Brasil-Estados Unidos – atritos latino-americanos

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Enquanto o Brasil conclui em breve novo processo de sucessão presidencial, os Estados Unidos aguardam o seu para novembro com duas candidaturas bastante conservadoras, não obstante os esforços retóricos para diferenciar a postura dos titulares de cada partido, mas não seus posicionamentos doutrinários no tocante à cobrança de impostos de setores mais abastados ou de amenização imediata dos efeitos da pobreza extrema.

 

Em ambos os casos, a eleição será indireta, ainda que por caminhos muito distintos. Tanto lá como cá, parte da população lamenta a falta – bem real – de opção se considerada a necessidade de modificações socioeconômicas, em decorrência da desigualdade crescente. Ao final de 2016, concretizar-se-á o quadro presidencial norte-americano, momento que não deverá alterar o relacionamento amero-brasileiro.

 

Em 2009, o país, apesar de preocupado com o envio de militares estadunidenses para o continente sul-americano sob a justificativa de cooperação técnica, preferiu a discrição no tratamento do tema, posicionamento diverso de Venezuela e Bolívia.

 

No caso, o alvo era a Colômbia, tradicional parceira castrense do Norte, invocadora de nova aliança com os Estados Unidos em nome de férrea oposição ao narcotráfico – motivo por que Bogotá havia recebido em uma década cerca de 500 milhões de dólares por ano – e à guerrilha de tradicional inspiração de esquerda. Aos olhos de uns, nem seria possível distinguir os dois assuntos em decorrência de uma suposta convergência na atuação de seus líderes.

 

De forma cautelosa, Brasília sugeriu aos componentes da União de Nações Sul-Americanas (UNASUL) em sua cúpula de agosto daquele ano em Quito abordar a temática no mês seguinte em Nova York, quando da realização da semana de abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

 

O tópico seria posto de lado de maneira temporária, em vista de outro cujo anúncio, em razão da lembrança do período da Guerra Fria, aturdiria sem sombra de dúvida a região: o afastamento do poder de um dirigente eleito.

 

A questão referia-se a um pequeno país, Honduras, importante de modo regional na disputa bipolar nos anos 80 por causa da situação de contestação da Nicarágua. O elo não era somente político, uma vez que boa medida das exportações destinava-se aos Estados Unidos.

 

Empossado em janeiro de 2006, Manuel Zelaya havia sido deposto por segmentos conservadores atônitos com os vínculos políticos com o governo de Hugo Chávez através da Aliança Bolivariana das Américas (ALBA). No entanto, em vez de recorrer a Miraflores, o mandatário hondurenho afastado buscou-se socorrer com o Planalto.

 

A intervenção da Organização dos Estados Americanos (OEA) de suspender o país não havia tido desdobramento prático. A Casa Branca não havia subscrito aquele golpe, porém, não retaliou o governo provisório de forma terminante.

 

O Brasil tinha interesse em resolver a questão porque investimentos de centenas de milhões de dólares estavam previstos para Honduras – duas usinas hidrelétricas (Los Llanitos e Jicatuyo) - com o propósito de diminuir a dependência de recursos térmicos, responsáveis por dois terços do consumo, e de fomentar o turismo e a piscicultura.

 

Parte da edificação seria financiada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Todavia, naquela altura, nem um – o retorno do presidente repudiado – nem outro – o início da obra – ocorreriam, apesar de apropriada, a todos os respeitos, a movimentação da diplomacia brasileira.

 

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Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e é professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

 

 

 

 

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