A guerra norte-americana na Líbia e a balcanização das áreas de produção petrolífera

 

 

 

 

 

Depois de quase treze anos uma esquadra naval da Quinta Frota da Marinha dos Estados Unidos foi deslocada do Golfo Pérsico para o Mar Mediterrâneo, para integrar o grupo de ataque que em 29 de julho começou a bombardear as posições dos jihadistas do Estado Islâmico (EI) em Sirte.

 

No dia 2 de junho, o “grupo de fogo” liderado pelo porta-aviões USS Harry S. Truman, juntamente ao cruzador Anzio, os destroyers Bulkeley, Gonzáles e Graveley e dois submarinos de ataque rápido (1) atravessavam o Canal de Suez para entrar no Mar Mediterrâneo e ir atracar no porto turco de Antalya.

 

Inicialmente os F-18 do porta-aviões Truman realizaram numerosas operações no céu da Síria para contrabalançar na região a presença das forças aéreo-naval da Rússia, empenhadas em dar cobertura ao exercito sírio de Bashar el-Assad nas batalhas para a reconquista da estratégica cidade de Aleppo.

 

Por outro lado, a presença desta esquadra naval frente ao porto turco de Antalya e as missões de seus aviões nos seus da Síria acirravam, ainda mais, as relações entre a Casa Branca e o governo islâmico do presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan, suspeito de ser a “eminência parda” que sustenta os jihadistas do EI.

 

Por isso, quando o porta-aviões estadunidense Uss Dwight D. Eisenhower cruzou o estreito de Gibraltar entrando no Mar Mediterrâneo, toda a esquadra naval da Harry Truman deixou o porto turco de Antalya para estacionar nas águas territoriais italianas. Paralelamente, também o porta-aviões francês Charles De Gaulle - que após os atentados terroristas do EI em Paris foi enviado em missão no Golfo Pérsico -, se posicionava nas águas territoriais italianas em direção à região de Sirte.

 

Segundo as previsões do Comando da Sexta Frota da Marinha dos EUA, o referido “grupo de fogo” ficará empenhado na Líbia até janeiro de 2017, realizando, em media, 1200 operações. Neste serão lançadas 1.100 “bombas inteligentes” (2) e atacadas posições no solo, prevendo gastar 550 toneladas de munições disparadas pelos F-18 com seus canhões M61 Vulan de 20 mm e as metralhadoras Gatling.

 

O governo fantoche, o petróleo e o Estado Islâmico

 

Hoje, todos reconhecem que a destruição da Líbia de Kadafi em 2011, por parte de EUA, França e Inglaterra, não foi apenas militar. A destruição da Jamahiriya (palavra que pode ser traduzida como “Estado Popular”) Líbia provocou o fim dos entendimentos e das relações que durante anos haviam permitido o funcionamento centralizado de um Estado, com quase 35 tribos, étnica e culturalmente diferentes, e quase um milhar de clãs familiares. Infelizmente, com a morte de Kadafi, os chefes tribais decidiram se empossar de parcelas do território líbio que começaram a defender com a criação das “milícias”.

 

Nunca foi possível pacificar as tribos, nunca houve entendimento entre os clãs e, sobretudo, nunca houve a desmilitarização das milícias. Esse latente conflito virou, rapidamente, guerra civil em função da necessidade de controlar as refinarias de petróleo, os terminais marítimos de carga, os oleodutos, os gasodutos ou os campos de extração e depois negociar com as multinacionais. De fato, logo após a execução de Kadafi e o expurgo de toda a estrutura dirigente da Jamahiriya, as multinacionais europeias e estadunidenses começaram a prometer a compra de hidrocarbonetos somente a quem conseguia garantir o recomeço da produção e, portanto, das exportações.

 

Desta forma, as milícias se multiplicaram, alimentando cada vez mais uma guerra civil que transformou a Líbia em um “Não-Estado”. Um contexto que nos últimos três anos paralisou quase por completo as exportações de petróleo e de gás, visto que em 2015 os dois maiores portos de petróleo líbios, Es Sider e Ras Lanuf, que têm uma capacidade total de produção de cerca de 600 mil barris por dia, foram fechados devido aos confrontos armados entre as diferentes milícias.

 

Uma situação que destruiu a economia e todas as infraestruturas. Por isso, hoje na Líbia há muitas cidades sem energia elétrica. A distribuição da água potável é precária e na maioria dos casos é garantida por carros-pipas que os próprios moradores pagam para garantir seu abastecimento. Os hospitais e o sistema de correio quase não existem mais. As redes comerciais que vendiam os produtos alimentares ficaram reduzidas aos 10% e todas as fábricas foram todas destruídas.

 

Foi nesse difícil contexto que: a) os fundamentalistas jihadistas do EI inventaram a criação do Emirado Islâmico de Sirte; b) em Benghazi se consolidou o poder do general Khalifa Halftar (apoiado pelo Egito e a Arábia Saudita), que se tornou o defensor do Governo/Parlamento de Tobruk; c) em janeiro de 2016 o novo chefe de governo de Unidade Nacional, Fayez al-Sarraj, chegou à capital Trípoli, procedente da Tunísia, em um navio da Marinha, ficando enclausurado com seu governo na base naval. Porém, em junho Fayez al–Sarraj costurou a aliança com as milícias islâmicas de Misrata, ligadas à Irmandade Muçulmana, que controlam o porto daquela importante cidade.

