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Pensando a longo prazo – Ciência e Weber Imprimir E-mail
Escrito por Wladimir Pomar   
Qui, 18 de Agosto de 2016
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Jessé Souza, apesar ou por causa de sua defesa das teorias de Weber, se vê na contingência de dizer que “o uso do prestígio científico weberiano” teria servido “para a afirmação de uma visão distorcida, conformista e superficial da realidade”.

 

Tal visão teria conduzido “à construção de uma oposição substancial entre sociedades avançadas do centro – Europa Ocidental e Estados Unidos – e sociedades atrasadas da periferia”, por meio do uso, “em grande medida das categorias weberianas”, em sua versão mais “moderna”, “culturalista” e “patrimonialista”.

 

Jessé reafirma que “patrimonialismo, para Weber, representa acima de tudo um simples aumento quantitativo da economia doméstica... Ainda que existam pressupostos ideais novos, como a necessidade de liderança carismática do líder patrimonial”. Em vista disso, seria “fundamental a vinculação entre a concepção de mundo (no sentido de conjunto articulado de normas e valores) e os estratos sociais que servem de suporte a essa concepção”.

 

Para evitar outras “visões distorcidas”, Jessé alerta que “aqui não se trata da causalidade materialista marxista, que reintroduz por outros meios a noção de subjetividade individual transformada agora em sujeito coletivo com consequências deletérias para a análise social”.

 

Para ser franco, o “culturalismo” e o “patrimonialismo” não são “visões distorcidas, conformistas e superficiais da realidade”, em contraste com as “categorias weberianas”. Elas são aplicações precisas de tais “categorias”. São weberianismo puro. Distorcida é a suposta existência de uma “causalidade” materialista marxista, categoria que não existe na teoria materialista histórica de Marx, e que Jessé utiliza como um espantalho para amedrontar possíveis desavisados.

 

Distorcida também é a suposição de que o “objetivo maior da ciência” “bifronte” consiste na “crítica do senso comum e suas ilusões”. O que me leva a perguntar se Jessé acredita mesmo nisso. Isto porque, se a ciência ficasse restrita ao combate ao “senso comum”, ela seria incapaz de avançar pelos caminhos da ”concepção de mundo”. Incapacidade que se agravaria com sua limitação ao “conjunto articulado de normas e valores”, relacionado aos “estratos sociais que servem de suporte a essa concepção”.

 

A ciência tem a ver com o conjunto da realidade em que vivem e se desenvolvem os seres humanos. Inclui as realidades macros, o cosmos e a natureza terrestre, assim como os caminhos micros das partículas atômicas. Isto, para ficar apenas em alguns itens que sequer fazem parte do “senso comum”, por total ignorância, ou “do conjunto de normas e valores” que alguns supõem comandar eternamente as sociedades humanas.

 

Às ciências cabe pesquisar essas realidades, mesmo que o entorno cósmico e a miríade quântica das partículas atômicas pareçam distantes e inacessíveis. Num caso, a perspectiva de queda de meteoros destruidores não é totalmente descabida e deve representar uma preocupação séria. No outro, a energia que o choque de algumas partículas pode gerar, assim como os estragos causados por vírus, também merecem atenção.

 

As concepções que as ciências têm a respeito desses assuntos podem ou não estar relacionadas a “estratos sociais” que lhes sirvam de base. Na prática, membros de um estrato social que desenvolvem a ciência podem estar produzindo conhecimentos benéficos para estratos sociais que nada têm a ver com tal base.

 

Durante a chamada Idade Média, por exemplo, em que o feudalismo era o modo de produção dominante, os homens que desenvolveram vários conhecimentos científicos, a exemplo de Copérnico, Galileu, Kepler e outros, pertenciam às classes feudais dominantes. Mas quem se aproveitou desses conhecimentos foram as classes, ou estratos sociais, mercantis, em geral em luta contra os feudais. Marx e Engels também podem ser tomados como exemplos dessa contradição, por pertencerem a estratos burgueses.

 

Ou seja, desde que as ciências começaram a se desenvolver, com base em observações empíricas acumuladas, elas têm se batido não só contra o senso comum, mas também e principalmente contra visões pseudocientíficas que têm por base interesses materiais e culturais de “estratos sociais” específicos, mesmo que, muitas vezes, os cientistas pertençam a tais estratos sociais. Quando isso aconteceu, esses homens de ciência foram considerados traidores. E muitos deles foram obrigados a calar-se (Copérnico, até estar à beira da morte, e Galileu, para salvar-se), ou a morrer na fogueira (Giordano Bruno e vários outros).

 

Isso só mudou, em parte, com o capitalismo, no qual um número considerável de ciências se transforma em forças produtivas, a exemplo principalmente da química, da física e da eletrônica. Criou-se uma situação em que os estratos sociais dominados vivem subordinados ao “senso comum” e, por isso, têm poucas condições de se apropriarem das ciências. Mas os estratos dominantes se apropriam privativamente daquelas ciências que podem elevar sua produtividade, e repelem ou deturpam os avanços científicos daquelas que colocam a nu suas contradições internas, a exemplo da teoria da “oposição” entre “sociedades avançadas do centro – Europa Ocidental e Estados Unidos – e sociedades atrasadas da periferia”.

 

Tal oposição é um dado da realidade histórica, mensurável por uma série considerável de dados empíricos, como níveis industriais, agrícolas, comerciais, de transportes, educacionais, científicos, de saúde etc. Trata-se de dados empíricos não restritos a um “simples aumento quantitativo da economia doméstica” ou à inexistência ou existência de “lideranças carismáticas”.

 

Essa “oposição” resulta do desenvolvimento econômico, social e político desigual (e descombinado) do processo histórico de surgimento e evolução do capitalismo nas diferentes nações e regiões do globo. Esse desenvolvimento histórico desigual permitiu às “sociedades do centro”, que primeiro desenvolveram o modo de produção capitalista, explorarem as nações e regiões da periferia, que ainda não haviam ingressado no capitalismo, ou haviam ingressado, mas estavam “atrasadas” em seu desenvolvimento.

 

Não devemos esquecer que o conceito de “oposição” não pode ficar restrito à relação entre as nações centrais e as nações periféricas. A concorrência, ou competição, é uma lei inerente ao desenvolvimento do capitalismo. Ela não só torna o mercado interno de cada nação uma arena, muitas vezes sangrenta, da luta entre capitais, mas faz o mesmo com o mercado mundial, sendo a base de pelo menos duas guerras mundiais e de um sem-número de guerras regionais e locais.

 

No entanto, quando a oposição entre “avançados” e “atrasados” passa a ser apresentada como algo que só existe na cabeça de alguns, na suposição de que o modo de produção que ocorre na Alemanha é o mesmo que ocorre no Brasil, como pensa Jessé, temos pela frente uma daquelas visões distorcidas, conformistas e superficiais da realidade, que merecem ser vistas mais detidamente.

 

Leia também:

 

Pensando a longo prazo – ainda sobre a ciência

 

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Wladimir Pomar é escritor e analista político.

 

 

 

 

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