Lula em 2018 ou mesmo a difícil transferência de capital político para Ciro Gomes (PDT-CE).

 

O afastamento de Dilma e a paralisação da Lava Jato são as duas faces da mesma moeda que visa estabilizar um sistema político que luta para se preservar depois de uma pesada turbulência chamada junho de 2013, que começou nas ruas e legitimou o instrumento de delação premiada, aprovado em agosto de 2013, que caracterizou a Lava Jato tanto quanto os vazamentos midiáticos calculados milimetricamente.

 

Em suma: saímos das mobilizações em ruas e redes para os tribunais e operações policiais, contradição que merece ser marcada aqui, com uma eleição presidencial e congressual no meio em continuum que segue para o fim de um governo Temer que promete Thatcher e pode nos entregar uma reedição de Sarney, como bem apontou Marcos Nobre em uma análise recente.

 

“Volta querida”? Esse é o cenário para a semana final das esperanças de Dilma. Destaque-se ser improvável que ela reverta a votação no Senado. Nunca se sabe. Mas é preciso destacar que o “Tchau, querida!” não era só para ela, pois visava atingir a Operação Lava Jato, que agora se despede, com ou sem Dilma.

 

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Marcelo Castañeda é sociólogo e pesquisador da UERJ.

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