 

Apresentando uma aparente estabilidade na capital, Trípoli, Fayez al-Sarraj pediu às Nações Unidas autorizar os Estados Unidos para atacar as posições do EI na região do Sirte. Na realidade, a guerra contra o EI é outra tentativa para recolocar os Estados Unidos, a França e a Inglaterra na Líbia com a medalha de libertadores. Uma operação que permitirá viabilizar os acordos que as multinacionais estão costurando entre os grupos rebeldes da Cirenaica, os milicianos chamados “Guardiões do Petróleo” que controlam os portos de Ras Lanuf, Sidra e Zueitin e a empresa estatal de petróleo NOC, controlada pelo chamado Governo de Unidade Nacional de Fayez al-Sarraj.

 

De fato, este acordo permitiria a exportação de 600.000 barris de petróleo ao dia a preços “preferenciais” e o regularização das exportações, sempre que o governo de Trípoli garanta a transferência de 40% da venda do petróleo ao governo rebelde da Cirenaica.

 

Por isso, a intensificação dos ataques às posições do Emirado Islâmico de Sirte, por parte dos Estados Unidos, seria a resposta política que o chamado Governo de Unidade Nacional de Fayez al-Sarraj pretende dar aos rebeldes da Cirenaica e ao governo/parlamento de Tobruk, no lugar dos 40% da receita petrolífera, uma vez que o general Khalifa Halftar, em três anos, não conseguiu acabar com chamado Estado Islâmico, que agora dispõe de apenas 1.200 homens.

 

Itália vai à guerra

 

O primeiro-ministro, Matteo Renzi, e seu ministro das Relações  Exteriores, Paolo Gentiloni, apresentaram no Parlamento um decreto lei que permite aos Estados Unidos usarem as bases aéreas de Aviano, Sigonella e Decimomanno. Além disso, admitiram que a Itália participará nesta guerra somente por “missões humanitárias”. Uma frase que faz lembrar a “ajuda humanitária” que o governo italiano de centro-esquerda, liderado por D’Alema, deu à OTAN para desestabilizar a Federação da Iugoslávia e depois criar os Estados fantoches da Bósnia e de Kossovo.

 

É evidente que a Itália participará nesta guerra com uma contingente de 5.000 homens, que será empenhado nas operações “de ajuda humanitária” mais complicadas, na região de Sirte, tal como aconteceu no Iraque. A Constituição veta tais operações militares, porém, as alianças entre o PD e a direita de Berlusconi vão silenciar as denúncias da oposição, que no Parlamento iniciou um longo debate enumerando as perigosas consequências desta “ajuda humanitária”. Isto é: os possíveis atentados que os “lobos solitários” do fundamentalismo islâmico poderão fazer nas cidades italianas em represália, tal como aconteceu na França, na Bélgica e agora até na Alemanha.

 

Infelizmente o governo de Matteo Renzi, que se apresenta com a etiqueta de centro-esquerda, é um perfeito servente da Casa Branca e do eixo franco-alemão que, neste momento continuam a construção do chamado”bloco imperialista europeu”, também conhecido por União Européia!

 

Por outro lado, a participação da Itália neste conflito é desejada pelos empresários e os banqueiros, do momento que quem ficará com as armas na mão, desta vez terá direito a explorar os recursos energéticos deste país. De fato, a estatal ENI foi a única empresa petrolífera européia que permaneceu na Líbia durante  estes anos, graças a uma serie de acordos  com os diferentes representantes das tribos e das milícias. Por isso o governo Renzi sofre uma grande pressão do mundo empresarial italiano que espera ganhar milhões de “petro-dólares” com na reconstrução da Líbia!

 

O drama disso tudo é o que vai acontecer nos próximos meses se os rebeldes da Cirenaica decidirem, novamente, fechar os portos petrolíferos de Ras Lanuf, Sidra e Zueitin, caso o Governo de Unidade Nacional de Fayez al-Sarraj não aceite transferir os 40% da receita petrolífera, que em sua maioria são obtidos com o petróleo e o gás extraídos nos campos petrolíferos da Cirenaica.

 

 

 

NOTAS

 

1) Trata-se dos submarinos da classe “Los Angeles”, muito utilizados para o desembarque de tropas especiais e o lançamento de foguetes antitanques.

 

2) As bombas inteligentes dos F-18 e dos F-18 Super Hornet são a JDAM precision-guided muition e a Paveway, que é uma bomba teleguiada com o laser.

 

Achille Lollo é jornalista italiano do jornal “CONTROPIANO”, editor do programa TV “Contrappunto Internazionale”, colabora com a revista “Nuestra América” e é colunista internacional do “Correio da Cidadania”.

 

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